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Crítica | Lupin III: A Tumba de Jigen

por Kevin Rick
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A Tumba de Jigen é um filme especial de duas partes lançado em cinemas selecionados e vendido mundialmente através de mídia física e streamings, o que é uma pena total, viu? Apesar de ter apenas 51 minutos, essa é minha obra favorita – até o presente momento desta crítica – do universo de Lupin III, e com uma duração um pouquinho maior, e totalmente merecida, temos, sem sombra de dúvidas, material para lançamento em Cinemas mundiais, muito melhor do que o famoso Lupin III – O Primeiro.

O filme se desenrola como dois episódios costurados e entrega uma narrativa direta e simples, mas bastante incomum em adaptações do mangá de Monkey Punch por causa do tom mais sombrio e sisudo. Aqui, vemos Lupin III e seu parceiro pistoleiro Daisuke Jigen nos seus primeiros dias de colaboração criminosa, tentando roubar um diamante do país “East Doroa”, mas durante a fuga da dupla, o perigoso assassino Yael Okuzaki quase mata os personagens. Jigen fica surpreendido quando descobre que está marcado por Okuzaki, conhecido por sempre enviar uma mensagem de cortesia às vítimas antes de sua morte, na forma de uma lápide pré-fabricada – daí o ótimo título do filme.

Não irei adentrar em grandes detalhes da narrativa, mas, assim como grande parte do cânone de Lupin III, a trama é simplória e objetiva, só que de uma perspectiva estilística que ainda não tinha visto em longas-metragens e séries da franquia. O cineasta Takeshi Koike se desvencilha quase que totalmente do tom humorístico e descompromissado que tornou o Universo popular, e dilui o básico enredo em uma animação noir, tomando o gênero de mistério policial e também de espionagem como influência narrativa e, principalmente, atmosférica do filme.

Claro que há certos níveis de exagero, mas é um exagero mais realista e fundamentado, me lembrando a descrença de filmes clássicos do Bond. Ficção científica, apetrechos malucos, vilões megalomaníacos, comédia surreal, entre outros elementos habituais de Lupin III saem completamente de cena, dando espaço para uma animação cheia de suspense do submundo do crime, violência estilizada entre os embates dos pistoleiros – até meio western em vários planos de duelo -, foco detetivesco no arco de Lupin III – um refresco para sua habitual astúcia insana -, um humor seco e maduro, além de uma certa sensualidade suave nos diálogos mais intimistas, design de produção dos anos 60/70 e a calma trilha sonora de jazz.

Ademais, gosto muito de como Koike decide retirar o escopo de salvar o mundo e das sequências de ação em grande escala, que são sim a identidade da franquia, e eu adoro essa pegada maluca, mas, caramba, como é gostoso e fascinante assistir um filme de Lupin III com esta pegada completamente inesperada de um noir contido, meio mórbido e surpreendentemente dramático. Aliás, o tom mais intimista do filme traz outra grande qualidade da animação: o ótimo relacionamento de buddy “thief” entre Lupin e Jigen, naquela crescente de confiança fraternal que conhecemos do gênero policial, além de trazer um interessantíssimo background para o pistoleiro frio e carrancudo, muitas vezes resignado ao papel de coadjuvante.

O fato de não termos grande parte do elenco da série aqui, em especial a ausência de Goemon e Zenigata, e uma pequena pontinha de Fujiko – único núcleo que não gosto do filme, contendo uma bizarra sequência sádica e de péssima sexualização da personagem -, trazem algo que outros filmes de Lupin III fraquejam: foco. Diminuir o escopo e a escala para dar atenção especial para Jigen, seu relacionamento com Lupin III, seu duelo orgulhoso com Okuzaki – ótimo adversário, tanto em caracterização, como também oposição -, tornam a dramaturgia completamente fascinante, a despeito da simplicidade. Não machuca que a trama acontece em torno de uma deliciosa atmosfera violenta, noir e estilizada. Lupin III: A Tumba de Jigen é uma “pequena” animação que merece ser vista pela coragem e assinatura autoral de Takeshi, um artista que soube pegar o famoso material e inovar.

Lupin III: A Tumba de Jigen (Rupan Sansei: Jigen Daisuke no Bohyō) — Japão, 2014
Direção: Takeshi Koike
Roteiro: Takeshi Koike (baseado nos personagens de Maurice Leblanc e graphic novel de Monkey Punch)
Elenco (vozes): Kanichi Kurita, Kiyoshi Kobayashi, Akio Hirose, Miyuki Sawashiro, Marika Minase, Beverly Staunton, Kanji Obana, Kōichi Yamadera
Duração: 51 min.

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