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Crítica | Lupin III: O Segredo de Mamo

por Kevin Rick
235 views (a partir de agosto de 2020)

Depois do sucesso do mangá Lupin III, de Monkey Punch, e também da adaptação televisiva de 1971, o universo do neto de Arsène Lupin se tornaria conhecido mundialmente com O Castelo de Cagliostro, dirigido pelo lendário Hayao Miyazaki. Dito isso, a animação encabeçada pelo co-fundador do Estúdio Ghibli, de longe a mais célebre do Lupin III, veio depois de O Segredo de Mamo, tema desta crítica. O primeiríssimo longa-metragem animado das aventuras do ladrão-cavalheiro, dirigido por Sôji Yoshikawa, mantém o estilo de diversão frenética e absurda do mangá e do anime em mais uma história de roubos, traições e reviravoltas do gênio do crime, Arsène Lupin III.

O filme começa com a morte do protagonista, e vemos o fanático inspetor Zenigata ir até o Castelo do Drácula, na Transilvânia – por que não? – confirmar a morte de seu nêmesis. Obviamente que nosso anti-herói está vivo, e a partir daí, o roteiro continua abraçando o surrealismo narrativo como meio de propor humor incoerente, me lembrando comédias slapstick ou então animações do Looney Tunes, na mesma identidade maluquinha da série. A diferença está no orçamento da obra, e como a equipe criativa desfruta do maior espaço criativo para criar várias longas sequências de ação estilizadas.

Temos perseguições em corredores e túneis de uma pirâmide, carros fugindo de helicópteros dentro de um esgoto, uma insana sequência que Lupin III atravessa uma sala que é um quadro de Salvador Dalí para esbarrar em Adolf Hitler e um desfecho com mísseis nucleares e referências à 2001 – Uma Odisseia no Espaço.  Tudo isso enquanto mantém um estilo marginal de animação, bastante maduro aliás, com várias armas de fogo, nudez e muitas mortes (nada gráfico, para pontuar, mas ainda incomum em animações com esta proposta). Dessa forma, há uma espécie de dualidade humorística, algo que já falei na crítica do anime, no qual este tom de descompromisso infantil é feito com um visual adulto. O filme realmente não foi feito para crianças, então é muito curioso como a obra propõe um humor mais bobo para uma audiência mais velha, e se o espectador entender e abraçar o conceito, estará diante de uma experiência despojada e divertidíssima.

Não há, de maneira alguma, coerência narrativa, e o legal é que não há importância nisto. O grande vilão da obra, chamado Mamo, é um imortal em busca da Pedra Filosofal para cumprir sua pesquisa de clonagem e dominação mundial, enquanto nosso querido Lupin III quer apenas conquistar o coração de Fujiko, a femme fatale que o arrastou para essa bagunça. Tentar compreender a história é se resignar da melhores partes do filme: ver Lupin III roubando a Pedra Filosofal e enganando o poderoso Mamo, assistir o inspetor Zenigata falhar miseravelmente em todas suas investidas de captura, acompanhar a dinâmica do protagonista com seus comparsas Daisuke Jigen, um atirador tradicional cansado da ingratidão de Lupin, e Goemon Ishikawa, uma personificação cômica da disciplina e estoicismo da cultura samurai, além do “romance” platônico entre a traiçoeira Fujiko e um ingênuo Lupin III, e, claro, como eu disse anteriormente, as várias sequências criativas de ação, fuga, batalhas e afins.

Infelizmente, a obra tem sim alguns problemas, como a caracterização e diálogos exagerados, o estranho desenvolvimento do arco de Fujiko, naquela comum e lamentável reclamação do retrato feminino em animações japonesas, e também acho que o terceiro ato abraça demais a ficção científica e aos poucos se esquece do tom de aventura despretensioso e acelerado. Contudo, são pormenores na experiência audiovisual surrealmente cômica de O Segredo de Mamo, composto por belíssimos planos abertos de desertos, viagens de ficção científica, metrópoles e até um porta-avião americano, como também uma explosão de cenários, cores e estilos de animação à mão acompanhados de uma deliciosa trilha sonora de jazz e funk. Um grande exemplo artístico de animação e humor feito por pessoas explodindo com imaginação.

Lupin III: O Segredo de Mamo (Rupan Sansei: Rupan tai Kurōn, ルパン三世 ルパンVSクローン複製人間) — Japão, 1978
Direção: Sōji Yoshikawa
Roteiro: Atsushi Yamatoya, Sōji Yoshikawa (baseado nos personagens de Maurice Leblanc e graphic novel de Monkey Punch).
Elenco (vozes): Yasuo Yamada, Eiko Masuyama, Kiyoshi Kobayashi, Makio Inoue, Goro Naya, Kō Nishimura
Duração: 102 min.

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