Crítica | Luta Por Justiça

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Quando se pensa no subgênero drama de tribunal e que envolve a questão racial, é difícil não se lembrar da obra-prima O Sol É Para Todos (1962), de Robert Mulligan. Claro, é um tanto quanto injusto estabelecer um patamar tão elevado como base de comparação para Luta por Justiça, principalmente se pensarmos nas disparidades entre o lendário Gregory Peck e Michael B. Jordan — não me entendam mal, pois eu gosto de MBJ, principalmente por Fruitvale Station: A Última Parada. Infelizmente, 57 anos se passaram e é triste constatar que ainda é muito necessário contar histórias sobre como o sistema penitenciário ainda está totalmente preso a uma lógica racista e que, consequentemente, as condenações à morte podem estar atingindo muitos inocentes. Bem, e de que forma o novo filme de Destin Daniel Cretton traz um refresco ao tema que aborda?

Em 1986, o afro-descendente “Johnny D.” (Jammie Fox) fora acusado de matar uma jovem branca em Monroeville, Alabama — no Sul dos Estados Unidos. Condenado a pena de morte e já desesperançoso por conta dos seus advogados anteriores que nada fizeram, aquele homem se vê diante do advogado recém-formado de Harvard, Bryan Stevenson (Michael B. Jordan). Contudo, a diferença deste para os outros é que existe no jovem graduado um grande espírito idealista e que, acima de tudo, por também ser negro, Bryan sabe que ele pode estar diante de uma grande injustiça. Ao constatar que há diversas incongruências nos depoimentos originais, o caso será julgado novamente. 

O primeiro problema de Luta por Justiça se encontra justamente na figura de seu protagonista. Aliás, quem é seu protagonista? O advogado, o condenado, ou a luta racial como um todo? Baseado no livro escrito pelo próprio Bryan Stevenson, fica um pouco claro que o ponto de vista predominante acaba sendo deste. Em um certo momento da trama, o advogado é até acusado de estar pegando estes casos de pena de morte para uma autopromoção de seu trabalho e, de certa forma, a própria lógica do filme é um tanto quanto cúmplice disso. Com uma clássica cara de produção feita para a temporada de premiações e com um roteiro repleto de frases de efeito para que Michael B. Jordan brilhe, entramos em uma questão até paradoxal aqui. 

Afinal, se Luta Para Justiça é para exaltar o ativismo de Stevenson ou para consagrar Jordan, toda a luta racial vira segundo plano dentro da narrativa e, assim, duvida-se de suas intenções. Aliás, ainda que este seja uma autobiografia do advogado, trata-se de um recorte muito estranho que pouco aprofunda suas motivações e deixa seu relacionamento com Eva Ansley (uma desinteressada Brie Larson) solto no meio dos outros acontecimentos. Voltando à questão racial, Cretton opta por retratar os policiais e membros do poder de Monroeville como supremacistas sem compaixão alguma e que sentem até um certo prazer erótico, como na cena da revista ou do próprio policial que morde a boca de prazer ao ver o negro sendo eletrocutado. De fato, não há nenhum problema em ir por este lado, já que, de fato, existem pessoas assim (algo que é muito bem retratado em Infiltrado na Klan), mas me parece meio contraditório que o roteiro vá buscar uma humanização dessas pessoas no terceiro ato, principalmente na figura do promotor vivido por Rafe Spall. Em consequência, toda a redenção do personagem parece servir apenas ao andamento da trama.

De mesmo modo, como uma típica história de tribunal, no qual seu clímax se passa no julgamento final, me impressiona o quanto esta talvez seja uma das cenas mais desinteressante dos últimos tempos dentro deste gênero. Cretton aposta em um plano unicamente no rosto de Jordan e aquilo basicamente se torna uma leitura de roteiro clichê que sai da boca do ator da maneira menos impactante possível. Por um lado, se toda fala que sai da boca de Michael B. Jordan parece ensaiada e pronta para ir ao DVD do Oscar, há de destacar que o que ele faz de melhor é justamente quando seu personagem não fala. O advogado é intimidado pelas forças policiais em algumas cenas e se sente uma mistura de ódio, impotência e medo em seu rosto, ao mesmo tempo que há uma inteligência de não fazer nada de impulsivo, pois sabe que será pior para ele. É justamente uma indignação em sua voz que senti falta na cena do Tribunal, como a imponência de Peck no filme de 1962. 

Por fim, Luta por Justiça é minimamente competente ao trazer para nossas mentes a necessidade de se discutir novamente a pena de morte, mas que nunca se aprofunda o  suficiente tanto neste tema, quanto no racismo institucional. Ao invés disso, ele passa boa parte do tempo funcionando como um episódio medíocre de um seriado de advogado ou com cenas repetitivas mostrando a malvadez dos policiais sulistas. Talvez, caso se mostrasse mais interessado no drama daqueles condenados e suas famílias, o longa poderia soar mais genuíno em sua mensagem e menos uma autopromoção dos feitos de Bryan Stevenson — e, consequentemente, uma autopromoção do próprio Michael B. Jordan em um filme de estúdio pensado estrategicamente para premiações.  

Luta por Justiça (Just Mercy) – USA, 2019
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham
Elenco: Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Brie Larson, O’Shea Jackson Jr., Rafe Spall, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Drew Scheid, Steve Coulter
Duração: 136 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.