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Crítica | Luta Sem Código De Honra

por Ritter Fan
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A série de filmes japoneses conhecida no ocidente como The Yakuza Papers está para os filmes sobre a Yakuza o que a Trilogia O Poderoso Chefão está para os filmes sobre a cosa nostra. Mas as semelhanças param por aí em quase todos os aspectos, ainda que inegavelmente o cineasta Kinji Fukasaku tenha se inspirado na obra de Francis Ford Coppola e de Mario Puzo para confeccionar sua própria saga focada em criminosos de seu país a partir de uma série de artigos escritos pelo jornalista Kōichi Iiboshi com base nas memórias de Kōzō Minō, líder de uma família real da Yakuza em Hiroshima e que fora preso em 1963.

Filmado em estilo de telejornal, com uma pegada inegavelmente documental, Luta Sem Código de Honra começa em 1946, nos arredores de uma Hiroshima arrasada pela bomba nuclear, em que o mercado informal impera e serve de campo fértil para a criminalidade. Há um sem-número de personagens apresentados em velocidade vertiginosa nos primeiros 20 minutos de projeção que, como se isso não bastasse, são frenéticos em sua montagem e estilo “câmera na mão”, algo que até pode ter o potencial de afastar o espectador que quiser clareza imediata. É, mantendo a comparação com O Poderoso Chefão, o exato oposto da festa de casamento que abre o primeiro filme da saga de Coppola. Fukasaku demora a focar sua obra e por vezes dá a entender que sequer haverá um protagonista propriamente dito. Portanto, há que se ter calma e tranquilidade para lidar com a progressão da narrativa que somente aos poucos efetivamente passa a afunilar em Shozo Hirono (Bunta Sugawara), ex-soldado que acaba tendo sua vida entrelaçada com a de Hiroshi Wakasugi (Tatsuo Umemiya), que serve de porta de entrada para a família Yamamoto que é formada na medida em que a fita progride.

Essa descrição que procurei fazer, porém, sequer arranha a superfície do longa, já que a profusão de personagens e a progressão temporal ao longo de anos, com constantes alterações nas situações das famílias criminosas com guerras, traições e disputas internas, acrescenta complexidade à história sem que o diretor se preocupe muito em parar para explicar o que está acontecendo. Para piorar, por vezes o próprio Hirono desaparece da narrativa, com a história continuando a partir de outros pontos-de-vista e ganhando desenvolvimento próprio, o que confunde a perspectiva do espectador.

Mas é necessário lutar contra esses supostos problemas da obra de Fukasaku, pois o resultado final é um esforço digno de se montar um quebra-cabeças realista e complexo de um período conturbado e pouco falado na história do Japão. Afinal, ainda que Luta Sem Código de Honra esteja longe de ser o primeiro filme a tratar da Yakuza, ele é reconhecido como o primeiro a efetivamente quebrar a visão romântica dos gangsteres japoneses que, segundo consta, surgiram ainda no século XVII. No lugar de criminosos que seguem um estrito código de conduta e que são verdadeiros guerreiros conforme retratados nos Ninkyo eiga, ou “filmes de cavalheiros”, o roteiro de Kazuo Kasahara desmistifica e desglamouriza completamente a “lenda”, entregando personagens humanizados e falhos, ajudando a popularizar o Jitsuroku eiga, ou “filmes baseados em fatos reais”.

A linguagem jornalística que Fukasaku usa, inclusive com legendas para indicar nomes e cargos de alguns personagens e breves trechos narrados como em um telejornal ou um documentário, tanto ajuda quanto atrapalha o entendimento do espectador sobre o que exatamente está acontecendo. Por um lado, a conexão de rostos com nomes é facilitada, assim como a progressão temporal, mas, por outro, o diretor carrega nesse expediente como se ele fosse suficiente, sozinho para esclarecer tudo, o que acaba aprofundando a confusão. E, como o filme é razoavelmente curto, a ação é vertiginosa – com muito sangue falso – e o ônus fica completamente com quem assiste para conectar todas as peças. O segredo é manter Hirono em mente mesmo quando ele não aparece em cena, usando-o como fio condutor desse começo da saga.

Outro aspecto interessante da característica jornalística da obra e que também se opõe diametralmente ao que Coppola fez em seus já citados filmes, é que quase não há personagens realmente desenvolvidos ao longo da projeção. Com exceção de Hirono e talvez de Wakasugi, não há um crescimento para cada um deles. Mesmo o arco de Hirono é entrecortado e picotado demais para os padrões cinematográficos a que o espectador está acostumado. No entanto, justamente por quase tentar ser um documentário ou uma reportagem especial, o risco que Fukasaku assume ao tratar quase todos os personagens como arquétipos narrativos acaba pagando dividendos, especialmente por realmente trazer uma abordagem diferente para esse tipo de filme.

O primeiro longa da pentalogia inicial da série The Yakuza Papers, de Kinji Fukasaku, é um teste de atenção e de capacidade de adaptação para o espectador. Quem conseguir ultrapassar a estranheza e confusão iniciais e obter a graduação necessária nesse primeiro curso literalmente veloz e furioso que o cineasta oferece provavelmente sentir-se-á devidamente fisgado pela proposta nua e crua que o cineasta nipônico se propôs a oferecer.

Luta Sem Código de Honra (Jingi naki tatakai, Japão, 1973)
Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: Kazuo Kasahara (baseado em história de Koichi Iiboshi)
Elenco: Bunta Sugawara, Tatsuo Umemiya, Hiroki Matsukata, Kunie Tanaka, Eiko Nakamura, Tsunehiko Watase, Gorô Ibuki, Nobuo Kaneko, Toshie Kimura, Tamio Kawaji, Mayumi Nagisa, Asao Uchida
Duração: 99 min.

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