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Crítica | Luther – 4ª Temporada

por Ritter Fan
341 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Obs: Leiam nossas críticas das temporadas anteriores (que formavam a “série completa”), aqui

Iniciada em 2010 com uma temporada de seis episódios, Luther ganhou uma segunda temporada logo no ano seguinte, de quatro episódios. Somente em 2013 é que a então “última temporada” foi ao ar, novamente com quatro capítulos. Mas o público queria mais e a BBC One também. Mais dois anos se passaram, conversas sobre um longa-metragem vieram e foram embora e Idris Elba então voltou ao papel de seu depressivo, agressivo, mas altamente inteligente detetive londrino, em uma mini-temporada de apenas dois episódios, cada um com quase uma hora de duração, com a promessa renovada de um longa em futuro próximo, porém ainda incerto.

E é sempre bom ver Luther de volta à ativa, mesmo que por apenas duas horas. Afinal, o personagem composto por Elba é enigmático e fascinante, com sua voz para dentro, postura curvada, mãos nos bolsos do sobretudo, rosto marcado por anos testemunhando e resolvendo os mais horrorosos crimes e por ter tido que, às vezes, “dobrar” a lei aqui e ali para fazer justiça. É um personagem que chama a atenção imediatamente, mas que ao mesmo tempo é difícil de decifrar e até de gostar logo de início. E a série em que é protagonista tem como foco primordial ele próprio e não os casos ao seu redor, retirando-a do lugar-comum e das armadilhas facilmente vistas no gênero. Mesmo com casos interessantes para investigar, o criador e showrunner Neil Cross, que sempre escreveu todos os roteiros e continua assim na nova temporada, sabe que seu trunfo é o personagem e sair dessa linha é errar feio.

Por isso é que, novamente, o foco principal é mesmo em Luther. Quando o primeiro episódio começa, nós o vemos morando em uma pequena cabana à beira de um precipício na Inglaterra, em uma óbvia, mas bela correlação com seu estado de espírito. Ele afastou-se da polícia por conta própria depois dos acontecimentos da 3ª temporada e não quer saber de companhia, mas, claro, sua solidão não demora muito, pois ele recebe a visita dos detetives Theo Bloom (Darren Boyd) e sua parceira Emma Lane (Rose Leslie) indagando, claro, sobre Alice Morgan. Para surpresa de Luther, ele recebe notícia que ela fora achada morta afogada, na Antuérpia, Bélgica, depois de algum tipo de envolvimento com roubo de diamantes. Esse é o catalisador da ação e o que traz Luther de volta à civilização. Sua relação com Alice sempre foi conturbada, doentia mesmo e ele simplesmente não acredita que ela tenha morrido.

Mas Cross não nos deixa apenas com essa situação, que talvez não tivesse estofo suficiente para sustentar a narrativa, ou, mais provavelmente, não fosse nem essa a intenção de Cross. Assim, um caso novo é apresentado, o de um canibal – não poderia ser diferente em se tratando de Luther não é mesmo? – à solta em Londres. Não demora e o policial está 100% de volta à ativa, tendo que lidar com pelo menos duas frentes ao mesmo tempo que vão ganhando desdobramentos na medida em que a narrativa se desenrola.

A sensação, especialmente quando o segundo episódio começa – calma, não há spoilers aqui -, é que há muito no prato de Luther para ser resolvido em apenas duas horas. E, de fato, o roteiro de Cross começa então a fazer exatamente o que o policial veterano diz para Emma não fazer. Ele passa a pegar atalhos. Com isso, a narrativa cadenciada e falsamente calma que toma conta das temporadas anteriores da série ganham ritmo exagerado e parece que não haverá um desfecho satisfatório. Mas o fato é que, em grande parte, tudo acaba se encaixando, ainda que o showrunner saiba jogar a proverbial “bola curva” para atiçar o interesse do público pela volta de seu policial. Trata-se de um cliffhanger light, mas que poderá deixar muita gente ressabiada. Esses atalhos de Cross, porém, parecem ao mesmo tempo estranhos e fáceis demais, contribuindo para uma mini-temporada que se situa levemente abaixo das demais, talvez pela inexistência de uma contrapartida clara e instigante ao personagem principal.

Mantendo a fotografia acinzentada em uma Londres eternamente sem sol e com um Luther que cada vez mais tenta mesclar-se à paisagem, a temporada mantém a aura nihilista que marca o personagem e toda a estrutura narrativa até aqui. Luther sabe que o mundo não tem solução e o que ele faz é quase que literalmente enxugar gelo. Mas é tudo que ele sabe fazer e ele sente prazer nisso, mesmo com a corrosão de sua psiquê pelo acúmulo de atrocidades vividas. Luther é parte solução, parte problema. Trata-se de um personagem que desafia rotulação e que quebra expectativas e nisso a série continua triunfando.

Nessa temporada, Neil Cross, porém, não ousa muito e mantém Luther dentro de uma linha um pouco mais previsível. Faltam personagens realmente interessantes ao seu redor, já que Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones, é subutilizada, quase que como um acessório à trama que tem apenas uma e específica função mais para o final. Faltou espaço para que a química entre Elba e Leslie pudesse aparecer.

Mas não se enganem. A mini-temporada ainda permanece acima da média de séries policialescas disponíveis por aí. Cross e Elba fazem em duas horas o que muitas outras não conseguem por temporadas a fio. É isso que torna Luther tão especial e merecedora de novas mini-temporadas, ou temporadas inteiras ou longas de tempos em tempos.

Luther – 4ª Temporada (Luther – Series 4, Reino Unido – 2015)
Showrunner e criador: Neil Cross
Direção: Sam Miller
Roteiro: Neil Cross
Elenco: Idris Elba, Dermot Crowley, Michael Smiley, Rose Leslie, Laura Haddock, Darren Boyd, John Heffernan, Patrick Malahide
Duração: 58 min. cada episódio

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18 comentários

paulo joão 10 de agosto de 2017 - 02:49

Eu diria que quando estão juntos, ela é o id dele. Tudo que ele gostaria de fazer com alguns inimigos ou criminosos, ela vai lá e faz.

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planocritico 11 de agosto de 2017 - 12:55

Sim, uma boa conclusão. Faz sentido!

Abs,
Ritter.

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Handerson Ornelas. 13 de janeiro de 2017 - 22:34

Sabe se a série foi realmente cancelada depois dessa quarta temporada, Ritter?

Responder
planocritico 15 de janeiro de 2017 - 03:22

Não vi notícias de cancelamento oficial, mas também não ouvi mais nada sobre uma nova temporada ou sobre o filme que chegaram a dizer que um dia fariam.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 15 de janeiro de 2017 - 03:22

Não vi notícias de cancelamento oficial, mas também não ouvi mais nada sobre uma nova temporada ou sobre o filme que chegaram a dizer que um dia fariam.

Abs,
Ritter.

Responder
Handerson Ornelas. 13 de janeiro de 2017 - 22:34

Sabe se a série foi realmente cancelada depois dessa quarta temporada, Ritter?

Responder
Ira Noronha Oliva 19 de maio de 2016 - 16:34

Sem dúvida o seriado é fascinante mas a personagem da Alice é o contraponto de Luther , as cenas onde ele aparece com ela, o deixa calmo, menos ansioso, sem que a gente perceba, aguardamos a entrada dela, que obviamente sempre para ajuda-lo e até recordá-lo quem êle é.

Responder
planocritico 22 de maio de 2016 - 18:54

Sim, ela é o contraponto e está presente mesmo quando não está.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 22 de maio de 2016 - 18:54

Sim, ela é o contraponto e está presente mesmo quando não está.

Abs,
Ritter.

Responder
Ira Noronha Oliva 19 de maio de 2016 - 16:34

Sem dúvida o seriado é fascinante mas a personagem da Alice é o contraponto de Luther , as cenas onde ele aparece com ela, o deixa calmo, menos ansioso, sem que a gente perceba, aguardamos a entrada dela, que obviamente sempre para ajuda-lo e até recordá-lo quem êle é.

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Maira 6 de fevereiro de 2016 - 08:20

Estou verdadeiramente com Muita saudade de Luther. Já o vejo como alguém conhecido. Em poucos episódios ja sentia que o conhecia. Quando está a ponto de explodir. Quando para e seu olhar vai além e sei que está pensado e articulando uma solução. Tem um episódio que ele para, respira e volta pra resgatar um menina perdida. Aquele momento diz quem é ele. Humano. Que não interesse se são mil ou uma pessoa ele tem interesse em realmente salvar. Espero ver essa micro 4 temporada e outras mais. E quanto a Alice acho incrivel, Não por ela ser um espelho contrário de Luther, Mas por conseguir ser amiga e ao mesmo tempo alguém que simboliza tudo aquilo que ele investiga e luta contra os psicopatas.

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planocritico 6 de fevereiro de 2016 - 09:13

@disqus_drkH7bosnO:disqus, o personagem é realmente sensacional, mas cada vez mais eu me convenço que ele fica melhor nessas doses pequenas, homeopáticas. Dá um ar especial à série e não dilui o personagem.

Abs,
Ritter.

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Juh 10 de janeiro de 2016 - 04:50

Boa noite, primeiramente.
Segundamente, eu gosto do Luther, mas desde que a Alice apareceu, ela se tornou a protagonista pra mim, bem mais interessante do que o Luther, em minha opinião. Acho o Cross não desenvolveu o bastante a Alice, todos gostam de alguma forma dela por mais que ela seja uma psicopata . Ela deveria aparecer mais na série e ter um papel de maior destaque, quem sabe um spin-off? Aposto que uma série dela seria ótima e Luther como codjuvante, soaria bem mais interessante pra mim. Mas é claro que Luther é maravilhoso, um ótimo personagem e a série tem um bom roteiro, junto com a ótima atuação de Idris Elba.
Ass.: J. Carvalho

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planocritico 10 de janeiro de 2016 - 17:42

Olá, @disqus_7GzvsFeFRb:disqus! Obrigado pelo comentário. Alice sem dúvida é uma personagem interessantíssima, mas eu a considero um espelho de Luther, a versão “negativa”, “bizarra”, “contrária” do personagem de Elba. Assim sendo, ela funciona do jeito que a série a usa, como uma espécie de lembrete a Luther do que ele poderia se tornar, mas não mais do que isso. Pelo menos é essa minha visão.

Abs,
Ritter.

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Aphid 4 de janeiro de 2016 - 21:26

– O comentário a seguir contem spoilers! –
Confesso que não dei a minima bola para o assassino da temporada (Steven). Tudo que eu quero saber, se de fato a minha querida Alice (meep meep!) realmente morreu e minha vingança por quem cometeu essa atrocidade!
Ritter, Pelo santo Batman! Me diz que vai ter uma 5ª temporada.

Responder
planocritico 5 de janeiro de 2016 - 14:31

Pois é, @disqus_eivYOcHXVI:disqus, não houve nenhum tipo de confirmação, mas a conversa sobre fazer um longa-metragem de Luther voltou a aparecer por aí. Talvez seja esse o caminho e espero que abordem efetivamente o fim (ou não) de Alice…

Abs,
Ritter.

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DaviMartins 28 de dezembro de 2015 - 03:42

Que saudades que eu tava de Luther! F*ck Sherlock, Idris Elba faz o melhor detetive de Londres! Que maldade foi fazer uma temporada só com dois episódios. É um crime essa série ter tão pouco espaço. Por um mundo onde Luther tem temporadas anuais, com no mínimo 4 episódios!!

Responder
planocritico 28 de dezembro de 2015 - 11:49

Acho que é por questão de agenda. Elba está ficando cada vez mais cotado para filmes e acho que o ator também não quer ficar marcado como sendo de um papel só. Mas, de fato, que venha mais Luther!

Abs,
Ritter.

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