Crítica | Luto em Luta

Há tempos o documentário conseguiu sair do posto de produção extremamente exclusiva para determinados nichos, bem como ultrapassar as barreiras do didatismo. Lembra dos tempos de escola? Assistir ao documentário X para compreender tal assunto, analisar documentário Y para abordar outro. Esquecia-se o ponto de vista, os modos e tipos do documentário, além das reflexões acerca das fronteiras entre ficção e realidade, o que ainda promove uma cisão quando estamos diante de filmes ditos ficcionais e documentários, isto é, ponto e contraponto, dramatização e cobertura real de algo, quando sabemos que estas afirmações são bastante questionáveis.

Luto em Luta, de Pedro Serrano, é o tipo de documentário que fica bem delineado em seu lugar de fala. É uma produção didática, política e informativa, sem intenção alguma de ser entretenimento, algo que poderia tornar a sua visibilidade muito restrita, mas da forma que é narrado, torna-se um relato válido e interessante para qualquer pessoa que hoje vive as celeumas dos grandes centros urbanos brasileiros. Dividido em três partes, o documentário também escrito por Serrano aborda histórias trágicas sem sensacionalismos, dando ainda voz aos especialistas que gravitam em torno dos problemas que envolvem o segmento: condutores, gerentes de educação para o trânsito, representantes governamentais, familiares de vítimas, dentre outros.

Ao multiplicar as vozes e permitir que possamos observar as abordagens por meio de diversos envolvidos, Luto em Luta traz em sua estrutura uma apresentação clássica do formato documental, mas inclui bons gráficos, edição equilibrada, pendente no quesito qualidade apenas no design de som, extremamente conflitante e exageradamente estourado em algumas passagens, não sei se de maneira proposital, haja vista a temática “trânsito e caos”, mas funcionaria bem melhor e nos permitiria refletir com mais tranquilidade, algo, no entanto, que não influencia na qualidade de suas imagens, nos flagrantes denunciados em plena filmagem e nas intenções oriundas de sua veiculação.

A primeira parte é a maior, intitulada Barbárie, narra histórias de quem vive/analisa/estuda o trânsito cotidianamente. A segunda, mais concisa, “Luto”, traz alguns depoimentos arrasadores, sem nunca cair no discurso lacrimejante, tal como a nossa mídia sensacionalista adora. O terceiro e último, “Luta”, retrata a proposta de intervenção do documentário, isto é, a necessidade da população sair em protesto, lutar pelas leis, pois conforme aponta um dos entrevistados, o brasileiro, em especial, os integrantes da classe média, estão sempre dispostos a pagar para as pessoas concluírem as suas tarefas, população que não mete a mão na massa, não se envolve, um dos motivos que ocasiona o ostracismo de determinadas ações.

Os depoimentos são riquíssimos e fogem da obviedade e da saturação, editados com ritmo que não cansa, tampouco bombardeia o espectador de uma só vez, geralmente dividido em camadas ao longo do documentário, produção que promete o que cumpre na abertura, trecho repleto de imagens diversas do caos diante da situação no trânsito brasileiro. A produção recorta São Paulo, mas abarca uma reflexão geral para o país inteiro, tendo como solução viável as ações de educação para o trânsito, necessárias e ainda um dos principais caminhos para a melhoria diante do cenário desolador. A mídia também possui um importante papel, pois deveria ser mais responsável, revela Heródoto Barbeiro, jornalista que diz ser o foco a divulgação de ações educativas, não apenas as manchetes sensacionalistas e sanguinárias.

Dentre os depoentes temos o presidente da Comissão de Sistema Viário e Trânsito da OAB São Paulo, Maurício Januzzi; o jornalista Gilberto Demestein; Marcos Tibiriça, o especialista em vendas de carros, entrevistado que fala da personalidade de cada carro e da influência dos modelos no comportamento de certos condutores; Renato Botelho e Renata Winkler, ciclistas, denunciam o estereótipo do ciclista como bon vivant, um dos maiores alvos de acidentes fatais de trânsito no país; Bernardo Tanis, psicanalista, versa sobre o álcool e seus efeitos nocivos; depoimento semelhante ao do psicanalista, ao narrar crônicas de sua atuação no trânsito da cidade; Marcia Marzocchi, sobrevivente com graves sequelas, depõe e critica as pessoas que não sabem aproveitar a vida sem as suas limitações, ocasionadas por conta da irresponsabilidade de um namorado na condução do automóvel no retorno de um badalado evento.

Com apoio de Sophia Tess na produção, o cineasta Pedro Serrano contou com Ricardo Marques na Direção de Fotografia, profissional que produz quadros simples e movimenta a câmera sempre a favor do que é narrado, principalmente nas cenas externas, diante do caótico e violento trânsito de São Paulo, alegórico para qualquer metrópole brasileira, tal como Salvador, Rio de Janeiro, etc. Na trilha sonora, Lucas Mayer cumpre bem o seu papel. No design de som, Renato Castro, setor com seus problemas devidamente apontados. Assim, ao longo de seus 72 minutos, Pedro Serrano consegue transmitir a sua mensagem e deixar um documentário importante para a história de nossas produções preocupadas em educar e transformar um país tão cheio de paradoxos e complexidades.

Luto em Luta (Brasil – 2012)
Direção: Pedro Serrano
Roteiro: Pedro Serrano
Elenco: Maurício Januzzi, Gilberto Demestein, Marcos Tibiriça, Renato Botelho, Renata Winkler, Bernardo Tanis, Marcia Marzocchi, Heródoto Barbeiro
Duração: 72 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.