Crítica | M.A.S.H. (1970)

MASH PLANO CRITICO 1970

A multiplicidade de manifestações artísticas, destacadamente no cinema, sobre o período da Guerra Fria possui uma diversidade tonal surpreendente. Seja porque os diretores despertaram paulatinamente para novas abordagens, ou mais principalmente pelo caráter incrivelmente abrangente do conflito — que atingiu diferentes esferas sociais e se apresentou em vários níveis de intensidade — o fato é que existe uma diversidade de filmes, de inúmeros gêneros e das mais variadas formas narrativas, adeptos desse cenário como plano de fundo dramático.

E dentro desse espectro, o filme de Robert Altman carrega uma das óticas mais adversas e curiosas. Já se destoando da maioria das produções concentrada na guerra do Vietnã, escolhe como contexto o conflito nas Coreias, além de optar por um ótica jocosa – vista antes mais sobressalentemente no excelente Doutor Fantástico – ao narrar às vivências do heterodoxo cirurgião Hawkeye Pierce (Donald Sutherland) e de seu grupo de enfermeiros e médicos militares, igualmente nada ortodoxos, no período em que servem o exército americano em uma de suas unidades médicas.

Devido ao tom irreverente e zombeteiro do filme, é essencial elucidar uma possível confusão, pois ao contrário do que faz Kubrick no já mencionado Doutor Fantástico – satirizando todas as personagens, fazendo-as adotar posturas exacerbadamente farsescas – Altman parte em defesa de seus protagonistas, colocando todo um comportamento iconoclasta e desdenhoso em Hawkeye Pierce, a sua figura principal, para atacar o discurso moralista de integrantes condecorados da hierarquia castrense – contando com atuação irretocável de Sutherland, que transmite comicamente todo o charme cafajeste de sua personagem, sem o qual o filme seria completamente outro. Meus elogios a ele só se tornam mais justificáveis nos momentos em que as tiragens farsescas ficam de lado e Hawkeye pode expor sua crueza adolescente, além de sua insatisfação pulsante, majoritariamente direcionada ao farisaísmo do quadro militar. A personagem que mais sofre com a insubordinação dos cirurgiões é a enfermeira Margaret Houlihan (Sally Kellerman) que, por tentar corrigir a “informalidade contraproducente” com a qual os colegas se relacionam, vira alvo das mais perversas e inventivas sabotagens.

O filme comunica-se, porém, não apenas por meio de seus protagonistas, e carrega uma polissemia notável mesmo em seus personagens mais secundários. Um exemplo disso é o padre John (Rene Auberjonois) que mostra, por desempenhar um papel essencialmente coadjuvante, uma falta de necessidade do seu ofício, revelando a intenção do roteiro em destratar o proselitismo moralista católico, enfaticamente em situações extremas como a guerra. Esse tipo de escolha criativa faz M.A.S.H pertencer fidedignamente à filmografia de Altman, principalmente por se aproximar de certas questões recorrentes e repetidamente revisitadas na sua carreira, como a indiferença e o estoicismo. Exemplo disso são os flertes e piadas que, presentes em todo o filme, muitas vezes ocorrem durante uma intervenção cirúrgica, revelando uma profunda negligência emocional dos cirurgiões e enfermeiros, que não deixam de praticar, entre si, um inabalável hedonismo.

Mais tardiamente observado no seguimento de sua carreira, a irreverência de Altman sempre serve um propósito, neste filme é o humorístico, construindo um escárnio divertidíssimo ao moralismo e às suas intromissões indiscriminadas nas mais diversas situações.

M.A.S.H (M.A.S.H) – EUA, 1970
Direção: Robert Altman
Roteiro: Richard Hooker e Ring Lardner
Elenco: Donald Sutherland, Gary Burghoff, Elliott Gould, Sally Kellerman, Tom Skerritt, Robert Duvall, Jo Ann Pflug, Indus Arthur, David Arkin, Alfred Bowen e René Auberjonois
Duração: 116 min.

PEDRO PINHO . . . Pedro é um apreciador parcialmente incentivado, porém nada financiado, de algumas coisas que ele mesmo considera importantes. Suas intenções não são tão claras, e ao que tudo indica ele fará de tudo para impedir que sejam, tem medo que se mostrem esplêndidas ou ridículas demais, ou na pior das hipóteses que não despertem qualquer reação. As coisas que fala ou escreve revelam tanto sobre ele quanto esse texto. Minha tarefa em decifra-lo continua frustrada.