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Crítica | M.A.S.H. (1970)

por Pedro Pinho
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A multiplicidade de manifestações artísticas, destacadamente no cinema, sobre o período da Guerra Fria possui uma diversidade tonal surpreendente. Seja porque os diretores despertaram paulatinamente para novas abordagens, ou mais principalmente pelo caráter incrivelmente abrangente do conflito — que atingiu diferentes esferas sociais e se apresentou em vários níveis de intensidade — o fato é que existe uma diversidade de filmes, de inúmeros gêneros e das mais variadas formas narrativas, adeptos desse cenário como plano de fundo dramático.

E dentro desse espectro, o filme de Robert Altman carrega uma das óticas mais adversas e curiosas. Já se destoando da maioria das produções concentrada na guerra do Vietnã, escolhe como contexto o conflito nas Coreias, além de optar por um ótica jocosa – vista antes mais sobressalentemente no excelente Doutor Fantástico – ao narrar às vivências do heterodoxo cirurgião Hawkeye Pierce (Donald Sutherland) e de seu grupo de enfermeiros e médicos militares, igualmente nada ortodoxos, no período em que servem o exército americano em uma de suas unidades médicas.

Devido ao tom irreverente e zombeteiro do filme, é essencial elucidar uma possível confusão, pois ao contrário do que faz Kubrick no já mencionado Doutor Fantástico – satirizando todas as personagens, fazendo-as adotar posturas exacerbadamente farsescas – Altman parte em defesa de seus protagonistas, colocando todo um comportamento iconoclasta e desdenhoso em Hawkeye Pierce, a sua figura principal, para atacar o discurso moralista de integrantes condecorados da hierarquia castrense – contando com atuação irretocável de Sutherland, que transmite comicamente todo o charme cafajeste de sua personagem, sem o qual o filme seria completamente outro. Meus elogios a ele só se tornam mais justificáveis nos momentos em que as tiragens farsescas ficam de lado e Hawkeye pode expor sua crueza adolescente, além de sua insatisfação pulsante, majoritariamente direcionada ao farisaísmo do quadro militar. A personagem que mais sofre com a insubordinação dos cirurgiões é a enfermeira Margaret Houlihan (Sally Kellerman) que, por tentar corrigir a “informalidade contraproducente” com a qual os colegas se relacionam, vira alvo das mais perversas e inventivas sabotagens.

O filme comunica-se, porém, não apenas por meio de seus protagonistas, e carrega uma polissemia notável mesmo em seus personagens mais secundários. Um exemplo disso é o padre John (Rene Auberjonois) que mostra, por desempenhar um papel essencialmente coadjuvante, uma falta de necessidade do seu ofício, revelando a intenção do roteiro em destratar o proselitismo moralista católico, enfaticamente em situações extremas como a guerra. Esse tipo de escolha criativa faz M.A.S.H pertencer fidedignamente à filmografia de Altman, principalmente por se aproximar de certas questões recorrentes e repetidamente revisitadas na sua carreira, como a indiferença e o estoicismo. Exemplo disso são os flertes e piadas que, presentes em todo o filme, muitas vezes ocorrem durante uma intervenção cirúrgica, revelando uma profunda negligência emocional dos cirurgiões e enfermeiros, que não deixam de praticar, entre si, um inabalável hedonismo.

Mais tardiamente observado no seguimento de sua carreira, a irreverência de Altman sempre serve um propósito, neste filme é o humorístico, construindo um escárnio divertidíssimo ao moralismo e às suas intromissões indiscriminadas nas mais diversas situações.

M.A.S.H (M.A.S.H) – EUA, 1970
Direção: Robert Altman
Roteiro: Richard Hooker e Ring Lardner
Elenco: Donald Sutherland, Gary Burghoff, Elliott Gould, Sally Kellerman, Tom Skerritt, Robert Duvall, Jo Ann Pflug, Indus Arthur, David Arkin, Alfred Bowen e René Auberjonois
Duração: 116 min.

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