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Crítica | M, o Vampiro de Dusseldorf (1931)

por Luiz Santiago
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A macabra canção infantil que abre M, o Vampiro de Dusseldorf é o prenúncio de uma narrativa sobre terríveis assassinatos, sobre a ineficiência e corrupção das forças policiais, sobre a elevação da máfia a uma espécie de poder paralelo e sobre a união da paranoia social com o forte desejo de se fazer justiça com as próprias mãos. Fritz Lang aplicou aqui um modelo reduzido daquilo que a sociedade alemã via crescer naquele início da década de 1930, e M mostra de maneira muito eficiente como um verdadeiro e aterrorizante problema social pode ser utilizado como mola para adicionar novos elos na cadeia de poder local e também para trazer à tona o que há de mais colérico e assassino em cada um dos honrados e pacíficos cidadãos de bem.

Logo no primeiro minuto, uma garotinha canta a seguinte canção antes de “eliminar” mais uma colega da roda: “Não fique triste, pois não irá demorar. O homem de negro virá te pegar. Com sua navalha tão afiadinha, te fará em carne picadinha!“. Esses versos servem de amplo contexto para o problema que estará em evidência, e o diretor em seguida se preocupa em mostrar alguns poucos indícios da presença dessa ameaça, mantendo o suspense e fazendo a tensão se intensificar à medida que nossa curiosidade e o perigo aumentam. Primeiro vemos a sombra do infame assassino, depois ouvimos aquela que será a sua grande marca, o assobio de Na Gruta do Rei da Montanha, de Edvard Grieg.

Muito se fala do soberbo uso do som realizado por Lang nesse filme, e esta é realmente uma das coisas que não podemos deixar passar. Para um filme de 1931, M consegue exibir uma fortíssima identidade sonora para personagens e cenas, tanto através de sons específicos (como a melodia assobiada pelo personagem de Peter Lorre, em excelente atuação aqui, especialmente no final) quanto pelo reforço dado pelo diretor a sons do ambiente ou mesmo aos diálogos, que fluem com distintas doses de identidade até chegar à lancinante explosão final. O longa traz os seus minutos silenciosos, e durante esse silêncio, prepara o espectador para algo marcante logo a seguir, sendo essa gangorra de emoções audíveis um dos grandes trunfos do diretor na fita, que representou um grande avanço do uso do som no cinema, servindo de base para muitos outros projetos, na Europa e fora dela.

A raiz do roteiro de Fritz Lang e Thea von Harbou está em uma sociedade cercada por uma porção de crises, do sistema judiciário à manifestação de paranoias massivas do tipo “caça a qualquer culpado“, uma base social que seria solo fértil para o nazismo, que efetivamente chegaria ao poder dois anos depois do lançamento de M.

Lang divide a obra em duas grandes partes, tomando como divisor de águas a maneira como mostra de modo mais ou menos explícito o infame Hans Beckert. No início, o vilão é a grande ameaça que público e personagens temem e que querem ver atrás das grades ou morto. No final, embora esse sentimento ainda paire no ar, existe todo um contexto legislativo e também humano (a despeito de toda a desumanidade do culpado) que torna o encerramento do filme muito mais profundo do que apenas a captura de um infanticida e de um clamor de uma mãe para que “olhem as crianças“. Nos deparamos aqui com uma súplica para que a geração do presente não caia nas mãos de predadores e nem seja consumida pelo ódio fácil e capaz de passar por cima de tudo e todos para punir cegamente o tal predador, seja ele de verdade ou imaginário.

M, o Vampiro de Dusseldorf (M – Eine Stadt sucht einen Mörder) — Alemanha, 1931
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang, Thea von Harbou
Elenco: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Otto Wernicke, Theodor Loos, Gustaf Gründgens, Friedrich Gnaß, Fritz Odemar, Paul Kemp, Theo Lingen, Rudolf Blümner, Georg John, Franz Stein, Ernst Stahl-Nachbaur, Gerhard Bienert
Duração: 117 min.

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