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Crítica | M3GAN

A bonequinha não sabe brincar.

por Felipe Oliveira
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Ainda que tenha sido vista com muita resistência, a reimaginação para um dos mais notórios filmes de brinquedos assassinos trazida no remake de Child’s Play lançou uma argilosa abordagem que não havia sido explorada. Afinal, como ir além da base sobrenatural que corre nas veias da saga criada por Don Mancini? O trio responsável pelo roteiro do remake de 2019 foi inteligente ao contextualizar a conhecida trama pelo viés da tecnologia, e o eco dessa criatividade não só reverberou na expansiva série Chucky, mas também em James Wan, que desde 2018, época que o remake foi anunciado, fala de seu filme sobre uma boneca realista que desenvolve tendências perigosas.

Cinco anos após adiamentos e refilmagens, graças a um simples vídeo de uma dança desconcertante de uma boneca com traços de psicopatia, foi o suficiente para a chamada M3GAN se tornar um fenômeno viral na web. Assim, as expectativas para a chegada do filme já tornaram a boneca um novo ícone a dominar e a ser apreciado para o subgênero dos brinquedos assassinos, pois, o que M3GAN faria o que os outros não fizeram? Sem querer reinventar a roda e manipular as deduções em torno da trama como o subestimado Boneco do Mal, a boneca criada por Wan nada tem aqui além do óbvio, mas sabe ser divertida e mostrar porque é a queridinha do momento.

O último trabalho autoral de Wan, Maligno, é a prova como ele consegue usar dos tropos do terror e montar algo criativo e habilidoso, mas no caso de M3GAN, as inspirações com Brinquedo Assassino são inegáveis, porém, tudo em prol para lançar sua própria safra. Em linhas gerais, Wan utiliza do faz de conta brutal escrito por Mancini e reaproveita numa história que bebe muito mais do remake ousado comandado por Lars Klevberg. Isso de maneira nenhuma denota algo negativo para o longa, pelo contrário, é válido que Wan ao lado da co-roteirista Akela Cooper emulam o caminho traçado por Chucky em dois segmentos diferentes, isso, enquanto conquistam o apreço da audiência com uma nova boneca matadora.

Formando sua segunda parceria com Wan mas a terceira aposta com o terror, Cooper aponta mais maturidade ao injetar criatividade a uma proposta que já conhecemos, neste caso, o maior desafio aqui é como tornar uma boneca de 1,20 um atrativo aterrorizante e que cumpra o seu papel como entretenimento. E para isso, M3GAN tem tudo: roupas de luxo, peruca desgrenhada e uma personalidade impassível e perturbadora. Ter tal caracterização demonstra como a boneca aqui não quer parecer com Chucky e muito menos Annabelle, e sim ter suas próprias regras e domínio. Tendo isso em mente o roteiro não poupa tempo para inserir um humor caricato à medida que provoca uma quebra desses momentos com as performances e trejeitos inconstantes de M3GAN, que ora parece marionete ora um animatrônica — e a famosa cena da dança feita pela brilhante Amie Donald é um bom exemplo disso.

De fato, não há nenhuma surpresa no filme que o marketing afoito já não tenha entregado repetidamente nas redes sociais, mas o maior acerto é como M3GAN funciona com todos seus maneirismos e sarcasmo, e se há um elemento que cause o incômodo necessário para levar a bizarrice da boneca a sério, é o uso fora da curva de música e dança na construção de sua personalidade. Se Chucky pode ser resumido como um psicopata escroto e maquiavélico, M3GAN faz performance enquanto espalha morte e caos com muita carisma.

Se não fosse a maneira assertiva com que a boneca funciona, essa nova aposta para a linha de brinquedos assassinos seria efetivamente fraca e sem muito esforço para ser criativa. São poucos os momentos que se fazem memoráveis ou minimamente desenvolvidos dentro da trama, a não ser pelo seu ato final. É ali que o roteiro aproveita as possibilidades e insere uma mecânica que dialoga com o subgênero de possessão. E a direção de Gerard Johnstone atrelada a fotografia de Simon Raby cria um clímax envolvente e habilidoso, o que envolve também uma sequência com jogo de luzes e efeitos visuais. O seu desfecho não poderia ser mais inteligente ao acenar mais uma vez para o universo de Chucky, o que garante a esperada sequência.

Mesmo para quem não conferiu o remake de Brinquedo Assassino, vai reconhecer como M3GAN é fraco em articular uma discussão sobre a relação das crianças vs tecnologia, e até de recursos da tecnologia como substituição da atenção e diálogos paternais visto a maneira didática e expositiva que tecendo seu argumento — a exemplo da cena de abertura — o que deixa a tentativa de relevância da trama limitada na sombra da superficialidade. Porém, como a queridinha da cultura pop, a bonequinha mostra que não sabe brincar, e que sua maldade aqui é o entretenimento mais genuíno.

M3GAN (EUA – 2022)
Direção: Gerard Johnstone
Roteiro: James Wan, Akela Cooper
Elenco: Allison Williams, Violet McGraw, Amie Donald, Ronny Chieng, Jenna Davis, Brian Jordan Alvarez, Jen Van Epps, Stephane Garneau-Monten, Lori Dungey, Amy Usherwood
Duração: 102 min

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