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Crítica | M8: Quando a Morte Socorre a Vida

por Leonardo Campos
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Durante o desfecho de sua aula, um jovem negro se arruma para sair. É quando outro colega se aproxima e pergunta: “onde posso guardar os meus instrumentos?”. Oi? Sim, tanto nós quanto o personagem nos questionamos a pertinência da dúvida, mas logo saberemos se tratar de um dos tantos momentos representativos das tensões raciais em M8: Quando a Morte Socorre a Vida, narrativa dramática que flerta com diversos elementos do gênero terror para o desenvolvimento de sua história. A pergunta vinda de um colega de sala branco é nada mais que a reiteração do racismo que pode não ser apresentado de maneira muito agressiva neste ambiente, mas está nas sutilezas dos olhares dos demais, pois o nosso protagonista negro é o único dentro de uma sala majoritariamente frequentada pela elite branca carioca, um ambiente com pessoas boas, bacanas, outras demasiadamente racistas, no geral, todos privilegiados, face ao trajeto do único rapaz considerado afro-brasileiro naquele espaço de opressão disfarçada.

Diante do exposto, a pergunta do tal colega deflagra o seu olhar racista estrutural. Se esse rapaz está numa sala de aula de medicina e é negro, pode ter conseguido a cota, mas deve trabalhar na instituição para se manter na vida. É num caminho de olhares e posturas ambivalentes que M8: Quando a Morte Socorre a Vida nos guia. Ao longo de seus breves 84 minutos, o filme dirigido por Jeferson De, também colaborador de trechos do roteiro, escrito juntamente com Carolina Castro e Felipe Sholl, trio inspirado pelo livro homônimo de Salomão Polakiewiez, retrata questões que gravitam em torno de importantes discussões atuais sobre etnia, racismo e ancestralidade. Na trama, o jovem Maurício (Juan Paiva) consegue adentrar na faculdade de medicina de uma instituição federal do Rio de Janeiro. Ele é filho de Cida (Mariana Nunes), uma enfermeira que batalha diária para permitir que o garoto consiga ter o melhor na vida, mesmo diante de tantas dificuldades, apresentadas por meio de obstáculos físicos e simbólicos de seu cotidiano.

A crise começa quando Maurício inicia as aulas de anatomia e fica impressionado com o cadáver M8, nomeado assim por ser de origem desconhecida. A falta de identificação e a presença constante de outros corpos negros para experimentos da aula colocam o jovem estudante para refletir sobre a condição não apenas da população negra constantemente vítima do genocídio urbano, mas também a sua existência enquanto alguém que poderia ser mais um daqueles corpos ali expostos, sem dignidade em vida, tampouco após a morte. Depois do primeiro contato, Maurício começa a ter alucinações e pesadelos. É o começo de sua saga em busca de respostas. Ele precisa compreender as origens daquele corpo. Será o jovem um dos tantos desaparecidos das mães que protestam numa praça todos os dias, enquanto Maurício se desloca para a faculdade? Será que há algo mais complexo e sobrenatural por detrás desta sensação estranha do rapaz?

Por meio de uma direção de fotografia acima da média, assinada por Cristiano Conceição, setor que capta imagens em meio aos espaços concebidos pela direção de arte sutil de Daniel Flaskman, temos em M8: Quando a Morte Socorre a Vida, um desenvolvimento narrativo eficaz enquanto narrativa visual, adornada pela assertiva trilha sonora de Plínio Profeta, um dos setores que permite ao filme ampliar a sua dimensão do drama para dialogar com características próprias do terror, gênero em ascensão constante na atual safra do cinema brasileiro. Sem jumpscare ou uso equivocado de elementos sonoros para causar impacto nos espectadores, o filme caminha também nas sutilezas nos quesitos estéticos, sendo pouco interessante apenas quando se torna didático demais e deixa as explicações sobre determinados pontos muito esmiuçado, sem espaço para que possamos elucubrar mais e ter respostas menos óbvias entregues para facilitar o seu consumo.

Além da jornada de Maurício, o filme se detém em analisar alguns personagens e situações gravitacionais para ampliar o feixe crítico de seu discurso. Na faculdade, o rapaz conhece Suzana (Giulia Gayoso) estudante branca desconstruída, jovem que se torna bastante próxima. Eles estudam juntos, trocam alguns beijos numa festa de outro colega, investigam as origens de M8 e vivem outras situações que refletem a inquietação de pessoas que acham a relação de ambos imprópria, algo que é fruto de nossa sociedade racista e utópica diante de questões sobre o falacioso mito da democracia racial que supostamente vivemos, mas só na ilusão de alienados e negacionistas. Com participações especiais e brilhantes de Léa Garcia, Zezé Motta e outros atores renomados de uma cultura que às vezes não os valoriza adequadamente, M8: Quando a Morte Socorre a Vida foi recentemente disponibilizado no streaming e agora, pode ser contemplado por outros grupos sociais que não vivem diante dos privilégios das zonas urbanas e suas salas de cinema.

Destaque para a cena da parada policial. Até quando seremos testemunha de absurdos do tipo? E a chegada do jovem na festa de aniversário de um dos colegas? A apreensão e a possibilidade de alguma recepção racista é de gelar a alma. Outra passagem bem interessante é a chegada em um necrotério para investigação. Se o atendimento público para o rapaz branco que acompanha Maurício é bem abaixo da média, imagina a recepção do jovem negro que se diz estudante de medicina? São muitas questões, hediondamente realistas e costumeiras nos desabafos de redes sociais e denúncias cotidianas nos telejornais. Me questionei e continuarei a suscitar o debate sobre o assunto: até quando viveremos isso? Será de fato a sina da humanidade? M8: Quando a Morte Socorre a Vida, infelizmente, nos coloca numa situação entristecedora com esta pungente realidade, aparentemente longe de ser resolvida no que tange tais preocupações. É tudo um verdadeiro terror, tão apavorante quando as alegorias de uma trama ficcional do gênero. Aqui, temos o medo real, a violência psicológica e física em sua mais dura representação. As feridas traumatizantes que custam a cicatrizar.

M8: Quando a Morte Socorre a Vida  — Brasil, 2019
Direção: Jeferson De
Roteiro: Jeferson De, Carolina Castro, Felipe Sholl
Elenco: Juan Paiva, Mariana Nunes, Zezé Motta, Léa Garcia, Giulia Gayoso, Ailton Graça, Raphael Logam, Pietro Mario
Duração: 84 min

 

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