Crítica | Má Educação

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Pedro Almodóvar nunca fez segredo pra ninguém em relação ao caráter íntimo que este Má Educação (2004) teve para ele. Uma espécie de derivação mais rica e madura de A Lei do Desejo (1987), este longa de 2004 se tornou quase uma obsessão para o diretor, que embora não tenha escrito um roteiro biográfico, certamente traz algumas de suas experiências como alimento para a criação de uma tragicomédia metalinguística, não como uma vingança ou denúncia, mas como memória crua. Uma realidade que claramente se repete na vida de muitas crianças e jovens até os dias de hoje, inclusive dentro da igreja (católica ou das muitas variações protestantes) onde a institucionalmente condenada homossexualidade é amplamente vivida por indivíduos em posição de destaque nessas instituições, não raro com práticas pedófilas.

Em entrevista, Almodóvar afirmou que La Mala Educaciónnão é um ajuste de contas com os padres que me educaram mal, nem com a Igreja em geral. Caso tivesse necessidade de me vingar, não teria esperado quarenta anos para fazê-lo. A Igreja não me interessa, nem como adversária“. Sobre este ponto, é interessante observar como o roteiro insere os personagens eclesiásticos mas não torna nem a igreja e nem a batina um vilão absoluto e generalizado, o que me faz rir de imediato frente à imensa rejeição que o filme teve nas divisas religiosas (especialmente católicas) por “motivos estritamente cristãos“. Definitivamente o tipo de posição ideológica, doutrinária e ciumenta demais de sua instituição a ponto de rechaçar um filme que condena um crime e más atitudes de um grupo de indivíduos, não toda uma religião ou uma de suas categorias hierárquicas.

Gael García Bernal dá vida a três personagens nessa história, conseguindo um excelente resultado em todas elas. Como é típico do diretor, o mundo e submundo das minorias na Espanha é retratado através de um olhar cínico, às vezes falhando em se completar (muitas coisas se resolvem em fracas elipses, assim como personagens desaparecem, o que nunca é bom), mas o resultado final disso não deixa de ser interessante. O ponto dramático para o protagonista se firma em uma ideia de vingança, assassinato, chantagem e nojeiras humanas germinadas no nacionalcatolicismo aplicado à educação franquista, com um enredo que não toca em política mas não esconde o endereço certo do abuso sexual sofrido pelo protagonista no internato onde estudava. Outro ponto interessante é que o diretor resolveu tratar de maneiras bem diferentes (em fotografia, escolha de atores, angulação e até uso de trilha sonora) os personagens da realidade e da ficção, um mais exagerado, cruel e cinematográfico que o outro.

Existem belas referências a Sara Montiel aqui (com uma breve cena exibida de Esta Mulher, 1969), assim como a recorrente ligação metalinguística típica de Almodóvar, tanto com um filme dentro do filme — sendo este o fio da meada para o desenvolvimento dos personagens no tempo presente –, quanto com a citação, alusão ou exibição de cartazes de A Besta Humana (1938), Pacto de Sangue (1944), Teresa Raquin (1953), Bonequinha de Luxo (1961), Terra Bruta (1961) e Um Caminho para Dois (1967). Essa relação entre ficção e realidade é o que torna o filme bastante especial e enriquece a sua temática, pois joga com consequências negativas vindas de abusos na infância, mas não é só isso. O enredo também traz para si caminhos morais questionáveis de diversas pessoas e, mais uma vez, escancara a obviedade de que gente ruim e infame existe em todos os lugares e grupos sociais, e que nem tudo é culpa de uma entidade vilanesca. Aqui, todos precisam enfrentar a responsabilidade pelas coisas que fazem.

Arte e vida imitando-se é um conceito difícil de se explorar no cinema, pois exige grande solidez dos personagens, que devem passar de um Universo para outro e ainda assim manterem-se reconhecidos por sua essência, mesmo que o comportamento ou a face sejam de outro indivíduo. Em Má Educação, essa experiência é desenvolvida com muita competência por Almodóvar, que peca na forma como desenvolve o drama amoroso (em todas as camadas), mas esta é apenas uma parte dos muitos destaques da obra. Terminamos percebendo que no mundo, alguns jogos são perigosos demais para serem jogados, especialmente se a vítima é frágil e se existem jogadores sedentos e nada escrupulosos em cena. No fim, tudo é resultado de uma sombria coleção de maus hábitos, moral questionável, problemas emocionais cada vez mais intensos e má educação — seja em que nível da vida for.

Má Educação (La Mala Educación) — Espanha, 2004
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Gael García Bernal, Fele Martínez, Daniel Giménez Cacho, Lluís Homar, Francisco Maestre, Francisco Boira, Juan Fernández, Nacho Pérez, Raúl García Forneiro, Javier Cámara, Alberto Ferreiro, Petra Martínez, Roberto Hoyas, Agustín Almodóvar
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.