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Crítica | MacGyver (2016) – 1X01: The Rising

por Davi Lima
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macgyver
Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 5 macgyver
Número de episódios: 95
Período de exibição: 24 de outubro de 2016 – 30 de abril de 2021
Há continuação ou reboot? Já é o reboot.

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A mitologia do senso comum sobre o personagem MacGyver é sobre sua capacidade de desarmar bombas com um mísero clipe de metal. Na década de 80 isso poderia funcionar pela cultura da Guerra Fria ainda como forte entretenimento, porque a suspensão de descrença e a relação com a imagem do longo dos anos foi sendo cada vez mais suspeita e cética com os pequenos detalhes ilógicos que não torne a história racionalmente palpável. Dessa forma, o personagem parece já não pertencer ao contemporâneo, ao menos dentro da ideia de se levar a sério, mas o piloto chamado The Rising dirigido por James Wan – no seu modo de transformar dimensões pequenas em grandes e vice-versa – não tenta fazer MacGyver ser realista, e sim torná-lo acelerado no micro tempo que o espectador mantenha a atenção e não consiga pensar o quão zoado são as explicações de improviso, ou os decalques de intitulação de objetos, que o protagonista usa para a ação ou experimentos químicos, que ficam flutuando na imagem quando a câmera aponta. 

Quando se fala de realismo indica-se algo abrangente sobre a realidade, mas quando se pensa na arte em geral o link da palavra trata da verossimilhança, ou até de temáticas sociais mais encarnadas nas histórias que estão sendo contadas. Não se espera isso de uma série sobre um espião americano que é o próprio canivete suíço como principal arma, no entanto, o canal de TV aberta americano que encomendou a série em 2016 chamado CBS, atendendo as premissas públicas de se assistir material audiovisual, traria na primeira versão do piloto algo bem mais “próximo da realidade” como reboot para as aventuras de ação do agente Angus MacGyver.

Na primeira promo de estreia o personagem seria acusado de crime como um Jason Bourne, a linguagem visual  motrava que seria mais próximo de suspenses televisivos cinzas como 24 Horas e o conceito de gambiarra do protagonista seria como o deslocado no tempo 007 em Operação Skyfall para um lado irônico. Isso é bem diferente da estreia da série com a direção de James Wan, que mistura o lúdico explosivo dos blockbusters modernos com a pose heroica idealizada pelo ator Richard Dean Anderson na série antiga, mas agora vivida pelo baby face queixudo com cabeleira menor chamado Lucas Till. Entre o piloto que não foi ao ar em comparação ao que foi transmitido há uma clara diferença de mediação com o que o público enxerga como realismo em tela, porque não significa que The Rising colocando mais jovialidade com a tecnologia, mais cores na fotografia e um espião bem institucionalizado por uma agência secreta do governo não tenha sua dose de verossimilhança, mas com certeza perde-a mais.

Por isso, nessa tática de renovo, um adaptar do que foi a série antiga para o contemporâneo, sem abrir mão das características de aparências com missão impossível e ainda levar a sério o entretenimento inverossímil com o da espionagem oitentista, a história escrita por Paul Down Colaizzo e “teleroteirizada” por Peter Lenkov, que entrou posteriormente para restruturar o piloto como novo showrunner, não permite espaços para melodrama televisivo, ou autoconsciência explícita cômica quanto ao universo MacGyver. Sim, há as referências a série clássica, como ele segurando um foguete, o canivete, a definição do personagem como um cara fora da caixinha quanto a lógica de espionagem nas primeira missão, entre outras mais visuais e temáticas que um fã hardcore antigo consegue identificar, mas nada disso tem valor nostálgico forte, muito menos se desliga da lógica própria da narrativa como uma zoação interna.

Nisso, o estilo de James Wan, famoso por Velozes e Furiosos 7 e Aquaman, fora os filmes de mais baixo orçamento como Gritos Mortais e Jogos Mortais, combina perfeitamente com a linha fina entre a total falta de plausibilidade das resoluções de raspar poeira para passar pelo scanner de mão, mais as explosões de CGI super exageradas de cinemão, fora a necessidade de cenas de ação rejuvenescidas dentro de um escopo pequeno da TV. Porque isso na mão de Wan se torna grande, mesmo mantendo o espectador no limite da zoação. Com essa noção de proporção que garante o diretor como um verdadeiro MagGyver em tornar blockbusters e filmes de terror em divertidos pelas desregulações aplicadas aos limites impostos de cada produção, como Aquaman lembrar televisivamente Power Rangers para alguns, Velozes e Furiosos 7 se legitimar como melodrama familiar, assim como Invocação do Mal tem tons de um drama familiar com uma casa real como cenário que parece produção de blockbuster pelo movimento de câmera e Jogos Mortais se torna uma franquia de modelamento vendável, mesmo sendo um filme explícito na violência.  O que se pode chamar de tosco, ou ridículo, para Wan tem valor de tamanho para ser reformulado, assim como a experiência de se assistir The Rising se torna também quase impossível de zoar plenamente em vista da escala proposta, mesmo mantendo resoluções isoladamente sem lógica ou facilitadas.

Se há possibilidade de rir e caçoar da tentativa da narração em off – também característica da série antiga – em aliviar tensões dramáticas que o início do piloto transgride o bom ânimo do protagonista na primeira missão, ou até mesmo acusar o roteiro de previsível quanto a uma personagem que retorna a tela como um plot twist, essas ações só acontecem realmente para o todo da história na despretensão do espectador de assistir, e sim objetivamente zombar do episódio. A aceleração da montagem, os milhões de cortes para seguir o locutor/ator da cena, sem o uso de plano aberto mais lento para compor os atores no cenário, além da ação frenética pelo desenho dos acontecimentos, não pela repetição de imagens numa montagem ruim, vão tornando aquele dito popular do cinema de “desligar o cérebro” como parte da experiência.

Todas as descontinuidades de cena – quando você percebe que de imagem para o outro no corte o ator está mal posicionado, ou um objeto aparece estranhamente – acontecem por um misto de objetividade com aceleração absurda que cria a suspensão de descrença para o espectador. Pode-se até rir de alguma coisa, mas provavelmente ele não vai ter tempo de elaborar alguma crítica fora a reação mais imediata. Por exemplo, quando a personagem do plot twist traz um pouco de realismo ao ficar calada no encontro com MacGyver e depois revela o plano idiota de sempre nessas séries de espionagem, de explodir algum canto por alguma causa meio aleatória, quando o público pensar em criticar mais uma previsibilidade do episódio a história já está três cenas a frente na ação final, no terceiro ato do capítulo com um helicóptero numa rodovia atrás de um caminhão com uma bomba caseira de sete fios verdes.

Assim, na limitação de “rebootar” MacGyver, entre o zoado divertido da série clássica muito popular e a renovação com os termos atuais de tecnologia, a câmera tremida e a edição nível Transformers de velocidade se torna a unidade estilística temporal na direção de James Wan como forma de prender atenção e equilibrar o roteiro de reintrodução do personagem que trabalha com objetos pequenos como algo grande na TV. Calculando o tempo, o que parece ser de grande orçamento pode ser bem menor do que se enxerga em tela. Ao assistir o piloto, que tematicamente se intitula The Rising de maneira bem apropriada, assim como a formação da equipe Fênix na história, que já havia na primeira versão, é um reboot bem feito de uma série, que não à toa foi estranhado do porquê do seu cancelamento em 2021 ao ter boa audiência na CBS. É um escapismo garantido para nova geração e para a antiga, mesmo não tendo apelos nostálgicos enfáticos, apenas a velha e boa ilógica MacGyver em tratar com a realidade.

MacGyver (MacGyver) – 1X01: The Rising – EUA, 24 de outubro de 2016
Criação e desenvolvimento: Brett Mahoney, Paul Downs Colaizzo e Peter M. Lenkov
Direção: James Wan
Roteiro: teleplay de Peter M. Lenkov com a história de Paul Downs Colaizzo, baseada na série McGyver criada por Lee David Zlotoff
Elenco: Lucas Till, George Eads, Sandrine Holt, Tristin Mays, Justin Hires, Vinnie Jones, Tracy Spiridakos, Don DiPetta, Alessandro Folchitto, Kenneth Israel
Duração: 43 minutos

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