Crítica | Madonna – Inocência Perdida

Madonna é uma artista que já deveria ter ganhado uma cinebiografia digna de seu legado. Enquanto isso não acontece, Inocência Perdida funciona dentro do que a pesquisadora Eneida Maria de Souza traz logo nas primeiras páginas de Janelas Indiscretas – Ensaios de Crítica Biográfica: “biografar é metaforizar o real”. Lembro-me da primeira vez que tive acesso ao filme, lá pelos idos da adolescência nos anos 1990. Madonna ainda era um enigma a ser decifrado e a imagem que eu tive de imediato, após a exibição na televisão, era redutora, tal como muitas leituras feitas sobre a artista, geralmente ofuscadas pelos flashes da sociedade do espetáculo.

Inspirado numa biografia não-autorizada da artista que adora emular a vida das grandes divas do cinema clássico, mas não se sente confortável com os rumores de um filme sobre a sua vida, Madonna – Inocência Perdida foi lançado em 1994. Dirigido por Bradford May, cineasta que teve como guia o roteiro de Michael J. Murray, texto baseado no livro de Christopher Andersen, a produção segue a mitológica e interessante jornada de Madonna, uma jovem cheia de planos e projetos, inquietada com a simplicidade interiorana e obcecada por uma carreira artística.

A abertura, nos bastidores da apresentação de Like a Virgin, em 1984, com Madonna vestida de noiva sexy, antecede os acontecimentos cortados para a sua chegada numa igreja durante uma missa. As freiras olham para a garota com reprovação, exalando algo do tipo “salva essa alma senhor”. O pai, firme e controlador, tenta sem sucesso, conter os ânimos da filha. Entre uma situação rápida e outra, Madonna, interpretada de maneira adequada por Terumi Matthews, segue o seu coração e deixa uma carta para o pai. Viver em Detroit já não era mais possível. A ambição loira precisava ir além.

Como traçado pela sinopse oficial, a produção é uma crônica que revela o nascimento de uma lenda conhecida por sua incansável determinação pelo sucesso. As frases mais famosas, estão, inclusive, dispostas: “me leve onde acontecem todas as coisas”. Dizem que a versão correta é “me leve ao centro de todas as coisas”. É divertido ver os fãs se debatendo para saber qual a frase dita por Madonna para o motorista de táxi que a guiou por Nova Iorque logo em sua chegada, afinal, é uma discussão idiota e inexpressiva, que não define a compreensão da personagem que a garota de Detroit forjou e manteve de maneira precisa ao longo de praticamente quatro décadas de música pop.

Diante do exposto, o mito começa o seu processo de fabricação. Madonna trabalha como garçonete para sobreviver e circula pelos ambientes obscuros de uma cidade hostil. Foge para não pagar o aluguel, passa dificuldades, atua como modelo para um fotógrafo e entre as idas e vindas nas tentativas de sucesso no cinema, adentra para o campo da música, a sua segunda ambição. Conhece Camille Barbone, a sua primeira empresária, estabelece uma relação aproveitadora e utilitarista, desfeita de maneira brusca. Logo mais, toca numa banda, entra em colapso com os integrantes ao tentar transformar o grupo basicamente em “servos” de Madonna, para logo depois, ir bater em Paris numa performance excêntrica que lhe trouxe problemas com os produtores do espetáculo assinado para apresentar.

Ao longo dos 90 minutos de filme, Madonna se apresenta como uma pessoa manipuladora, fria, sem escrúpulos e alguém que troca de parceiros sexuais e musicais sem nenhuma consequência que a atinja sentimentalmente. Cabe, entretanto, retomar a fala de Eneida Maria de Souza. Se biografar é metaforizar o real, Madonna – Inocência Perdida fez apenas uma alegoria da cantora, sem interesse em enfatizar que ela foi ou não foi esse ser humano talentoso, mas desprezível, conhecida por ser alguém que “tem a capacidade de manipular alguém por completo e ainda fazer com que você goste dessa sensação”, tal como declara um entrevistado numa das citações da biografia que inspirou o filme.

As escolhas dramáticas do filme foram direcionadas para essa abordagem, o que não significa que a história tenha sido exatamente assim. É um olhar, alguns pontos de vista, uma interpretação transformada em produto ficcional. O telefilme é eficiente nos aspectos estéticos. A trilha sonora é conduzida por Tony Shimkin, condutor musical responsável pelos arranjos que acompanham as imagens captadas pela direção de fotografia de May, em dupla função, realizador das imagens que contempla a cenografia e direção de arte oriundas do design de produção de Perri Gorrara.

A figurinista Lyne Mackay é quem faz mesmo um trabalho multifacetado, ao ornamentar a protagonista com os trajes característicos de seus primeiros anos de carreira. Ademais, os outros profissionais cumpre os requisitos básicos, dando ao filme ritmo e melodrama biográfico ideal para o suporte televisivo. A edição também é competente, pois emprega em alguns trechos a linguagem do videoclipe, requisito básico para uma narrativa que retrata Madonna, uma das artistas responsáveis pela reconfiguração do gênero audiovisual nos anos 1980 e 1990. Em suma, o telefilme reforça algo já apontado em outras reflexões sobre a artista: Madonna, múltipla!

Madonna – Inocência Perdida — (Madonna – Innocence Lost/Estados Unidos, 1994)
Direção: Bradford May
Roteiro: Michael J. Murray
Elenco:Dean Stockwell, Diana LeBlanc, Jeff Yagher, Terumi Matthews, Wendie Malick, Dominique Briand, Don Francks, Tom Melissis, Rod Wilson
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.