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Crítica | Maestro: Sinfonia em Clave de Gama

por Ritter Fan
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No final de 1992, Peter David e George Pérez foram responsáveis pela criação de Futuro Imperfeito, célebre minissérie em breves duas edições que apresentava um futuro distópico em que uma perversa versão do Hulk que se autodenominava Maestro comandava com mão de ferro uma Nova York rebatizada de Distopia. Nascia um dos mais interessantes vilões do Hulk, ou seja, ele mesmo distorcido por décadas e décadas do efeito da radiação do apocalipse nuclear e de suas perdas. Com nada na Indústria Mainstream dos Quadrinhos fica sem ser remexido – exatamente como em Hollywood – eis que, 28 anos depois, David, agora acompanhado por Germán Peralta na arte, retorna ao vilanesco personagem para contar detalhes de sua “origem”.

Como afirmei em minha crítica da minissérie clássica, uma de suas grandes qualidades é a concisão que justamente evitou que David investisse tempo para explicar como o Hulk tornou-se Maestro para além de algumas linhas de diálogo jogadas aqui e ali para dar contexto. Uma decisão sábia, pois o leitor poderia colocar sua imaginação para funcionar e preencher mentalmente esse espaço, especialmente diante do fato notório de que o Hulk já tivera diversas versões, inclusive algumas maléficas, para permitir a construção dessa “ponte”. O retorno para esmiuçar os acontecimentos não só era desnecessário, como arriscava relativizar a maldades do vilão, algo que quase sempre acontece quando vilões icônicos ganham “origens”, vide Darth Vader, Hannibal Lecter e muitos outros.

Mas, como o dinheiro fala mais alto, Peter David arregaçou as mangas para colocar seu Maestro em destaque novamente em uma minissérie solo que promete ser a primeira de várias. Nela, o roteirista já começa algumas décadas no futuro, com um Hulk capturado pela I.M.A. de M.O.D.O.K. vivendo uma simulação computadorizada de sua vida pregressa para mantê-lo sob controle. Quando o programa dá defeito, o Hulk se liberta e começa a peregrinar pelos EUA devastados até chegar a uma Nova York já transformada em Distopia e já comandada por um “tirano” chamado Maestro que pouco liga para os humanos sob seu jugo. Sua identidade não muito secreta e que só existe para criar algumas páginas de suspense e permitir que haja pancadaria na minissérie? Bem, não vou revelar aqui só para manter a crítica livre de spoilers, mas diria que a escolha até poderia fazer algum sentido se ganhasse uma contextualização melhor e que não fosse ditada pelos elementos utilitários que mencionei.

Toda a concisão que Peter David demonstrou em Futuro Imperfeito inexiste aqui. Ao já começar no futuro e ir avançando veemente e rapidamente pelos anos, o autor retira o foco no Hulk e vive de nostalgia, ou seja, da presença de outros personagens sobreviventes que pipocam aqui e ali para tentar dar estofo à narrativa. É bem verdade que as múltiplas personalidades de Bruce Banner geradas pela relação insalubre com seu pai vilanesco – algo canonizado bem recentemente, vale dizer – estão presentes para “explicar” a conversão do Hulk em Maestro, mas o problema é que David simplesmente não explora cuidadosamente esse aspecto, ficando mais preocupado com a ação comum e banal que muitos esperam de uma HQ com o Hulk.

Com isso, a corrupção do Hulk, em sua versão Professor Hulk, e transformação em Maestro não convence de verdade. Parece muito mais algo como uma decisão de momento do herói convertido em vilão de apenas tomar o lugar do Maestro já existente, sem que entendamos sua perversidade e lascívia como corajosamente o roteirista abordou na minissérie noventista. E, lógico, David cai na armadilha da relativização da maldade que basicamente diz que há justificativas para o Hulk fazer o que faz. É muito conveniente e banal esse tipo de abordagem, exatamente o oposto do que é Futuro Imperfeito.

A arte de Germán Peralta é bonita e vistosa, com as cores digitais de Jesus Aburtov realçando a ambientação pós-apocalíptica. No entanto, há um quê de burocracia no trabalho apresentado, especialmente considerando que, com cinco edições, era perfeitamente possível criar momentos visualmente impactantes que ajudassem a melhorar o texto de Peter David. Infelizmente, o realce é puramente estético e, mesmo assim, muito distante da arte original de George Pérez.

Apenas como um adendo, vale dizer que, no final das três últimas edições, há uma história secundária – Relics ou Relíquias, em tradução direta – que retorna para momentos diferentes no passado focando em Janis Jones e Rick Jones resgatando objetos importantes dos super-heróis mortos. A narrativa, porém, é fragmentada e sem nenhuma grande influência na história principal.

Confesso que não tinha muitas expectativas por Maestro: Sinfonia em Clave de Gama. O único elemento atrativo era o retorno de Peter David à sua criação, mas o resultado foi exatamente como eu imaginei que seria, ou seja, não muito mais do que uma minissérie caça-níquel. Não é terrível de forma alguma, mas é completamente descartável.

Maestro: Sinfonia em Clave de Gama (Maestro: Symphony in a Gamma Key – EUA, 2020)
Contendo: Maestro # 1 a 5
Roteiro: Peter David
Arte: Germán Peralta, Dale Keown (história secundária)
Cores: Jesus Aburtov, Jason Keith (história secundária)
Letras: Ariana Maher
Editoria: Sarah Brunstad, Wil Moss, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto a dezembro de 2020
Editora no Brasil: não publicado na data de lançamento da presente crítica
Páginas: 128

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