Crítica | Magia ao Luar

Depois dos impactantes Match Point – Ponto Final e O Sonho de Cassandra, dois entre os meus dez prediletos da grife “Woody Allen”, o cineasta se voltou aos discursos mais amenos. A catarse própria da tragédia deu espaço para reflexões filosóficas existencialistas ainda importantes, mas permeadas por um tom mais leve. Ao saltar alguns anos dessa fase, tivemos Blue Jasmine, um profundo estudo de personagem, antecessor de Magia ao Luar, filme que só me cativou depois de revisitado, recentemente, numa ocasião de revisão da trajetória cinematográfica do diretor. Considerada tola, pueril e vazia, a produção ganhou novos contornos. Lançada em 2014, a comédia é um belo desfile de personagens que flertam com os misteriosos elementos da juventude, confrontados com os representantes da maturidade que pode, em muitos aspectos, ser descrente, amarga e neurótica. Em suma, “um retrato” de Woody Allen.

Mais uma vez, o roteiro nos apresenta uma mulher idealizada e um homem que pode ser considerado outro alter-ego do cineasta. Sophie (Emma Stone) é a tal moça envolta numa redoma de mistérios. Ela é uma vidente estadunidense de existência simplória, longe dos grandes circuitos elitistas de onde passeiam os demais personagens. Prestes a mudar de rumo, pois está de casamento marcado com Brice (Hamish Linklater), a moça deixará o cotidiano regrado para circular por espaços badalados, sempre festivos e tomados por luxo. É um terreno atraente, sedutor, com presentes ofertados diariamente e bajulação de um noivo apaixonado. O que ela com certeza não esperava, ocorre. É a tal questão do destino, sempre presente na “grife Allen”.

Stanley Crawford (Colin Firth), alter-ego de Wei Hing Soo, um ovacionado ilusionista com carreira extensa, será um dos convidados para desmascará-la durante uma visita a uma viúva que deseja dialogar com o falecido marido. Burkan (Simon McBurney) é quem vai catalisar os dilemas entre o amigo mágico que sempre lhe causou certa inveja e a jovem supostamente farsante. Será a oportunidade de Crawford, um homem cético e ciente dos malabarismos do ilusionismo, comprovar diante de todos a farsa que a moça representa. Enquanto busca provas para acabar com a reputação da jovem, o mágico amargo e afundado num casamento fragilizado se apaixonada pela jovem, pois conforme o filme tenta nos mostrar, não há doçura igual. Ela também parece magnetizada pelo jeitão sisudo de Crawford, um homem que reluta em acreditar nas ilusões da vida. Para ele, o melhor mesmo é manter-se ateu, cético, voltado ao que a existência física nada fácil de fato pode lhe oferecer. Em suma, um pessimista.

Numa atmosfera semelhante aos divertidos O Escorpião de Jade e Scoop – o Grande Furo, os desdobramentos de Magia ao Luar ressoam otimistas, numa comprovação de que ainda há esperança diante as agruras sentimentais em nossa vida cotidiana. Mergulhado no clima clássico que o cineasta sabe emular com maestria, a produção reflete sobre truques e desconfiança, amor e resistência, os embates entre a ciência e a magia, tudo isso diante das belas paisagens francesas que dão o tom romântico necessário ao desenvolvimento dos personagens e de seus conflitos. Com Darius Khandji na direção de fotografia, o espectador pode contemplar movimentos milimetricamente calculados para retratar as figuras que circulam sempre envoltas em espaços que exalam elegância, também iluminados com tons intensos, sobressaltados graças ao eficiente design de produção de Anne Seibel, setores técnicos que ganham o reforço de Marcia Gay Harden, Eileen Atkins e Jacki Weaver, todas intensas em seus desempenhos.

Como é de se esperar, na trilha sonora, Woody Allen seleciona os clássicos que fazem parte de seu gosto pessoal, uma marca em seu cinema, tudo sempre agradável e de bom gosto. O fato da repetição de temas não é um problema, pois vejo que na atual era da exacerbação de temas nas redes sociais, aplicativos, serviços de streaming e explosão do formato seriado de narrativa, expor algo supostamente original é uma tarefa para poucos, algo quase impossível, caso consideremos nossa tradição milenar de contar histórias. As pessoas andam tão entediadas que o combustível para as suas existências é o surgimento de algo novo constantemente, tendo em vista alimentar o vazio interior com algo novo que após o consumo, é descartado.

Woody Allen trabalha numa linha diferente e nós já sabemos disso. Ciente de sua condição de cineasta respeitado pela técnica e direção de atores, a sua carreira engloba textos teatrais, contos, narrativas biográficas, dentre outros. Quem vai ao cinema ver um filme seu, sabe mais ou menos o que irá encontrar. Ele sempre expôs variações dos mesmos tópicos. Por não apresentar novidades ou por retomar algo que já fez anteriormente, deve ser acusado de diretor sem consistência e que precisa se aposentar? Não, pois como já dito nas poucas entrevistas que se predispõe, ele continua a produzir filmes para se sentir vivo. Não vejo porque ter a necessidade de sempre apresentar tramas inovadoras, nunca contadas antes no cinema ou na literatura. Isso é para os novatos, para quem precisa mostrar serviço e se estabelecer. Não é o caso de Allen.

Magia ao Luar (Magic in The Moonlight – EUA, 2014)
Direção:
Woody Allen
Roteiro:
Woody Allen
Elenco:
Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Catherine McCormack, Eileen Atkins, Erica Leerhsen, Jeremy Shamos, Hamish Linklater
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.