Crítica | Mágico Vento: Forte Ghost

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Assumidamente revisionista, Mágico Vento é o tipo de série em quadrinhos que, pelo flerte com a fantasia e pelo amplo trabalho histórico ao mostrar o Velho Oeste — não apenas em sua grandeza factual, mas também pelas lendas e costumes dos povos indígenas misturadas com as lendas dos colonizadores –, nos convida a olhar para as culturas locais e percebê-las como centro do enredo, o que não é exatamente inédito, mas também não é comum, especialmente em séries longas. O comum, para quem conhece bem o western dos filmes ou dos quadrinhos, são os conceitos ligados à base clássica do gênero, tais como as histórias da Union Pacific e as histórias de império, vingança, cavalaria, índios, foras-da-lei e xerifes. Em Mágico Vento, essa base clássica é ‘apenas’ o instrumento que abraça a linha de maior destaque do roteiro, um tom fantasioso ou de horror que, nesta aventura de estreia, é um conto de fantasmas.

Criada por Gianfranco Manfredi e tendo José Ortiz nos desenhos, Forte Ghost traz os elementos básicos de apresentação de um personagem nos quadrinhos, baseando-se em um acontecimento que dará suporte para tramas vindouras. Isso de certo modo prende o texto, o que até poderia resultar em algo muito bom, se o autor explorasse mais os eventos dentro desse espaço, o que não acontece, mas não a ponto de estragar o nosso divertimento durante a leitura. É interessante observar que mesmo dez anos depois, Manfredi manteria o exato modelo para introduzir o personagem Face Oculta, na história Os Saqueadores do Deserto. Ambos os casos são ficções históricas, mas Forte Ghost ainda não está ligada a um ponto particular dos acontecimentos do Velho Oeste e sim a algo que aconteceu aos montes no período de expansão das linhas férreas: a especulação imobiliária que, em pouco pouco, enriquecia o vendedor das centenas de casas e, a médio prazo, fazia com que as cidades se tornassem desertas.

Em entrevistas e editoriais Manfredi nunca escondeu o fato de que, nesta série, procurou adotar uma base de roteiros dentro do Pós-Western Clássico, se comparado à visão cinematográfica, tendo aí predileção pelos filmes que marcaram o período que chamamos de A Era dos Finais Sem Glória. Citando obras como Quando é Preciso Ser HomemPequeno Grande HomemUm Homem Chamado Cavalo, as três de 1970, o autor deixa claro sua intenção de mudar o olhar tanto para eventos corriqueiros do Oeste, quanto para a cultura indígena, seu massacre, seus conflitos internos, guerras e costumes que podem parecer estranhos para quem está de fora. Embora aqui a gente não tenha uma real exploração da relação entre Mágico Vento e os índios Sioux que o acolheram (esta é uma jornada de encontro pessoal que ele faz, descobrindo, ao final, ser Ned Ellis), certamente já se pode ver esse tratamento diferente na condução da trama, porque o próprio Mágico Vento vê as coisas de forma diferente.

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Resgatado por um índio e, depois, encontrando Poe…

Esse caráter de “novo olhar” olhar ganha ainda maior destaque quando o protagonista encontra Willy Richards, conhecido como Poe, porque guarda imensa semelhança com o famoso escritor de Boston. No início, através de uma narração entrecortada, o espectador imagina que terá uma trama grandiosa, com o esquema denunciado por Poe desmascarado através do jornal. O roteiro, todavia, vai para um caminho diferente, um pouco aquém da própria expectativa que cria. Talvez isso tenha sido uma forma de o autor deixar toda a atenção possível para o desenvolvimento dos personagens, criando no Forte Ghost uma interessante e, para todos os efeitos, anticlimática batalha. Os planos de José Ortiz aqui dão grande dinamismo às cenas, enaltecendo os movimentos e criando ótimos momentos de ação, mas esses são momentos isolados. De qualquer forma, é muito interessante ver um personagem visualmente inspirado em Daniel Day-Lewis no filme O Último dos Moicanos encabeçar uma busca pessoal e, literalmente, enfrentar seus fantasmas pessoais num western ao mesmo tempo realista e fantasioso.

A admiração do Gianfranco Manfredi por Homem Morto e por Danças Com Lobos se somou à necessidade de revisitar o cânone do Velho Oeste trazendo uma nova perspectiva. Em Forte Ghost a ideia para essa novidade é apresentada com competência, embora se contente apenas com esse cenário simples de introdução de um novo Universo para a Sergio Bonelli Editore, o que não é ruim, mas deixa um pequeno vazio na história. O futuro da série, porém, compensaria com folga esse momento inicial.

Magico Vento #1: Fort Ghost (Itália, julho de 1997)
Publicação original:
Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Editora Mythos (2002 e 2017)
Roteiro: Gianfranco Manfredi
Arte: José Ortiz
Capa: Andrea Venturi
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.