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Crítica | Magnum 44

por Ritter Fan
390 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers.

Apesar de todas as controvérsias sobre misoginia e violência policial ao redor de Perseguidor Implacável, é inegável que o filme se tornou, imediatamente, o modelo que duas décadas de “filmes de anti-heróis durões” desenvolveriam das mais diversas maneiras. O Harry, o Sujo de Clint Eastwood, que transporta para a polícia o pistoleiro sem nome da clássica Trilogia dos Dólares, é, para o bem ou para o mal, o padrão que continua até hoje sendo usado para caracterizar personagens desse naipe, com moralidade dúbia e que tendem a fazer justiça com as próprias mãos.

O sucesso do primeiro filme levou à inevitável continuação dois anos depois, mas desta vez sem Don Siegel na direção. Em seu lugar, entrou Ted Post, diretor quase que exclusivamente de televisão, mas que já havia trabalhado com Eastwood tanto na clássica série Rawhide quanto no longa A Marca da Forca, de cinco antes. O roteiro ficou ao encargo de uma dupla ilustre, John Milius e Michael Cimino, que levou em consideração o clamor que o primeiro filme gerou e criou uma história que desglamouriza a brutalidade da polícia e o vigilantismo ao tornar a própria força policial – ou uma divisão mais radical dentro do Departamento de Polícia de São Francisco – a vilã da fita, que passa a assassinar notórios criminosos e que tenta arregimentar Harry Callahan para seu lado dado seu passado e dada sua aproximação à verdade na medida em que investiga informalmente os crimes.

É sem dúvida interessante que o vilão não seja uma pessoa só como no primeiro filme e que a força policial como um todo seja revestida de culpabilidade aqui, em um movimento ousado do texto de Milius e Cimino. Pelo menos é uma forma de reconhecer a existência de um problema que está até hoje ao nosso redor, especialmente na época em que a presente crítica foi publicada, com os protestos nos EUA gerados pelo assassinato de George Floyd nos EUA. Por outro lado, essa abordagem relativiza o próprio Harry Callahan. Ele continua o mesmo, não tenham dúvida, mas, diante do quadro que é apresentado no filme, sua forma de vigilantismo e sua forma de truculência passa a ser imediatamente vista com bons olhos, certamente muito mais benevolentes que no primeiro longa do personagem. Isso não é exatamente um problema, mas sim um alerta que o espectador precisa reconhecer para compreender que o roteiro, ao tentar resolver um problema, talvez acabe causando outro.

Mesmo com um bom conceito, Milius e Cimino têm problemas na execução que não têm relação alguma com as considerações sócio-políticas que abordei acima. Os dois roteiristas fazem um enorme esforço para manter a identidade dos vigilantes escondida, primeiro dando a entender que seria o perturbado policial de trânsito Charlie McCoy (Mitchell Ryan), amigo de Callahan e, depois, confundindo propositalmente o espectador com a introdução de um grupo de quatro cadetes da polícia que são particularmente bons de mira (interessantemente, três dos atores – David Soul, Tim Matheson e Robert Urich – passariam a ter destaque em suas carreiras a partir desses papeis). Com isso, Post acaba não conseguindo manejar bem a transição da desconfiança de Harry, até porque os vilões são mantidos em segredo também dos espectadores, e o filme passa a ser um whodunit muito truncado que usa de expedientes baratos para esconder o mistério, com uma sucessão de crimes que acaba não ajudando muito no desenvolvimento da narrativa, além de uma investigação um tanto quanto aleatória por parte de Harry.

Curiosamente, e provavelmente também em razão dos protestos contra o primeiro longa, a violência causada pelo próprio protagonista é minimizada. Na verdade, ele só efetivamente usa seu famoso revólver Magnum 44, que dá nome ao filme, em um campeonato de tiro da polícia, com a ação climática toda com ele mantido desarmado, o que até pode gerar estranheza, mas que acaba funcionando bem para dar mais variedade ao longa. A luta de Callahan contra os vilões é, ao contrário de toda a construção e desenvolvimento do mistério, bem manejada pelo diretor que faz bom uso da locação abandonada mesmo que ele tenha constantemente brigado com Eastwood sobre o efetivo controle sobre o filme.

Magnum 44 é uma continuação digna de Perseguidor Implacável que sabe usar as manifestações oriundas da obra original ao seu favor, mas que não tem o finesse do comando de Don Siegel ou a simplicidade narrativa que marcou a estreia de Dirty Harry no cinema. Muito preocupado em manter o segredo pelo maior tempo possível, o longa acaba se perdendo até reencontrar-se novamente em seu terço final que, porém, já não tem a essa altura o mesmo impacto.

Magnum 44 (Magnum Force, EUA – 1973)
Direção: Ted Post
Roteiro: John Milius, Michael Cimino (baseado em história de John Milius e em material original de Harry Julian Fink e Rita M. Fink)
Elenco: Clint Eastwood, Hal Holbrook, David Soul, Tim Matheson, Kip Niven, Robert Urich, Felton Perry, Mitchell Ryan, Margaret Avery, Bob McClurg, John Mitchum, Albert Popwell, Richard Devon, Christine White, Tony Giorgio, Maurice Argent
Duração: 124 min.

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2 comentários

Thiago Paz 14 de julho de 2020 - 21:15

Tenho certeza que Padilha copiou (embora de forma porca) em tropa de elite 1 e 2 a “dicotomia” entre os dois enredos. No primeiro Callahan é o bad ass, no segundo ele se torna o “legalista”.

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planocritico 14 de julho de 2020 - 21:22

Interessante essa conexão que você faz. Não tinha pensado nisso.

Abs,
Ritter.

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