Crítica | Maioria Absoluta

O tema deste filme não é a alfabetização, mas o anafalbetismo, que marginaliza 40 milhões de irmãos nossos” entoa a poderosa voz de Ferreira Gullar ao início do curta. Por algumas vezes, a narração do poeta chama o problema, por analogia, de uma doença. Justamente por não conhecermos as suas causas, buscamos soluções absurdas e remédios milagrosos. No entanto, o documentário de Leon Hirszman — em seu segundo trabalho como diretor — não se limita a isso, já que para que o seu diagnóstico possa ser dado, é preciso estudar a história do Brasil. Portanto, Maioria Absoluta é passado, presente e futuro. 

Se há alguma coisa que tanto o título do filme quanto sua condução narrativa constantemente nos martelam, é que, no Brasil, a grande maioria, na verdade, é aquela que não possui direitos trabalhistas e políticos resguardados. Para isso, dados estatísticos que vão desde a descoberta do Brasil são puxados e mostram que a distribuição de terra sempre foi injusta, como a criação das capitanias hereditárias, estratégia que concentrou muita terra nas mãos de poucos. Em 1964, éramos 80 milhões de brasileiros, e só 70 mil possuíam a posse de 60% de todas as terras do país. 

Contudo, de nada teria impacto a parte sonora em Maioria Absoluta, se não fosse a sua comunicação com o seu aspecto visual. Com pouco espaço no filme, os minutos iniciais são ocupados por depoimentos da classe média sobre as causas do problema brasileiro. As entrevistas vão de pessoas despreocupadas na praia, passam por uma dona de casa rodeada por sua luxuosa mobília e vão até um homem, aparentemente intelectual de camisa social e óculos. Aqui, a narração de Gullar se silencia e o que fala é, na verdade, a montagem de Nelson Pereira dos Santos. Enquanto absurdos são pronunciados por essas pessoas — “o problema do Brasil é moral!”; “O povo não quer ser ajudado”; “Pessoas que não sabem escrever o nome não podem votar” — surge finalmente o povo em tela. 

A direção de Leon Hirszman mescla muito bem seu foco. A câmera na mão alterna entre close-ups nos rostos marcados pela pobreza e miséria, com uma noção coletivista que, através de planos gerais, preocupa-se com a população como um organismo coletivo. Se este contraste entre as falas alarmantes da classe média — que poderiam muito bem ser proferidas no dia de hoje — com as imagens que vão no coração de estações de trem ou feiras populares ainda não é suficiente, mais uma coisa reforça este jogo de diferenças. Como dito, quando o foco está na minoria burguesa, o ambiente é de paz, relaxamento, silêncio e isolamento. Em contrário, a população está sempre em movimento, vivendo sua rotina, com barulho e, principalmente, trabalhando. 

Posteriormente, Hirszman se dirige ao campo. Imagens bucólicas daquele ambiente rapidamente são trocadas por trabalhos na cana e relatos dos maus-tratos trabalhistas daquela época. A montagem de Nelson Pereira segue um ritmo sem pressa, dando espaço para que cada um exponha sua angústia. Assim, o bom humor do povo se mescla com as denúncias de fome, a alta carga horária e os abusos dos patrões. 

Perto do fim, assim como no início, o foco sai do povo. Agora, filmagens aéreas filmam Brasília e o Congresso Nacional, de maneira afastada, enfatizando a distante relação entre os analfabetos e seus direitos políticos. Paralelamente, Gullar relata quantos não votam por essa condição: 25 milhões. Por que eles não possuem direitos? Se são eles que nos dão tudo, movendo a economia, por qual motivo não damos nada a eles? 

Hirszman não poderia encerrar Maioria Absoluta de maneira mais brilhante. A voz onipresente diz: “O filme acaba aqui. Lá fora, a tua vida, como a desses homens, continua”, enquanto trabalhadores, andando sem rumo, carregam um saco nas costas. Logo, o papel do cinema não deve ser apenas uma denúncia que se limita aos seus 20 minutos de projeção. A revolta, a indignação e a luta não podem se encerrar com o surgimento do vazio preto na tela. Pelo contrário, eles devem continuar, pois a desigualdade social também se manterá, caso nada seja feito. No Cinema Novo, o cinema não é fim, mas apenas o início de uma luta.

Maioria Absoluta – Brasil, 1964
Direção: Leon Hirszman
Roteiro: Leon Hirszman, Aron Abend, Luiz Carlos Saldanha, Arnaldo Jabor
Elenco: Ferreira Gullar
Duração: 20min.

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.