Crítica | Mais e Melhores Blues

Quando lançado nos cinemas brasileiros, Mais e Melhores Blues foi considerado, por uma boa parte da crítica especializada, um filme apenas para os apaixonados ou simpatizantes do jazz. Segundo as opiniões, míopes após uma análise atualizada do filme, a narrativa corria o risco de se tornar um “spike” menor caso fosse assistida por um público desconhecedor do gênero musical em questão. Ledo engano para todas as afirmações. A produção é fruto de um cineasta amadurecido, ainda relevante, com as discussões sobre a trajetória do afroamericano dentro de uma perspectiva mais branda, sem o tom incendiário de Faça a Coisa Certa, Malcolm X ou Febre na Selva.

No enredo, Bleek Gilliam (Denzel Washington) é um músico que teve uma experiência bastante repressora em sua infância. Impossibilitado de brincar com os amiguinhos da vizinhança, tinha que fazer as lições cotidianas com um trompete comprado por sua mãe, presente fornecido com provável interesse de distanciar o garoto das distrações e supostos perigos das ruas. O problema é que a mãe não soube balancear o “cárcere musical”, tornando o seu filho um homem que tem a música como um recurso acima de outras coisas também importantes em sua vida. Dividido entre duas mulheres, ele ainda precisa lidar com a rivalidade diante do saxofonista Shadow Henderson (Wesley Snipes), um exímio profissional que às vezes consegue eclipsar as demais performances da banda formada por Bleek.

O amigo Giant (Spike Lee), viciado em jogo, assume o posto de empresário, posto que culmina em problemas para o desenvolvimento da banda. Diante do exposto, o drama pinta um quadro delicado e leve das aventuras noturnas destes músicos: amores, paixões, desejos, sonhos e expectativas. Dirigido por Spike Lee, com roteiro assinado em parceria com Richard Price, o filme traz direção de fotografia de Malik Hassan Sayeed, responsável por captar ótimas cenas noturnas; Andrew McAlpine, no design de produção, assina os espaços por onde os personagens trafegam, ambientes que “respiram” música constantemente, com tons em madeira, visualmente poéticos quando banhados pela “iluminação azulada”. A direção musical, comandada por Terence Blanchard, também é certeira na condução auditiva do drama, com tempo de duração um pouco além do necessário.

Em seus 128 minutos, Mais e Melhores Blues traz para o público um filme onde a imagem se nutre profundamente da música, e vice-versa, numa relação intersemiótica deslumbrante. Cinema é audiovisual, sendo assim, o leitor pode achar que a afirmação é redundante, mas acredite, não é. Delineio, sublinho e destaco, veementemente, que a música ocupa um espaço peculiar nesta narrativa crítica e reflexiva. Não é controversa e ácida como as narrativas cinematográficas assinadas pelo cineasta anteriormente, mas é um filme a ser lembrado, afinal, não é só de polêmica que se vive, não é mesmo?

Importante observar como o filme pode ser um atalho para debates em relação ao jazz como gênero musical representativo da cultura africana, importada para os países colonizadores ao longo das diásporas que demarcaram a história de um povo culturalmente riquíssimo. Mescla de elementos africanos e europeus, tendo inspirações de ordem religiosa, o jazz evoluiu muito desde os seus primeiros passos. Inicialmente, o estilo era uma forma de entretenimento dos trabalhadores pobres de zonas periféricas dos grandes centros urbanos que se desenvolveram com a chegada da “modernidade”. Com poucas cordas, vocais próprios e uso de muitos metais e madeiras, o jazz, gênero de executantes, ganhou maior projeção ao passo que a indústria cultural se apropriou dos elementos que o compõe, delineando a sua estrutura, inclusive, com uma aura que originalmente não lhe pertence: o status de “música erudita”.

Mais e Melhores Blues (Mo’ Better Blues, Estados Unidos – 1990)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee
Elenco: Bill Nunn, Cynda Williams, Denzel Washington, Dick Anthony Williams, Giancarlo Esposito, Joie Lee, Robin Harris, Spike Lee, Wesley Snipes
Duração: 127 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.