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Crítica | Mais Que Especiais

por Fernando JG
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Há mais ou menos três ou quatro décadas iniciou-se uma corrente dentro da psiquiatria que é a chamada luta antimanicomial, que reside na tentativa constante de que pessoas acometidas por síndromes, distúrbios e doenças mentais sejam tratadas com humanidade, rejeitando toda ideia de violência, seja ela dopando o paciente, o amarrando ou internando-o em uma clínica de segurança máxima – os famigerados manicômios. Evita-se esse tratamento justamente em nome da dignidade do humano, mas também porque deteriora-se, ainda mais, os agravantes mentais. Como um braço dessa luta humanizadora, Mais que Especiais insere-se na tradição com um belo enredo, mostrando empatia e cuidado com o diferente. Ainda que não trate do tema da loucura propriamente, o longa lida com temas delicadíssimos, como autismo, desvio de atenção, epilepsia, transtornos de agressividade, entre outros. Se a ideia da ressocialização é o tema do filme, ele também insere personagens autistas reais em seu elenco socializando-os através do trabalho no cinema. 

Não há ingenuidade no trato do tema, e é visível que a direção tem maturidade de pensar na dificuldade que é tanto para os pacientes, como para os que os rodeiam. Diria até que o conceito de “dificuldade” é o que desenha toda a atmosfera fílmica. Não por acaso somos recebidos com um episódio de crise de uma paciente adolescente correndo pela rua, desesperada, enquanto seus mentores a procuram. Ao segurá-la, a jovem intensifica ainda mais o seu desespero, gritando e tentando a todo custo escapar das mãos de seus responsáveis. É neste ritmo que o longa parece caminhar. A mensagem de que não é fácil, mas que há, definitivamente, uma saída humanizadora, é o ponto central da proposta de Olivier Nakache e Éric Toledano, a dupla francesa que dirigiu Intocáveis – inclusive, ambos os filmes têm a mesma estética do real, sobretudo ao fim do longa, evidenciando a mistura dos gêneros ficção e documentário.

O filme vem de uma história real, contando as vidas do judeu Bruno (Vincent Cassel) e do muçulmano Malik (Reda Kateb), amigos que, juntos, tocam uma instituição social ajudando jovens que foram rejeitados pelos centros clínicos devido a seus históricos – geralmente em situação avançada em suas psicopatologias. Sem deixar estas crianças na mão, a instituição faz um trabalho de tratamento humanizado, tentando fazê-las retornar para a sociedade de modo que consigam viver da maneira mais sociável possível. É um trabalho de formiguinha, que dá resultados a longo prazo, mas que ajuda centenas de famílias que não sabem o que fazer com a situação de seus filhos. A carga dramática, além do próprio argumento por si só, fica por conta da atuação do Estado, que a todo tempo busca deslegitimar a instituição, enviando agentes dizendo que este é um trabalho ilegal, porque não tem a tutela do Estado, mas esquecem-se que o próprio governo vira as costas para esse recorte populacional. O que fazer quando se tem um filho epiléptico, ou autista-agressivo, em estágio avançado da doença, e as instituições, que deveriam tutelá-lo, o rejeitam, mesmo a criança com episódios intensos e constantes? Este é o entorno do filme e o desespero que ele reclama para si.

Mesmo que possa parecer que o drama é a única camada fílmica, a comédia se mostra como um núcleo articulador muitíssimo importante, aliviando todo esse peso da marginalização desses grupos. As doses de comédia são introduzidas através do próprio drama, como quando Joseph, um paciente já quase ressocializado, pergunta se pode matar a mãe, e Bruno tem de sempre lembrá-lo: “Não, Joseph. Você não pode matar a sua mãe!”. Cenas como essa trazem alegria para o filme e acerta em cheio no modo como pensa a comédia dentro do longa-metragem.

Os argumentistas de fato sabem o que quer com os rumos da história. A narrativa corre linear e coesa, sem grandes desvios, no entanto, o filme cai, invariavelmente, em clichês do gênero. Ainda que o clichê não seja um problema em si, o modo como ele é colocado pode reduzir o brilho do filme. Por exemplo, a cena final, em que Joseph finalmente consegue evoluir no tratamento e não puxar a trava de emergência do metrô, a direção segura ao máximo a sua saída da plataforma, para que pensemos que ele não conseguiu concluir o objetivo – que é chegar ao seu destino – e, então, em meio à tensão, surge ele lá no fundo. Bom, é óbvio que a construção desta cena final visa engrandecer a narrativa, e colocar a cereja no bolo, mas o efeito, por já sabermos que certamente ele sairá na plataforma, cai no vazio, apesar de ser bonitinho e emocionante pela temática. 

O que é bem trabalho no longa é a vida pessoal de Bruno, que se entrega à sua atividade social, deixando sua vida pessoal de lado. A direção busca demonstrar as dificuldades que ele tem em sua particularidade e há um certo sacrifício em prol de uma causa maior. Ele é, com certeza, o grande herói da narrativa, junto de seu amigo Malik. 

É um filme que dificilmente não seria emocionante devido à temática, e também pelo mérito com que se trabalha toda a ambientação. Não seria diferente em se tratando da dupla de diretores franceses, que têm sempre uma sensibilidade em seus filmes. É um bom filme, extremamente bem pensado, variando entre documentário e ficção, e, sobretudo, não idealizando uma situação que é tão difícil para tanta gente, abrindo feridas mas também buscando curá-las. O longa-metragem, que foi lindamente aclamado em Cannes no ano de 2019, e pelas razões corretas, não deixa de ser uma bela peça cinematográfica dentro do cinema temático. 

Mais que Especiais (Hors normes) – França,  2019
Direção: Éric Toledano, Olivier Nakache
Roteiro: Éric Toledano, Olivier Nakache
Elenco: Vincent Cassel, Reda Kateb, Hélène Vincent, Bryan Mialoundama, Alban Ivanov, Benjamin Lesieur, Marco Locatelli, Catherine Mouchet, Frédéric Pierrot, Suliane Brahim, Lyna Khoudri, Aloïse Sauvage, Djibril Yoni, Ahmed Abdel Laoui, Darren Muselet
Duração: 114 min.

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