Crítica | Make Us Dream

“Como me sinto é mais importante do que ganho ou poderia ganhar em outro lugar.”

O que é preciso para tornar-se ídolo de um dos maiores clubes de futebol do mundo? Grandes conquistas, disposição, amor à camisa e fidelidade ao clube são bons exemplos que servem como resposta. Tudo isso e muito mais encontramos em Steven Gerrard, um representante dos melhores e mais gigantescos jogadores que já vestiram a camisa do Liverpool Football Club, um dos maiores e mais vitoriosos clubes de todo o planeta.

Dirigido por Sam Blair, o documentário, produção original da Amazon Prime Video, lançado em 2018, retrata o início da caminhada de Gerrard no futebol, desde seus primeiros passos no campo ainda criança até o auge como capitão, referência e ídolo máximo do seu clube de coração. Toda essa relação de quase uma vida construiu laços fortíssimos entre a instituição e o agora ex-jogador que são explorados durante toda a projeção. Laços que ultrapassam muito o campo de futebol.

Nascido e criado como um típico garoto de Liverpool, Gerrard e seu sotaque scouse, dialeto característico dos habitantes da cidade, nos guiam ao longo de 104 minutos de uma apaixonante e emocionante história do garoto que dedicou 27 anos de sua vida quase exclusivamente ao clube que ama. Por conta não apenas do amor ao futebol, mas também de fatores externos ao jogo, a linda relação do ex-jogador com os Reds, apelido do clube, atinge níveis altíssimos. O maior exemplo mostrado no filme é o falecimento de seu primo, outro apaixonado pelo Liverpool, no desastre de Hillsborough, quando 96 torcedores do clube morreram em uma partida pela Taça da Inglaterra, em 1989, por conta da superlotação do estádio.

Essa construção, especialmente no primeiro terço da obra, faz o espectador tomar noção do que o jogador representa para o clube e vice-versa, ao mesmo tempo que estabelece uma carga dramática muito eficiente que fica presente ao longo de todo o filme. A história dos dois se funde: enquanto o clube passa por uma época muito atípica do ponto de vista futebolístico, sem grandes times e conquistas, e sofre com uma das maiores tragédias que já aconteceram no esporte bretão, o então jovem Gerrard precisa encontrar forças para superar a morte de seu primo nessa mesma tragédia e seguir seu sonho de um dia jogar pelo clube que ama. Chega a ser poético como ambos já estavam intimamente ligados antes mesmo de sequer terem alguma ideia disso.

Inclusive, memórias são muito utilizadas aqui, algo que, infelizmente, mostrou-se uma faca de dois gumes. Positivamente, serve muito bem para ilustrar o passado de Gerrard, com uma infinidade de registros pessoais e de grandes momentos em sua carreira, e até com interessantes rimas visuais, como quando enxuga as lágrimas de felicidade ainda criança em uma partida e, mais tarde, como profissional realiza o mesmo gesto numa ocasião similar. Negativamente, todos esses registros tornam-se muito massantes em diversos momentos, principalmente caso alguém não seja um apaixonado por futebol, já que todas as pessoas entrevistadas, desde técnicos até o pai de Gerrard, não aparecem. Somos capazes somente de ouvir suas vozes em cima de imagens e vídeos, o que prejudica o ritmo da película e torna o projeto visualmente cansativo e repetitivo.

Apesar disso, a obra consegue prender o espectador, muito graças aos belíssimos lances da carreira de Gerrard exibidos, e constrói muito bem a relação de um clube que vivia um momento de crise, em diversos aspectos, e um jogador que nasceu para resgatar o orgulho da torcida e brilhar pelos Reds. Make Us Dream é um belo documentário que honra uma das mais belas histórias de amor e fidelidade entre jogador e clube na história do futebol. Um prato cheio para quem é apaixonado pelo esporte.

Make Us Dream — Reino Unido, 2018
Direção: Sam Blair
Roteiro: Sam Blair
Elenco: Steven Gerrard, Michael Owen, Steve Bruce, Jamie Carragher, Kenny Dalglish, Alex Gerrard, Paul Gerrard, Struan Marshall, Hugh McAuley, Bob Paisley
Duração: 104 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.