Crítica | Mal Nosso

Em seu pretérito perfeito, o cinema brasileiro continua mantendo firmeza no investimento em terror. Desde os mais próximos ao clima estadunidense de produção, bem como aos que se propõem a tornar brasileira a sua abordagem. O terror cresce vertiginosamente no Brasil. Sabemos, inclusive, que depois desta era de incertezas angustiantes no bojo da política circense e das relações sociais cada vez mais extremas e violentas, a sétima arte será uma das válvulas terapêuticas para realizadores sufocados pelos acontecimentos drásticos de nosso tecido social, um emaranhado de situações bizarras, grotescas e de tão absurdas, tornaram-se cinematográficas.

Mal Nosso é um dos filmes desta nova linhagem do horror. Uma suposta mescla de O Exorcista com a temática slasher. Ao assisti-lo, a impressão que temos é o estabelecimento de duas histórias distintas. Uma funciona mais, a outra bem menos, mas em ambas o maquiador Rodrigo Aragão desenvolve o seu trabalho com maestria, dando ao campo dos efeitos especiais brasileiros um novo caminho a ser trilhado. E detalhe: convincente. Se antes tínhamos apenas Zé do Caixão como referência maior do terror nacional, agora podemos nos gabar de ter crescido dentro de um dos melhores gêneros para discussão de demandas políticas e sociais, além de ser campo fértil para o entretenimento tão buscado pelas pessoas que vão para uma sala de cinema.

Dirigida e escrito por Samuel Galli, a produção de baixo orçamento flerta com diversas temáticas: as qualidades do cinema de gênero, isto é, escolhas narrativas desapegada das convenções mais básicas. Com diálogos que precisavam ser mais trabalhados, bem como a necessidade de sair da atmosfera de horror estadunidense que ainda paira em nosso imaginário industrial, numa espécie de subserviência aos modelos hegemônicos, Mal Nosso traz em seu conteúdo discussões de ordem metafísica, traços do torture porn, os perigos da deep weeb e dos espaços sociais sórdidos, ditos pecaminosos.

Na trama, Arthur (Ademir Esteves) é um homem abalado por determinadas circunstâncias de sua vida. Ele contrata um assassino em série, intitulado Charles (Ricardo Cassella), para uma missão que saberemos maiores detalhes lá pelo meio da narrativa. O que podemos observar logo de imediato é que o trabalho mescla sangue e pitadas espiritualistas. À primeira vista, a trama parece nos ofertar um novo festival slasher, mas engana-se quem espera mulheres incautas ceifadas com facas e machados afiados. Depois de encontrar Charles, o responsável pelo comando de sua missão, no submundo da deep web, nós, tal como Ademir, trafegamos por uma extensa zona de loucura e intensa mixagem de imagens sobrenaturais e reais, em profusão.

Saberemos depois dos acontecimentos que envolvem a filha de Arthur, o que de fato é possessão e o que é sanguinolência real. Produção pouco comum e que pede ao espectador a coleta gradativa de informações, Mal Nosso possui um cuidadoso trabalho de ordem técnica, preocupado com os elementos estéticos na transmissão de suas mensagens. A direção de fotografia de Victor Molin é eficiente, adequada com sua iluminação high key responsável por contemplar cada canto do enquadramento com luz, tendo em vista não deixar escapar nada. Com algum uso de jump scare nas cenas de horror, a condução musical de Gustavo Gabato e Guilherme Gabato ofertam o clima ideal para o desenvolvimento da atmosfera de tensão, todos em diálogo com a direção de arte de Maysa Pettes, segmento com possibilidades reduzidas de ornamentação, mas ainda assim, funcional para o conteúdo interno do filme.

Ademais, Mal Nosso traz o cuidadoso trabalho de maquiagem de Rodrigo Aragão, responsável por construir de maneira bastante eficiente os monstros das cenas sobrenaturais. Os brasileiros, diante de tais informações, bem como antenados com as demais produções de terror lançadas nos últimos anos, podem orgulhar-se do manancial de horror que se estabeleceu em nossa cinematográfica, numa comprovação de que não somos apenas comédias românticas diabéticas, perseguições em favelas ou trajetórias sofridas ao longo de toda a extensão do sertão. O Brasil, atualmente, é um horror, tanto na realidade quanto na produção cinematográfica.

Mal Nosso — (Brasil, 2017)
Direção: Samuel Galli
Roteiro: Samuel Galli
Elenco: Ademir Esteves, Antony Mello, Fernando Cardoso, Gabriela Grecco, Luara Pepita, Maria Clara Gonçalves, Maria Galves, Maysa Pettes, Nicole Silva, Reinaldo Colmanetti, Ricardo Casella, Shirley Viana, Sonia Moreno, Thais Prates, Walderrama Dos Santos, William Salles
Duração: 92 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.