Crítica | Malcolm X

Como promover a emancipação da população afroamericana diante de um sistema político dominado pelos brancos? Eis um dos questionamentos de Malcolm X, controversa figura da história do movimento negro nos Estados Unidos, homem de repercussão mundial. A sua cinebiografia, lançada em 1992 por Spike Lee, inspirou-se na autobiografia finalizada por Alex Haley, após o trágico fim do personagem. Ao abranger grande parte da vida conturbada vida de Malcolm X, a narrativa faz uma abordagem crítica e reflexiva da vida de alguém que viveu e sentiu na pele as mazelas geradas pelo “apartheid nosso de cada dia”.

Ao passo que os fatos se desdobram diante do espectador, Spike Lee engaja o discurso por meio de diálogos bem escritos e situações peculiares, típicas do “seu” cinema. É o ataque dos membros da Klan na casa de sua família; o debate sobre a mulher branca ser o “bem cobiçado” por muitos homens negros, os chamados “palmiteiros”; o professor que lhe pede para ter uma meta de vida mais crível, haja vista o sonho de seguir a carreira em Direito uma “impossibilidade”, indicando a carpintaria como uma opção; a questão do determinismo pregado para muitas mulheres que precisarão “colocar os filhos dos outros para dormir”, etc.

São muitos os temas. Atos longos e algumas informações que poderiam ser suprimidas, algo que será problematizado mais adiante. Ademais, Malcolm X traz a vida do ativista da infância à fase adulta, indo desde a não aceitação enquanto “negro legítimo” ao processo de conversão ao Islã, fato que culminará nas curvas dramáticas que regem o desfecho de sua vida. A sua juventude com brincadeiras de “moleque” ao lado de Shorty (Spike Lee) se expande bastante, dando espaço posteriormente para uma enrascada que os coloca na prisão por longos anos. Detido, Malcolm X vai aprender algumas novas lições e mudar radicalmente a sua maneira de pensar e agir no que diz respeito ao “seu” povo.

Com flashbacks orgânicos que nos ajudam a compreender a sua trajetória, o filme revela a trágica história de sua mãe, uma mulher amorosa e dedicada; os principais incidentes racistas que o transformaram numa “bomba” pronta para explodir a qualquer instante, dentre outros pormenores que nos fazem compreender melhor cada ato e desdobramento das suas necessidades dramáticas. Denzel Washington entrega um desempenho dramático intenso. Emula gestos e feições do biografado, num trabalho que transfere para o público a necessidade dramática e o caráter esférico de sua personalidade. Tratado por muitas pessoas como um cara “mimizento”, numa alusão ao adjetivo utilizado para caracterizar pessoas de postura política e questionadora, desde criança, Malcolm X viu a força avassaladora dos agentes da segregação racial estadunidense.

A sua família perdeu a casa depois de um incêndio provocado por membros da Ku Klux Klan, a sua mãe teve que assumir as rédeas depois da morte (assassinato) de seu pai, falhando miseravelmente diante de tanta pressão, sendo obrigada a ver os filhos distribuídos pela assistente social. É um personagem que evolui bem. Se antes alisava o cabelo e tentava ser um “branco”, salvas as devidas proporções, um homem acometido pela “febre na selva”, quando preso, começou a questionar diversos pontos da trajetória de seu povo, principalmente depois do contato com o homem que se tornaria um mentor em sua vida. Um dos trechos mais interessantes é quando o personagem adentra num embate fervoroso com o padre que trabalha para os prisioneiros. Aponta que Jesus provavelmente era negro, constatação óbvia quando confrontamos o mínimo estudo da Geografia. Imortalizado pela “arte” como um homem branco e de olhos azuis, comprovação cabal da cor de pele indesejada por uma sociedade preconceituosa.

Assassinado em 21 de fevereiro de 1965, após ministrar uma apresentação pública num salão de baile próxima do Harlem. As informações sobre as motivações da execução violenta do líder ainda são imprecisas até hoje, segundo trabalhos respeitados, tal como a biografia Malcolm X – Uma Vida de Reinvenções, do historiador Manning Marable. Importante para o desenvolvimento do projeto ideológico do Poder Negro e do “Partido Panteras Negras”, o personagem ganha dimensões multifacetadas na cinebiografia, indo além da simplória antítese de Martin Luther King, isto é, alguém que não discursava sobre a paz, mas que defendia a violência como arma política. Sem apresenta-lo ao público como um herói perfeito, trafegando erroneamente apenas no lado psicológico e individualista, típicos da sociedade estadunidense, o filme expõe a sua dimensão trágica e delineia o seu comportamento turbulento, a identidade fragmentada, em suma, um ser humano como qualquer outro, com as suas idiossincrasias e contradições.

Malcolm X traz as luxuosas participações de Nelson Mandela, Al Sharpton, Bobby Seale (cofundador do Partido Panteras Negras), dentre outros. Para compor o seu filme, Spike Lee conta com a eficiente condução musical de Terence Blanchard, além da primorosa direção de fotografia de Ernest R. Dickerson, responsável por captar os espaços adornados pelo design de produção de Wynn Thomas. Assim, visualmente deslumbrante, Malcolm X é um filme épico. Grandiosa e eloquente, a produção foi ignorada por parte do público, haja vista o seu tempo de duração: 202 minutos. Problema não apenas para o público cada vez menos paciente, mas também para as salas de exibição, pois a veiculação de um filme com o dobro da carga horária de uma produção mediana é algo que também ecoa na organização e ocupação dos pontos de projeção.

Há, nos bastidores, uma história grandiosa como o filme em questão: a batalha de Spike Lee pela manutenção do filme dentro da visão reflexiva e estética do seu interesse. Os estúdios, sempre representados por seus produtores, profissionais dispostos a picotar as produções para atender aos anseios do grande público de massa, muitas vezes destroem narrativas com grande potencial. Com Malcolm X isso não aconteceu. O cineasta lutou com todas as suas forças para garantir a integridade do seu projeto. Para isso, contou com um numeroso time de pessoas interessadas na história que deveria ser mostrada ao público: atores, jogadores, intelectuais. Como diz o popular, a “união faz a força”. Tal ditado é ilustrado veementemente no épico de Spike Lee, filme pomposo que poderia, sim, ter um tempo menor de duração, mas que mesmo com esse “problema”, não deixa de ser um filme importante e necessário.

Malcolm X (Malcolm X, Estados Unidos – 1992)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Arnold Perl
Elenco: Al Freeman Jr, Albert Hall, Angela Bassett, Denzel Washington, Spike Lee, Delroy Lindo, Ossie Davis, Theresa Randle, Al Freeman, Kate Verno, Christopher Plummer, Giancarlo Esposito
Duração: 127 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.