Crítica | Malévola: Dona do Mal

Mas isto não é um conto de fadas.

A ideia da modernização do clássico construída no primeiro Malévola é em partes descartada para dar local a uma identidade fabulesca mais genérica e consequentemente mais inofensiva, que serviu como desculpa para uma sequência ser realizada. Se o primeiro filme tentava subverter algumas das convenções datadas do clássico A Bela Adormecida, de 1959, como um príncipe se apaixonar pela princesa à primeira vista e fazer seu beijo acordá-la, neste, um dos primeiros fatos ocorridos é a aceitação de Aurora ao pedido de casamento desse mesmo príncipe (interpretado por outro ator), já de cara negando o campo de subversão anterior, embora a vista geral do roteiro permaneça com a proposta de colocar Malévola como uma anti-heroína – até mesmo heroína – que precisa provar que não é tão maldosa assim para sua “praga” e permiti-la consolidar a união dos povos do reino com o casamento, mesmo que sua sogra não concorde muito com a ideia.

Assim nasce, na convergência de duas ideias distintas, a verdadeira malévola da história: a rainha, interpretada por Michelle Pfeiffer. A atriz é sem dúvidas um acréscimo e tanto para a narrativa clássica fluir sem precisar engolir e contradizer o que o primeiro filme estabeleceu, servindo de contraponto moral manipulativo e desafiando a relação de Aurora e Malévola, além de ser uma vilã com motivações próprias condizentes ao universo maniqueísta característico da lúdica fantasia Disney. Fora que em termos de atuação, são poucas melhor preparadas que ela para este tipo de papel maquiavélico, há um charme característico de seus maneirismos que combinam perfeitamente com a proposta, um baita acerto de casting, talvez mais até do que a própria Angelina, que acaba sendo subaproveitada em seu próprio filme, embora esteja ainda muito bem, sua personagem é deixada de escanteio para o melhor aproveitamento dos elementos secundários, tais como a vilã ou mesmo Aurora, que ganha um amadurecimento gratificante no decorrer.

O que pode ser um ponto negativo para muitos fortalece o girl power em três vertentes distintas, sem, contudo, esquecer e deixar de escanteio os personagens masculinos. O príncipe de Harris Dickinson, por exemplo, é muito mais interessante do que foi Brenton Thwaites, mesmo não fugindo tanto do estereótipo escoteiro, há até um cuidado interessante na forma como é tratada sua personalidade altruísta. O mesmo pode ser dito para os acréscimos da raça gêmea de Malévola, com Chiwetel Ejiofor e Ed Skrein fazendo personagens opostos em moral que representam o conflito interno da protagonista nas escolhas que tende a fazer. Em suma, é um filme mais equilibrado em núcleos, o que torna o ritmo mais agradável que o anterior mesmo com a maior duração. Muito dessa agilidade vem da melhor decupagem dos efeitos visuais, que ainda estão presentes em excesso, mas distribuídos em abundância pela variação de cenários e guardados em pirotecnia para os momentos que pedem maior grandiosidade, como é o caso do ato final.

A dependência desses efeitos ainda é nítida, principalmente quando se olha o quão na superfície o universo é expandido. O nome da direção entrega muito, Joachim Ronning tem apenas Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar no currículo, ou seja, ele é certamente um daqueles acessórios de filmagem para a Disney realizar continuidades um pouco perdidas no que quer contar, com o mínimo de competência técnica. O resultado propriamente é bem objetivo, os reinos estão sendo expandidos com o único intuito de plantar possíveis novas continuações, e não parte de princípios de sua autoria, sendo seu papel organizar esses elementos de forma a criar uma unidade coesa dentro da história local, e na medida do possível, é isso que ocorre. Ele tem um didatismo bem escrachado na forma e nos diálogos que antecipam cada acontecimento, e os cozinha até os pontos certos de virada, burocraticamente entregando o que lhe é pedido.

POSSÍVEIS SPOILERS!

E talvez o grande problema do filme esteja justamente nessa burocracia, que não se permite ir além do moralismo pré-pagado pela sua primeira narração. Em um determinado momento, o filme perde uma grande chance de potencializar o arco narrativo clássico proposto com uma virada em específico, ela acontece de certo modo inesperadamente, e o talento das atrizes envolvidas sustenta bastante a dramaticidade da cena, que se tivesse escolhido o desfecho tal, teria sido uma sacada bem impactante para o público, já frustrado com a falta de Malévola no seu próprio longa. Uma subversão até mais interessante do que a corajosa – mas mal executada – virada do filme anterior a respeito de qual era o beijo de amor verdadeiro. Uma pena que esse tipo de desdobramento impediria o senso de continuidade como franquia, além de não caber nessa nova Disney que vem constantemente querendo “limpar” seus contos, precisando de alguma forma sustentar o otimismo ao final para aproveitar o oportuno apelo de paz e igualdade entre distintas culturas no mundo tão aterrorizado por um discurso de ódio manipulativo.

FIM DOS POSSÍVEIS SPOILERS!

É deveras importante o que a empresa vem fazendo, mesmo que sem nenhuma sutileza ou muita ambiguidade nas intenções, como foi o caso do primeiro e agora desse. Como produto, acredito que o genérico coube melhor a esta história, mesmo acreditando no potencial da virada específica citada, ela não mudaria tanto as circunstâncias defasadas do material fonte, que já ficou datado em muito tempo e tinha limitações claras e de difícil englobamento ao cenário atual, ao menos sem parecer forçado. Dona do Mal sabe onde se encaixa e já se assume como tal, e apesar de ficar preso nas próprias convenções, os poucos riscos aliados ao domínio singular da execução garantem um engajamento mais fácil, e embora não tão memorável para aqueles que gostaram do novo frescor retratado no primeiro, é inofensivo por se esconder atrás do purismo de fadas e criaturas fofinhas.

Malévola 2: Dona do Mal (Maleficent: Mistress of Evil) – EUA, 2019
Direção: Joachim Rønning
Roteiro: Linda Woolverton, Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster
Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Michelle Pfeiffer, Chiwetel Ejiofor, Ed Skrein, Harris Dickinson, Bernardo Santos, David Gyasi, Sam Riley, Juno Temple, Imelda Staunton, Jenn Murray, Judith Shekoni, Lesley Manville.
Duração: 118min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.