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Crítica | Malévola

por Iann Jeliel
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A proposta de expandir e reimaginar A Bela Adormecida é sem dúvidas bem-vinda. Até porque a animação se limitava, e por isso está tão datada, com uma visão elitista do conto, por meio da enroupagem clássica do cavaleiro que precisa salvar a donzela em “perigo” das mãos do mal encarnado. Ao colocar a narrativa em foco nesse “mal”, as possibilidades aumentam, principalmente tendo em vista toda a nova concepção de mundo criada nos arredores daquele reino. Potencial não falta, mas habilidade faltou e muito na organização de Malévola e a tentativa da modernização do clássico através do live-action.

O principal problema está no foco mais visual do que textual, o que é até justificável tendo em vista a direção de Robert Stromberg, um estreante na câmera, mas veterano na equipe técnica de designs de produção, e isso se reflete muito na história, recheada de cenários deslumbrantes cheios de vida e ao mesmo tempo sem vida alguma, por uma extrema artificialidade na forma como são introduzidas. Falta a exploração da vivacidade desse universo, até para justificar certa rivalidade na trama entre os reinos, fantasioso e humano. Nenhum dos lados é acolhido pelo texto da experiente Linda Woolverton, com a devida atenção. Quando explorados, é somente para cenas de ação em que o deslumbramento está puramente no conceito, ao invés da profundidade consequencial ideológica, colocada como fundamental a fornecer o ponto de virada modernizado da narrativa.

A artificialidade visual se reflete diretamente nos implantes dessa principal virada mais “politicamente correta” para a história. Aquela visão superficial de um príncipe se apaixonar pela princesa à primeira vista é desconstruída, o que no princípio soa como algo legal e até uma antítese da Disney clássica. Entretanto, vira um problema maior quando é sobreposta sobre a nova solução, que nega a antítese anterior, escanteando completamente os personagens masculinos da história e ainda traindo a própria proposta de ser um filme de “vilã” ao se segurar em um discurso raso de maternidade para fazer sentido. Até é coerente com toda a preparação para o terceiro ato, onde a maldição de fato acontecerá, só que sobre uma nova perspectiva – infelizmente, onde o sono eterno não tem qualquer peso dramático aparentemente irreversível. Contudo, é indulgente pela forma plenamente maniqueísta como é tratada no histórico relação traumática entre a protagonista e o seu amor não correspondido.

Fora que falta um preenchimento até o ocorrido, todo o segundo ato se resume a uma espera para esse momento na certeza de que ele será revertido, sem qualquer conflito de meio, ou implante prévio de uma nova tensão, ou desenvolvimento de personagens entre si, para fundamentar a trama na sua modernização. Então, quando entra na ação, ela além de se estabelecer rápido demais, aprece sem qualquer impacto emocional e é visualmente cansativa por já vir acumulando um deslumbre falso dos efeitos digitais usados durante o filme todo. Os pontos que se sobressaem nisso são a Aurora de Elle Fanning e a Malévola de Angelina Jolie, perfeitas em caracterização, aplicando carisma e química suficientes nas performances para garantir o mínimo de envolvimento a releitura do conto de fadas. Já os outros personagens estão entre o descartável e o apático, com destaque negativo ao trio de fadas que cuida de Aurora na infância, sendo um péssimo alívio cômico e reflexo de um filme devidamente desequilibrado em tom, se levando a sério demais em determinados momentos, e sendo bobamente infantil e inocente em outros tantos.

Nem sempre o “mais” e o novo é melhor, e tenho minhas dúvidas se essa versão bate de frente com a já fraca de 1959. Talvez, nesse sentido, Malévola tenha conseguido se modernizar com “êxito”, pois continua o dualismo superficial da animação original, trocando, apenas, os lados de lugar, em um direcionamento mais limpo para se segurar no contexto atual de debates sobre a feminilidade em sociedade. Sou totalmente a favor da virada, mas infelizmente, foi mal executado e ficou limpo até demais.

Malévola (Maleficent | EUA, 2014)
Direção: Robert Stromberg
Roteiro: Linda Woolverton (baseado no conto de Charles Perrault e na animação A Bela Adormecida)
Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham
Duração: 97 minutos

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