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Crítica | Malévola

por Guilherme Coral
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estrelas 2

Seguindo o exemplo de Wicked, temos, em Malévola, uma nova visão do conto escrito por Charles Perrault, mais especificamente da versão realizada pela Disney em 1959. A obra segue uma simples premissa: a falta de precisão do registro oral, afirmando que a história que conhecemos não ocorreu exatamente daquela maneira. Contudo, ao invés de se aprofundar no desenvolvimento de seus personagens, o longa-metragem foca na criação de um mundo fantástico, algo muito além do que vimos em A Bela Adormecida.

Era uma vez dois reinos incrivelmente diferentes – um deles, habitado por humanos e o outro pelos moors, criaturas fantasiosas, com grande conexão com a natureza. Neste universo, existia uma fada chamada Malévola, que pouco a pouco passa a atuar como protetora para sua terra que lentamente entra em conflito com a dos humanos. Os problemas do roteiro de Linda Woolverton começam a se apresentar logo nesses primeiros minutos. Um deles, o mais óbvio, está justamente no nome da protagonista, que, embora seja boa, se chama Malévola, algo que já garante um grande estranhamento por parte dos espectadores, que poderia ser resolvido com uma simples troca de nome no meio da trama.

Os deslizes, porém, continuam através do excesso de computação gráfica utilizada, priorizando cenas visualmente interessantes em detrimento de sequências que trazem uma real progressão para a história. O resultado deste exagero do CGI acaba levando a uma narrativa fragmentada, com alguns núcleos importantes para a trama cercados por minutos vazios, que buscam, de forma cada vez mais ineficaz, o deslumbramento da audiência. Do início ao fim da obra somos apresentados a criaturas simplesmente dispensáveis.

Tal fator se estende para diversos personagens, que somente estão presentes para cumprir uma clara homenagem à animação de 1959. De todos eles, somente quatro realmente cumprem seu papel dentro da narrativa, enquanto que, apenas Malévola apresenta uma progressão desde o início da projeção. Ainda assim, as mudanças da protagonista soam artificiais, em especial sua queda, que ocorre em poucos instantes. Este defeito acaba tirando grande parte da força da feiticeira, especialmente na cena de destaque do batizado, a qual não consegue passar a mínima tensão ao espectador.

São nestas semelhanças com o clássico que enxergamos com uma clareza ainda maior o vazio desta nova produção. Onde antes, através da arte, havia um claro contraste entre o bem e o mal, agora temos meras construções em computação gráfica, que não contam com qualquer significado, senão aquele de referenciar a animação original. Vemos elementos sem propósito dentro de uma trama artificial, que utiliza as cores a fim de prover, sem conseguir, um espetáculo visual, ao invés de trazer um simbolismo por trás delas.

Nos pontos que a homenagem era mais que bem vinda, como na trilha sonora, não vemos sequer uma citação à obra de Tchaikovsky. Temos apenas melodias ausentes do peso dramático desejado, que falham em construir a tensão, mesmo em cenas repletas de suspense como o adormecer de Aurora. Aliada a este fator está a fotografia de Deam Semler, que tenta, através de closes abruptos realizar um paralelo com o longa-metragem de 1959, conseguindo apenas, causar um estranhamento na audiência, através deste recurso, que não se encaixa com o restante de seu trabalho, em geral, dentro dos moldes do clássico-narrativo.

O que salva a imagem de Malévola é a montagem de Chris Lebenzon, famoso pela sua parceria com Tim Burton desde Batman – O Retorno. Através de seu encadeamento preciso dos planos conseguimos ter uma clara percepção nas cenas de ação e um rápido entendimento da trama, por mais que esta não apresente nenhum desafio a ser interpretada. Esta clareza, contudo, é prejudicada pelo 3D da obra, que, como de costume, escurece a imagem, forçando a visão do espectador em diversos planos de menor luminosidade.

Seria um grande equívoco, entretanto, elogiar Lebenzon e sequer citar o trabalho de Angelina Jolie, em especial nas cenas conjuntas com Elle Fanning. Embora não funcione como vilã, Jolie nos traz interessantes cenas de conflito interno, recuperando a força da personagem enfraquecida pelo roteiro. Sua aparente maldade é desconstruída pela atuação sincera de Fanning, que nos traz uma Aurora verdadeiramente boa, beirando à ingenuidade. As sequências de interação entre as duas são o ponto alto do filme.

Malévola é um longa-metragem que busca recontar a história da bruxa apresentada em A Bela Adormecida. O que vemos, contudo, é uma continuidade do maniqueísmo da animação original, trocando, apenas, as peças de lugar. Trata-se de uma obra vazia, que oferece muitos efeitos visuais em detrimento de uma trama coesa. Com diversos deslizes em praticamente todos os aspectos técnicos, resta ao espectador se ater à memórias da vilã em seu primor, quando grande parte de sua imponência vinha de sua história desconhecida.

Malévola (Maleficent – EUA, 2014)
Direção: Robert Stromberg
Roteiro: Linda Woolverton (baseado no conto de Charles Perrault e na animação A Bela Adormecida)
Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham.
Duração: 97 min.

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9 comentários

Sabrina Alves 20 de outubro de 2017 - 23:04

Eu, sinceramente, discordo da maior parte da sua análise crítica. No entanto, acho que têm total razão em se tratando das cenas de interação entre a Malévola e a Aurora. No geral, achei uma linda produção. Apesar de ter certas garfes, é um filme que consegue causar curiosidade e comoção no telespectador!

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Luis Mol 14 de setembro de 2014 - 02:28

eu acho que eles estão ricos e no auge da carreira. 2beijos

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Guilherme Coral 15 de setembro de 2014 - 13:18

Ricos com certeza estão!

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Alex Rodrigues 24 de julho de 2014 - 16:36

Eu acho que faltou uma cena mais marcante como por exemplo, aproveitarem a trilha sonora que ficou perdida nos créditos ao término do filme. Pouca emoção.

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Guilherme Coral 26 de julho de 2014 - 00:47

Com certeza, Alex! A última coisa que o filme faz é nos marcar. Uma experiência sem sal.

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Maria Elisa Cananéa 30 de junho de 2014 - 11:03

Tive a impressão de ter assistido um clipe musical de 97 minutos, onde a música era a narração da Aurora!

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Guilherme Coral 30 de junho de 2014 - 20:12

Ninguém merece essas narrações desnecessárias mesmo.

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Letícia 31 de maio de 2014 - 12:56

Foi decepcionante. Saí da sessão com aquela sensação de que faltou algo. Achei corrido, sem clímax e muitos personagens mal aproveitados. Quiseram montar um arco de mocinha-vilã-heroína em 97 minutos e o desenvolvimento foi totalmente apressado e vazio.

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Guilherme Coral 31 de maio de 2014 - 14:32

Não tem como não concordar, Letícia! Era sempre um ou outro foco de história contada de forma apressada cercado de dezenas de cenas sem nenhum valor para a trama.
Obrigado pelo comentário!

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