Crítica | Malícia

Em Manual de Roteiro, Syd Field, o mago das narrativas hollywoodianas, estabelece, dentre tantas regras, o ponto de virada, sacolejo que promove mudança de rumo de uma história onde as aparências enganam veementemente. O ponto de virada I deve ocorrer entre as páginas 25 e 27 do Ato I e o ponto de virada II entre as páginas 85 e 90 do Ato II. Em Hollywood, as dicas funcionaram bem durante bastante tempo.

Na tentativa de deslocar as reações dos espectadores, os realizadores de Malícia adotam constantemente as estratégias descritas anteriormente, numa sessão de 117 minutos que não chega a ser um primor, haja vista algumas imprecisões narrativas, mas ainda assim, está acima da média dos numerosos filmes sobre mulheres envoltas numa redoma de mistérios.

Na trama, um gestor/psicólogo de uma instituição de ensino vai adentrar num emaranhado nebuloso, repleto de mentiras e traições. Ele é Andy (Bill Pullman), homem que leva uma vida aparentemente tranquila com a sua esposa Tracy (Nicole Kidman), professora de artes que adora crianças, mas que infelizmente não pode engravidar. Paralelo a isso, há um serial killer, Earl Leemus, interpretado por Tobin Bell, o idealizador dos crimes da longa franquia Jogos Mortais (que saberemos apenas adiante).

Ele é acusado de uma série de crimes horripilantes envolvendo tortura com as suas vítimas, dentre elas, a personagem de Gwyneth Paltrow, numa participação relâmpago. Os roteiristas Aaron Sorkin e Scott Frank, sob a direção de Harold Becker, trazem uma terceira linha narrativa para Malícia: a chegada do médico que se acha Deus, Jed Hill (Alec Baldwin), um homem atraente e misterioso, com semblante perverso desde o primeiro momento que a câmera o capta.

Por coincidências convenientes ao roteiro, ele descobre que estudou junto com Andy na época escolar, motivo que faz o gestor convidar o médico para alugar o quarto acima da sua casa, tendo em vista se estabelecer melhor na cidade antes de investir numa moradia própria. A chegada do cirurgião competente vai mudar as coisas na pacata Westerley, em Massachussetts.

Ele possui um olhar ambíguo, bem captado pela direção de fotografia de Gordon Willis, com movimentos e tempo em cena, capazes de delinear a sua construção de personagem como uma das melhores do filme, graças ao roteiro, óbvio, mas também ao desenvolvimento da montagem de David Bretherton. Jerry Goldsmith, mais uma vez, assume a condução musical de um filme que tem uma mulher como catalisadora de tragédias e conflitos.

Certo dia, noutra suposta coincidência, Tracy passa muito mal e é levada ao hospital, sendo atendido por Jed, profissional que decide extrair o seu ovário sem autorização prévia, alegando que ela estava com problemas. Depois de muita luta para engravidar, ela perde o bebê e precisa lidar com toda a luta novamente, um exercício árduo. Revoltada com a decisão do médico e do marido, ela pede a separação, abandona o casamento e processa o hospital em 20 milhões de dólares.

Um novo problema se estabelece quando Andy encontra uma nova vítima do serial killer, sendo obrigado a fazer o teste de DNA com o esperma para sair da lista de suspeitos. Como a detetive era uma pessoa próxima, ela comunica que Andy é estéril, o que traz mais dúvidas para os últimos acontecimentos de sua vida: se ele não pode ter filhos, por que a sua esposa estava grávida? Assim, Andy sai numa odisseia de reencontro com a ex-esposa, tendo como dica procurar a sua mãe para maiores informações. Assim, mais surpresas: segundo relatos de Tracy, a sua mãe estava morta há doze anos.

O que se descobre em toda a história? Ela utilizava altas doses de Pergonal para criar cistos no ovário. Já havia dado golpes no passado e atualmente armou uma situação com Jed, o médico que havia se tornado muito próximo de Andy. Uma busca incessante por respostas se estabelece. Andy a reencontra e com algumas provas promete acabar com a sua farsa. Quando ameaçada, Tracy tenta deixar um pequeno rastro de sangue e violência pelo caminho de fuga, transformando a vida de Andy num inferno.

Não chega a ser esfuziante como Instinto Selvagem, mas tenta se conectar com a fórmula das mulheres fatais que levam os seus homens para o trágico caminho da calamidade. Se não funciona como entretenimento, ao menos serve como modelo do paradigma de Syd Field: o interessante (para alguns) e famigerado (para outros) ponto de virada. Aula básica de roteiro para iniciantes. O que acha de tentar, caro leitor?

Malícia — (Malice) Canadá/Estados Unidos, 1993.
Direção: Harold Becker
Roteiro: Aaron Sorkins, Scott Frank
Elenco:  Nicole Kidman, Alec Baldwin, Bill Pullman, Tobin Bell, Gwyneth Paltrow, David Bowie, Anne Bancroft
Duração: 117 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.