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Crítica | Mandabi

por Luiz Santiago
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Em seu segundo longa-metragem, o diretor Ousmane Sembène apresenta um tema que seria um dos focos centrais de sua filmografia a partir de então: o olhar para as sequelas da descolonização, a força dos problemas sociais que travam a convivência e o desenvolvimento de toda uma sociedade, que imita os males aprendidos com os colonos e, como acontece em toda cultura, cria os seus próprios horrores, afetado principalmente os mais fracos e os mais necessitados. Falado parcialmente em francês e principalmente em wolof, o filme traz uma abordagem cultural que não só representa um recorte honesto do povo senegalês, como também um “estilo verdadeiramente africano” de se fazer cinema, marcando um importante passo para a escola senegalesa que despontaria como uma das mais interessantes do mundo durante a década de 1970, mesmo com sua pequena produção, se comparada com a de outras nacionalidades.

Em Mandabi temos uma crônica cômica que progressivamente se torna amarga, à medida que percebemos as mazelas sociais enraizadas naquela sociedade cheia de contradições, com alguns indivíduos querendo exibir um luxo que não possuem e outros fazendo de tudo para conseguir dinheiro, até mesmo furtando, enganando ou dando golpe em amigos e conhecidos.

Ibrahim Dieng (Makhouredia Gueye) é um homem conhecido em seu bairro. Mesmo desempregado, com duas esposas e sete filhos, ele mantém uma certa esfera de “boa vida” na região, ou seja, consegue comprar arroz fiado no comércio local, veste-se de modo ostensivo para a região e gosta de comer bem, fumar e oferecer pequenas recepções aos convidados, algo que poucos naquela região podem fazer. A escassez é uma realidade compartilhada, sabida e temida por todos desde o início do filme, e o diretor faz com que a família de Dieng se afaste desse perigo logo nos primeiros minutos para, no fim, após uma via crucis onde diversos problemas são explorados, colocar essa realidade de novo em cena.

A câmera de Sembène é uma observadora cuidadosa, posicionada como uma acompanhante que teme atrapalhar ou ocupar mais espaço do que deveria. Nesse ambiente, uma relação complexa se estabelece entre Dieng e suas mulheres, onde o foco da autoridade está majoritariamente nas esposas, embora o homem tenha as suas explosões de gritos e ameaças que não dão em nada. É socialmente relevante que esse papel feminino seja abordado inclusive nos diálogos, com personagens dando conta do quanto as mulheres de Dieng “dominam a casa“, isso sem contar na cena em que o dono do pequeno comércio do bairro quase chora quando é praticamente espancado pelas esposas de Dieng.

Essa micro ordem social é a maior referência de laços que o roteiro de Mandabi nos trará, e há um bom motivo para isso. O sobrinho de Dieng está trabalhando na França (e Sembène faz um corte experimental e lírico quando reserva um tempo para mostrar o trabalho desse jovem senegalês na “capital das oportunidades”) e envia para o tio uma ordem de pagamento no valor de 250 francos, com instruções de como esse dinheiro deveria ser dividido. Dieng sabe que não pode confiar em ninguém e é por isso que seu contato com os conhecidos se torna cheio de desconfianças, e não é para menos. Organicamente, o roteiro passa de uma identificação de mazelas sociais para um aspecto do comportamento e das relações humanas toda vez que há dinheiro envolvido, sendo este, inclusive, o centro de amargura da fita.

O dinheiro, o caráter e as necessidades sociais não são tratados aqui apenas como condições conjunturais daqueles habitantes de Dacar. Há um fator identitário que permeia esses elementos, e o texto apresenta isso de duas formas, uma na retirada da identidade pessoal justamente da única pessoa que tem dinheiro (e ao mesmo tempo não tem) e outra na forma como essa falta de identidade de um moldará as máscaras identitárias e temporárias de outros. O tratamento para o tema da identidade em Mandabi é muito inteligente e lida o tempo inteiro com as aparências e os percalços daquele que possui algo frente àqueles que acham que podem lucrar com esse item alheio. A paupérrima situação social, o miasma de corrupção em toda parte e os pequenos dramas individuais vistos por um olhar que dói no espectador completam o filme. E então vemos os herdeiros de séculos de dominação e opressão política, social e cultural perpetuam, à sua maneira, as mesmas infâmias contra os seus irmãos.

Mandabi (França, Senegal, 1968)
Direção: Ousmane Sembène
Roteiro: Ousmane Sembène
Elenco: Makhouredia Gueye, Ynousse N’Diaye, Isseu Niang, Serigne N’Diayes, Serigne Sow, Mustapha Ture, Farba Sarr, Moudoun Faye, Mouss Diouf, Christoph Colomb, Thérèse Bas, Mamadou Cisoko
Duração: 90 min.

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