Crítica | Mandrake e o Barão Kord: A Ilha dos Mortos-Vivos!

estrelas 3

Ah, a Era de Ouro dos Quadrinhos! Como é interessante ler aventuras desse período da nona arte, especialmente de um personagem que foi extremamente importante para construção do imaginário dos leitores mas que, aos poucos, perdeu espaço para os heróis super-poderosos e seus sidekicks.

Mandrake, o Mágico, foi criado por Lee FalkPhil Davis em 1934. Suas histórias foram publicadas em tiras diárias — e depois dominicais — em diferentes jornais e revistas ao longo dos anos. É importante termos isto em mente quando analisamos a estrutura das tramas do personagem, uma vez que elas não foram concebidas como um corpo único mas construídas passo a passo no decorrer de várias semanas. A aventura que analisamos aqui, Barão Kord: A Ilha dos mortos-vivos!, foi publicada entre setembro de 1942 e abril de 1943 — 180 tiras ao longo de 30 semanas — e conta a estranha jornada de Mandrake, Princesa Narda e Lothar contra o macabro Barão do título.

Certa noite, a amada de Mandrake, Princesa Narda, desperta a atenção do Barão Kord em um jantar. O Barão se apaixona pela moça à primeira vista e passa a persegui-la de maneira medonha, mesmo com as constantes interferências de Mandrake, que se derrete de ciúmes e ódio. O golpe definitivo do Barão para conquistar Narda vem com o convite para uma festa em sua ilha particular, Kord Key, que segundo o roteiro, fica nas Índias Ocidentais (é uma história dos anos 40, vamos dar um desconto…).

Lee Falk adota um tom de emergência desde o início, permeando um ponto e outro com boa dose de humor e colocando em cena as mágicas de Mandrake. O “único” problema é que há um desnecessário exagero na paixão louca de Kord por Narda e nos acontecimentos em Kord Key. É claro que muitos desses desencontros e problemas de construção derivam da já dita publicação parcelada da história, ao longo de diversas semanas. O problema é que fica difícil engolir as contradições do texto, como a explicação para o que são os kordies (os mortos-vivos que, a rigor, não são mortos-vivos) e a intenção do Barão em dominar o mundo com um tal “pó de fazer kordie” cujo efeito é temporário. Pois é.

Mas a despeito desses impasses, a aventura é bem divertida e possui vários estágios dramáticos. Do início para o meio, temos uma figuração de mistério, horror e humor em cena. Se descontarmos as trapalhadas do Barão, a coisa até que funciona bem, tanto no texto quando na arte simples mas funcional de Phil Davis. Depois que o cenário muda para a ilha de Kord Key, a história vira uma luta de pessoas que querem fugir do cativeiro. Um lado de ação e um mistério quase social se destacam aí. É também nesse cenário que a personalidade do Barão Kord fica cada vez mais parecida com a de um fascista (ou nazista, vide que a publicação se deu entre 42 e 43, em plena Segunda Guerra Mundial).

Ao final, o tom cômico volta à cena. Os quadros com a tentativa de casamento do Barão com Narda são hilários e Mandrake mexendo com a percepção dos criminosos que guardavam a ilha para o Barão também não passa batido. Mesmo não sendo uma trama bem fechadinha em termos de enredo, Mandrake e o Barão Kord: A Ilha dos mortos-vivos! certamente garante uma boa leitura e pode ser uma boa porta de entrada para quem nunca leu nada do personagem.

Mandrake: Baron Kord (EUA)
Publicação original:
 14 de setembro de 1942 a 10 de abril de 1943
Lançamentos no Brasil: Gibi n°606 e 611 (O Globo, 1943); Mandrake n°115 (RGE, 1966); Mandrake, O Mágico n°10 (Editora Saber, 1971); Mandrake n°2 (Pixel Media, julho de 2014)
Roteiro: Lee Falk
Arte: Phil Davis
128 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.