Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Mansão da Morte (Banho de Sangue)

Crítica | Mansão da Morte (Banho de Sangue)

por Luiz Santiago
408 views (a partir de agosto de 2020)

Algumas boas anedotas rondam a produção de Mansão da Morte (mais conhecido como Banho de Sangue), filme de Mario Bava que compõe uma trilogia não oficial sobre redefinições do cineasta para o gênero cinematográfico que iniciou em 1963, com A Garota Que Sabia Demais. Em fevereiro de 1970, os cinemas italianos exibiram O Pássaro das Plumas de Cristal, um espetáculo cinematográfico que marcou a maturidade do giallo e que foi a base para o período mais prolífico desse tipo de produção na Itália, indo justamente de 1970 até o meio da mesma década. Um ano depois, Dario Argento viria com mais um popular filme nesse estilo, O Gato de Nove Caudas, e foi dessa produção que o roteirista Dardano Sacchetti saiu para escrever o primeiro tratamento do que viria a ser Banho de Sangue, inicialmente intitulado Isso Vai Ensiná-los a Serem Maus (Cosi Imparano a Fare i Cattivi).

De alguma forma questionado sobre a questão da violência em seus filmes versus a matança que Argento apresentava nos dele, Bava fechou a sua própria reformulação do giallo com o mais violento longa que assinara até então, uma obra que flertava com elementos da dupla O Alerta Vermelho da Loucura e, principalmente, Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto. Nessa fase do cinema baviano, o espectador encontra a morte como o evento verdadeiramente criativo da fita e os personagens apenas como possíveis vítimas de uma carnificina. Em Cinco Bonecas isso fica muito claro, porque foi ali que Bava passou a tratar a todos como pedaços banais de carne que logo mais seriam transpassados por algo mortal. E foi em Banho de Sangue que ele coroou essa fase.

SPOILERS!

Mesmo quem nunca assistiu ao filme é provável que conheça a já antiga homenagem e exposição de referências que Sexta-Feira 13 (1980) e Sexta-Feira 13, Parte 2 (com a “morte do arpão” recriada igualzinha à que temos aqui) fazem ao giallo de Bava, e este é um dos pontos de destaque dessa obra ao longo da História do cinema: trata-se de um filme que fez escola, que influenciou muitos outros artistas e que serviu de base para muitos slashers americanos, assim como o giallo em geral. O texto final, a cargo de Bava, Giuseppe Zaccariello (de Os Profissionais do Sadismo) e Filippo Ottoni começa a matança subvertendo o que se podia esperar. Após mostrar as luvas pretas do assassino, a câmera faz um movimento revelador, mostrando-nos o rosto do criminoso, que em poucos minutos tornar-se-ia a segunda vítima.

Sem poupar personagens e não necessariamente importar-se com grandes detalhes para todas as mortes, o diretor faz o espectador temer o lugar, a baía sangrenta que desde a sequência de abertura nos deu uma indicação simbólica do que poderia acontecer ali, quando uma mosca que a câmera acompanha simplesmente cai na água e morre. Este será o tratamento dado aos homens e mulheres nessa história. Eles são a fauna desimportante desse espaço geográfico, desse nicho de ganância e frieza que termina em crime e castigo. A “ecologia do crime” que o título original nos indica, traz dessa vida na baía a sua razão de ser, e os seus habitantes são tão estranhos que progressivamente passam também ao posto de suspeitos.

A criatividade das mortes, as muitas caçadas a homens e mulheres que fogem ao destino violento e o fato de termos diversos assassinos em cena tornam Banho de Sangue um filme muito instigante de se ver. Infelizmente a história passa de absurdamente simples para desnecessariamente confusa, e deve isso à montagem, que brinca com alguns flashbacks já na reta final da película, tentando dar suporte às motivações e mostrando um pouco o preparo dos assassinatos. Esse momento de revelações tem a sua importância para a obra, mas faz mais mal do que bem à narrativa. Quanto ao final, há um número enorme de pessoas que o odeiam, acham-no demasiadamente simples, absurdo e completamente jogado, opiniões que entendo, mas com as quais não concordo. Nesse caso, Bava dá vasão à sua cômica ironia em relação à punição e também ao crime, fazendo com que todo mundo no decorrer da fita tenha algum motivo para morrer ou alguma motivação para matar… mesmo que seja uma motivação puramente lúdica.

Mansão da Morte / Banho de Sangue (Ecologia del Delitto) — Itália, 1971
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni
Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Anna Maria Rosati, Chris Avram, Leopoldo Trieste, Laura Betti, Brigitte Skay, Isa Miranda, Paola Montenero, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni, Giovanni Nuvoletti, Renato Cestiè, Nicoletta Elmi
Duração: 84 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais