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Crítica | Manto & Adaga – 1X03: Stained Glass

por Giba Hoffmann
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– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Com Stained Glass, terceiro episódio da estreante Manto & Adaga, vai ficando mais clara para o espectador a linha que os produtores irão adotar no desenvolvimento da dupla titular ao longo da temporada. Lançando mão de um foco alternante entre as vidas e dilemas pessoais de Tyrone (Aubrey Joseph) e Tandy (Olivia Holt), a trama continua o trabalho iniciado nos episódios iniciais, nos familiarizando com as individualidades de nossos protagonistas antes de se tornarem a dupla inseparável dos quadrinhos (ou, melhor dizendo, alguma versão dela).

Aproveitando bem o gancho deixado pelo cliffhanger de Suicide Sprints, iniciamos o episódio com o terceiro encontro da dupla. Tão inusitadamente absurdo quanto seu encontro original na tragédia que aparentemente ligou os seus destinos para sempre, a concreção das angústias de Tandy e Tyrone se chocam: ela fugindo sem olhar para trás, ele pronto para atirar e ter sua vingança sem se importar com as consequências. Trombando-se de forma inexplicável na estrada, o encontro faz com que ambos acabem dando um passo atrás em suas decisões e reavaliando seus demônios pessoais, cada um à sua maneira. Se o rápido desfecho da cena inicial tem ares levemente anticlimáticos — ao menos para quem tinha alguma expectativa de que ver os dois interagindo por mais tempo do que alguns poucos minutos —, é também muito interessante a forma como o restante do episódio inteiro desenvolve o tema desse encontro, fechando o círculo ao final com Tyrone indo procurar Tandy em seu esconderijo.

É notável o quanto a produção, em tão pouco tempo de tela, tenha dado até aqui uma verdadeira aula sobre a representação de protagonistas adolescentes (viu, Fugitivos?) e da exploração de elementos dramáticos (viu, The Flash?) na adaptação de quadrinhos super-heroicos para as telinhas. A fórmula de termos um epísódio inteiro destinado à exploração dos medos e esperanças de nossos protagonistas através de paisagens oníricas pode causar calafrios a um espectador do Velocista Escarlate — ou mesmo de qualquer série dessas onde a ideia surgiria mais como possibilidade de preencher o longo tempo de tela da temporada do que qualquer outra coisa. Aqui, ela é posta para funcionar de forma tão eficiente que ao final nos encontramos mais ansiosos para o próximo capítulo do que ao término da (ótima) exibição dupla da semana passada. Isso sinaliza que os produtores têm em mãos um delineamento cheio de potencial para os personagens, o qual cabe vermos se conseguirá se manter alinhado ao longo dos dez episódios que compõem a primeira temporada.

O tema da luz e escuridão continua a ser explorado de forma inventiva, fugindo de maniqueísmos e possíveis clichês e mostrando de que maneira tramas relativamente simples podem construir personagens de forma eficiente, especialmente em conjunto com boa atuação (que continua afiada da parte de ambos Joseph e Holt). Nas sequências “terrenas”, o foco na perspectiva de Tyrone e sua relação com Evita (Noëlle Renée Bercy) traz ótimas batidas de personagem, abordando o tema religioso de forma bem combinada com o espírito adolescente: tão questionadores quanto inseguros, a dupla convence com bons diálogos. Já do lado de Tandy, temos uma nova visita à casa de sua mãe Melissa (Andrea Roth) e o encontro com a oficial O’Reilly (Emma Lahana), que acabam novamente confirmando para ela seu senso de total insegurança frente à sua complicada situação atual. Apesar de ter muito pelo que pagar, é paupável o senso de que o mundo não está disposto a oferecer a ela o que lhe é de direito nessa quitação de contas.

A direção continua acertada e complementa bem o recorrente uso narrativo das músicas com visuais oníricos bem realizados, que têm sucesso em explorar de forma criativa e envolvente a conexão única entre os dois protagonistas. A construção retoma um pouco de um ótimo momento do primeiro episódio, que é o angustiante sonho de Adina Johnson (Gloria Reuben) perdendo suas crianças no supermercado. Sem recorrer a simbologias muito complexas ou construções muito abstratas, as sequências funcionam bem armando e repassando os dramas pessoais de Tandy e Tyrone, através dos olhos do outro componente da dupla.

Por meio de um conjunto bem coeso de “esquetes” de sonho, visitamos as diferentes manifestações dos dramas pessoais de cada um, explorando a fundo o encontro que abriu o episódio: a garota que foge do passado, o garoto que está disposto a abrir mão do futuro. É curioso o quanto o episódio só faz repassar alguns dos temas que já visitamos na semana passada, mas consegue sintetizá-los tão bem e ao mesmo tempo construir a relação interna da dupla ao apresentá-los sob a percepção totalmente desinformada do outro. No geral, a opção traz bons resultados e parece ter sido feita no melhor momento dentro do arco da temporada.

Simultânea à exploração do vínculo profundo entre os futuros Manto e Adaga, a maneira bem dosada com que a produção vem construindo os dramas pessoais centrais de cada um dos núcleos separadamente resulta em uma boa construção de mundo para a série. Concretizar bem as particularidades de cada uma das metades do conjunto parece ser um bom caminho para estabelecer um elenco de apoio que sustente boas tramas, além de ajudar a criar expectativa e a emprestar sentido para as transformações pessoais que observaremos quando os protagonistas finalmente passarem a agir em dupla. Ademais, a abordagem de “mundos que se colidem” já trouxe algumas ramificações interessantes de enredo, com ambos os núcleos narrativos se sustentando pelas próprias pernas, e ajuda a manter a dinâmica interna do episódio sempre fresca, já que a alternância frequente não deixa que nenhum momento se alonge mais do que deveria.

Stained Glass continua bem a narrativa de Manto & Adaga, trazendo mais da abordagem inspirada apresentada nos dois episódios de estreia. Favorecendo os personagens com um roteiro ao mesmo tempo pé-no-chão e inventivo, que se traduz bem por meio de uma direção bem alinhada que prioriza a ambientação e a representação visual de temas sobre a ação e o drama propriamente ditos, a série continua a fazer dessa origem estendida da dupla uma experiência imersiva, construindo um mundo com potencial para contar boas histórias para além do momento em que Tyrone e Tandy se tornarem efetivamente Manto e Adaga.

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X03: Stained Glass — EUA, 14 de junho de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Peter Hoar
Roteiro: Ariella Blejer, Dawn Kamoche
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, Andrea Roth, J. D. Evermore, James Saito, Noëlle Renée Bercy, Jim Klock, Miles Mussenden, Carl Lundstedt, Emma Lahana, Jaime Zevallos
Duração: 49 min.

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