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Crítica | Manto & Adaga – 1X05: Princeton Offense

por Giba Hoffmann
63 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de Manto & Adaga, aqui.

Após quatro episódios entregando uma produção que chamou a atenção pela exploração segura e coesa de um formato e indentidade próprios, Manto & Adaga muda a marcha do desenvolvimento de personagem para o avanço do enredo. Escolha acertada que se dá no momento em que a produção poderia se enrolar na cama de gato de seus próprios dramas, a iniciativa traz, no geral, bons resultados, ainda que no fim do dia possa não ter o mesmo impacto que as explorações aprofundadas de temas e personagens dos capítulos anteriores trouxeram. Princeton Offense varia um pouco a tonalidade e nos apresenta ângulos até então desconhecidos no mundo da série, indicando o potencial que o setting e o forte elenco têm para se contar histórias interessantes.

Se os primeiros episódios flertaram com o drama super-heróico focado em personagens, alcançando uma tonalidade e estrutura que por vários momentos fez lembrar Heroes e Fugitivos (ambos em seus melhores momentos, é importante frisar!), a entrada desta semana evoca, talvez inusitadamente, ares de Buffy, a Caça-Vampiros. Vemos aqui a sobriedade das tramas do complô da Roxxon e das investigações de O’Reilly (Emma Lahana) misturadas com o ambiente e dilemas típicos da high-school, com um bom toque do sobrenatural para fechar o pacote, Princeton Offense acaba apresentando um pouco da abordagem de temáticas pesadas sob roupagem leve e descontraída vista nas aventuras da turma de Sunnydale.

A sensação de estar assistindo a um episódio do épico televisivo de Joss Whedon é bem simbolizada na cena em que Tandy (Olivia Holt) surge inexplicavelmente no colégio de Tyrone (Aubrey Joseph), querendo mostrar para ele seu recém-adquirido controle sobre sua faca de luz, para o desespero do jovem. É muito interessante ver nossos protagonistas em momentos descontraídos como esse, especialmente após uma sequência inicial de episódios que concentrou todo enfoque sobre seus demônios pessoais. Principalmente no caso de Tandy, é legal o quanto o roteiro nos pega de surpresa ao nos fazer lembrar que se trata, afinal de contas, de uma jovem adolescente.

Essa leveza perpassa as subtramas de nossos dois protagonistas, que passam por situações mais cômicas que contrastam com a pesada discussão em que encerraram seus recentes encontros na igreja-esconderijo de Tandy. De maneira geral, o enredo toma boas liberdades em relação a nossa suspensão de descrença se comparado ao que foi visto até então, como na facilidade com que Tandy se infiltra na bizarra agência de acompanhantes (OK, ela é uma trambiqueira, mas como ela conseguiu falsear sua identidade para um negócio escuso desses com tanta facilidade?) ou então na cena em que ela joga Tyrone do segundo andar direto para uma fonte rasa com um estardalhaço tremendo, sem que haja nenhuma consequência sequer no sentido de entregar seu disfarce. O uso de conveniências também continua a dar as caras por vezes, mas pode ser perdoado quando os personagens são bem escritos e as situações “forçadas” acabam por armar desenvolvimentos interessantes, como felizmente é o caso aqui. Afinal de contas, é assim que ocorre nos quadrinhos — a mesma dúzia de pessoas se esbarrando o tempo todo.

Senti falta de uma exploração maior dos desenvolvimentos de alguns dos eventos do episódio anterior. Embora tenhamos visto Tandy tomando a decisão em não contar nada para sua mãe, o assassinato de Greg parece ter sido digerido um tantinho rápido demais, ainda mais se levando em conta o ritmo com que a trama vinha sendo trabalhada até então. Também é estranho o quanto a garota parece ter esquecido completamente de Liam (Carl Lundstedt) e da subtrama do potencialmente vingativo Rick. Algo paralelo se passa, em menor escala, no círculo de Tyrone, que volta a jogar para o time de basquete mesmo após ter sido espancado e sacaneado pelos colegas sem que isso se faça presente novamente de forma mais explorada. Claro que o roteiro deixa explicado nas entrelinhas os encaminhamentos desses dois subplots (o segundo melhor que o primeiro), mas não deixa de causar algum estranhamento já que o foco introspectivo nos protagonistas foi o que marcou a narrativa até agora.

Na frente de Tyrone, o misto de emoções e significados que se formam para o jovem em torno da partida de basquete é bem explorado tanto pelo roteiro quanto pela direção, e a evolução do jovem em lidar com sua fúria interior parece estar indo melhor do que a de Tandy em lidar com seus medos.  O encontro com Duane (Dalon J. Holland) traz um novo elemento para a trama com a revelação ao final de uma ligação entre ele e o oficial corrupto que assasinou Billy. Nessa frente, temos também mais tempo de tela para a oficial O’Reilly, que parece disposta a se utilizar de métodos arriscados para combater a corrupção na corporação. Será essa sua única motivação? A forma como seus motivos são deixados ambíguos sugere que ainda temos muito a descobrir sobre a personagem…

É notável o quanto a produção continua a inserir de maneira orgânica a descoberta dos poderes por parte da dupla, utilizando-se novamente dos visuais oníricos que tem dado as caras nas sequências de uso dos poderes sensitivos da dupla. Do lado de Tandy, temos praticamente uma telepata, já que ela consegue retirar das “esperanças” do executivo da Roxxon exatamente a informação que ela precisa no momento (e o cara não fala nada sobre ela meter a mão na nuca dele!). O misterioso Peter Scarborough (Wayne Pére) entra para o hall das flores-que-não-se-cheiram da série, e permanecemos curiosos com as próximas investidas da garota.

Princeton Offense caminha no sentido de borrar as linhas que separam os dois núcleos narrativos, relaxando um pouco a pressão dramática sobre a dupla de protagonistas enquanto faz andar toda a trama principal paralela. A produção continua a introduzir novos elementos no tabuleiro, fato que não apenas aumenta a imprevisibilidade dos desfechos da trama mas também mantém a narrativa sempre fresca, mantendo o espectador com a curiosidade aguçada. Mesmo que não conte com um núcleo temático tão forte quanto algumas das entradas anteriores, o episódio mostra que a série tem mais truques na manga do que o que já foi mostrado nos capítulos iniciais, conseguindo nos manter interessados pelos próximos desenvolvimentos.

Manto & Adaga (Cloak & Dagger) – 1X05: Princeton Offense — EUA, 28 de junho de 2018
Criador: Joe Pokaski
Direção: Ry Russo-Young
Roteiro: Niceole R. Levy, Joe Pokaski
Elenco: Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, J. D. Evermore, Miles Mussenden, Carl Lundstedt, Emma Lahana, Ally Maki, Noëlle Renée Bercy, Wayne Pére, Dalon J. Holland
Duração: 49 min.

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7 comentários

Helder Lucas 7 de setembro de 2018 - 15:12

amei como eles, ainda que de forma bem sutil (pra não dizer “pobre”) se inserem no restante do UCM nas telinhas ao mencionar o Harlem. seria ótimo se víssemos O’Reilly nem que fosse numa ponta quase imperceptível em Luke Cage…

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Kate Bishop 7 de julho de 2018 - 11:47

Esse episódio me tombou um pouquinho – tava tudo tão emo gótico sofredor e daí o choque: eles são adolescentes… -, mas não ficou ruim.

Não sei se é só minha ansiedade de ver os dois usando os poderes juntos ou se é a série que realmente tá enrolando pra que isso aconteça, mas… tá na hora, né?

xx

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G. Hoffmann 13 de julho de 2018 - 02:37

Foi um choque pra mim também, @agentcartter:disqus ! Hahahah por sorte não ficou ruim, e eu como disse no texto acabei curtindo bastante. Achei legal principalmente por ver que a série tem alcance, e pode esticar os músculos pra além daquilo que fez tão bem nos episódios iniciais – o que a longo prazo é ótimo!

Pois é, acho que “Manto E Adaga” pra valer vai acabar ficando para o finale, como é de praxe nessas adaptações televisivas. Até lá, temos que nos contentar com “Manto OU Adaga” mesmo, hahaha…Pelo menos, ao contrário do Fugitivos, a série tem conseguido ser mais do que um prelúdio à junção da dupla, e funciona bem dessa maneira. Digo, eu consigo imaginar um quadrinho dos personagens seguindo exatamente essa estrutura da série, enquanto que Fugitivos tomou uma tangente totalmente diferente do conceito central da série. Mas é claro, tô na maior expectativa de todas por ver como essa união vai ser mostrada!

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Rômulo Fernandez 2 de julho de 2018 - 04:49

Ótima critica,sobre a parte em que diz sobre as pessoas não perceberem que Tandy as tocou,pode reparar que toda vez que ela toca em alguém,esta pessoa fica meio fora de ar,tanto que quando tocou na mãe a mesma disse que ficou tonta logo depois..

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G. Hoffmann 5 de julho de 2018 - 02:48

Valeu, @rmulofernandez:disqus ! 😀 Você tem razão, não tinha atentado pra esse detalhe!

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Isac Marcos 1 de julho de 2018 - 19:42

É um seriado que tem me surpreendido demais, e de forma positiva.
Gostei muito de como foi trabalhado esse risco da O’Reilly para avançar nas investigações, pois acreditei que seria mais uma “detetive padrão” fazendo o correto e inquieta com o plot geral do seriado; e achei corajosa a série abordar (ainda que de maneira rápida) tanto o tema de polícias e o uso de drogas, como tbm os riscos que muitos deles se colocam para levar adiante uma investigação. Espero que tragam mais dessas nuances. Torcendo para que venhamos a descobrir mais sobre ela.

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G. Hoffmann 5 de julho de 2018 - 02:56

Com certeza, @isac_marcos:disqus , a detetive pra mim tem sido uma das personagens que mais desperta curiosidade, em um elenco cheio de personagens interessantes!

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