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Crítica | Máquina Mortífera

por Davi Lima
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Máquina Mortífera

Na década de 80, os homens não são durões, são sensíveis. – Sargento McCaskey

Dentro de uma visão pessimista dos anos 80, da época de lançamento, Máquina Mortífera contextualiza-se por uma visão de homens fragilizados que choram sozinhos em casa, de filhas no mundo dos filmes pornôs e efeitos desgraçados da Guerra do Vietnã nos EUA, como o mercado da heroína. É nesse aporte de apresentação de Los Angeles para o filme, com uma trama policial que mais se importa com os quadros de família do que com um grande vilão bem interpretado e concreto em personagem, que Máquina Mortífera, com a direção de Richard Donner (Superman: O Filme, Os Goonies) e roteiro de Shane Black (Homem de Ferro 3, Dois Caras Legais, O Predador), torna-se muito mais um filme natalino de superação de dramas masculinos intensos do que um buddy cop essencialmente policial.

Mesmo que tipicamente o passeio da fotografia, nas primeiras cenas de Máquina Mortífera, mostra Los Angeles até parar no caso principal que motiva a investigação policial, o estilo dos cop films hollywoodianos vai se tornando muito mais a revelação dessa boa execução da direção de Donner para construir um filme de fases heterogêneas que formam homens de família, e a primeira fase sem dúvida é a introdução dramática. O coprotagonista Roger Murtaugh (Danny Glover) no seu conflito de meia-idade é apresentado diante do espelho numa banheira, em que toda a sua jornada vai o fragilizando diante da modernidade, seja com sua filha crescendo, a atuação de Danny Glover sempre cansado quando se posiciona diante da câmera, ou como parece desconfiado de tudo como um pai superprotetor da boa moral e uma policial ausente de perigos na profissão. Enquanto, de praxe, o coprotagonista que Roger chama de Máquina Mortífera, Martin Diggs (Mel Gibson), é o reverso, sem matrimônio, morando num trailer com um cachorro, sendo apresentado nu, de costas, como progresso dramático após o primeiro plano mostrar a cara do ator Mel Gibson com um olhar enlouquecido, vibrante e melancólico. 

Se essa primeira fase soa comum, como um bom filme apresentaria seus personagens, Donner é mais enfático na diferenciação de como os dois homens suportam os anos 80, dando close-ups em fotos de família para delimitar a problemática principal dentro do caso que Roger pega como policial, enquanto Martin em seu trauma social com a própria cena de ação que empolga num filme policial, como se o personagem sempre tivesse pronto para morrer nas investigações de tráfico de drogas. Ambos executam o trabalho policial de maneira distinta, e se isso num encontro mais humorado de antíteses torna o buddy cop engatado, na realidade Donner parece buscar em seu filme uma montagem mais objetiva para essas interações entretidas, dando ênfase em explosões iniciais dos atores, acachapando no overaction fundido de Danny Glover e Mel Gibson o porquê da dupla no final das contas se entender. Não é uma construção de uma amizade como objetivo, mas do companheirismo complementar para uma masculinidade em crise. Um ficando velho e o outro mais suicida, tanto os dramas humanos-temporais como os específicos em como o roteirista Shane Black capta o final dos anos 80. Nesse sentido, a questão do filme policial é uma interface não exatamente para que haja um enfrentamento direto com os problemas sociais, como um filme reflexivo e intimista sobre causas sociais, mas para que os agentes sociais da segurança sejam os guias de transformações dentro de um carro de polícia, quando Martin começa a dirigi-lo após Roger confiar nele.

Essa relação de confiança é trabalhada na capacidade de Richard Donner como bom diretor aumentar o escopo do filme, aumentar as dimensões de um filme policial com explosões de casas, carros destruindo salas, perseguições urbanas e até helicóptero no deserto, sem nunca perder o ritmo do objetivo do filme de fazer seus protagonistas se superarem dentro de suas dimensões mais humanas e internas. O diretor de primeira consegue fazer o público imergir na introdução dos personagens por meio de seus planos longos, assim como permite que na terceira fase do filme o público se engaje na investigação de um assassinato, dinamizando entre uma edição precisa na progressão narrativa, porém conservando cenas longas sem corte, além de forte unidade estilística espacial que fundamenta como cada protagonista está inteirado no drama investigativo. Pois o filme informando que Roger conhece a família da jovem que fazia filmes pornôs, amigo do pai dela, enquanto Martin é o policial mais experiente e protetor de Roger mais velho, uma conversa desse tal pai se torna a reviravolta fragilizadora do longa-metragem por esse cuidado com o tratamento da fotografia narrativa de Donner. A cada morte no filme, as posições dos personagens mudam na ação, se não espacialmente de maneira explícita, de forma dramática por causa do registro visual. Por isso uma cena no deserto, grandiloquente em como há um plano aberto, com uma câmera pegando a cena de cima no chamado plongée, em sequência, ainda mostra Martin distante da ação, mas amplamente determinante para a ação dramática, enquanto Roger se coloca diante do vilão, empoeirado, extremamente fragilizado na frente do seu carro.

São nessas imagens e em curto espaço de tempo na montagem que apesar dos diálogos escritos de Shane Black serem fundamentais para harmonizar os dois protagonistas numa relação em desenvolvimento, o ato de confiança de Roger de entregar a direção para Martin e Roger partir para frente do carro do vilão enquanto Martin perseguia outro pelas ruas são cenas tradicionais de um filme policial, no entanto têm um efeito dramático pela direção de Donner nunca deixar seu filme recheado de fotos de família, conversas familiares no natal e diálogos com crianças sentados num carro de bombeiros perder essa essência que transforma a masculinidade nos anos 80. Enquanto Roger toma mais coragem por ver sua filha em perigo, Martin vive ainda mais quanto mais tem a chance de abrir o seu peito para a morte. E nessas fases de superação Donner utiliza a ação como expurgação de dores, não para tornar o filme mais violento, e sim mais pessoal para os personagens a cada cena. Por isso o vilão vive mais nas sombras de atos vilanescos do que de fato tem uma cara atuante, porque o contexto oitentista, temporal, é a verdadeira opressão, em que o vilão surge por negócios inacabados numa guerra antiga, a do Vietnã. Dessa forma, a luta final não se baseia em balas ou cenas de suspenses conquistadas no último minuto, e sim num ringue de luta corpo a corpo, uma cena superdramática na chuva, cercado pela polícia num jardim de uma casa em pleno natal.  

Finalmente, a obra se submete, suspira na superação masculina no natal com a família dentro da estrutura de cop films. Como um bom diretor que é, Richard Donner trabalha as proporções dramáticas da imagem, tramas familiares e melosidades dentro do gênero da ação urbana convencional, conseguindo unir todas essas menções numa ideia própria que mais se aproxima de um idealismo conservador a partir de uma ilustração anárquica de antíteses tonais, possíveis dentro do ritmo cinematográfico de seu filme, do que num comentário social direto que Shane Black parece enxergar no fim da década de 80 em Los Angeles. Os policiais em tempos diferentes se fragilizam e choram encorajando um ao outro sem virar uma conversa psicológica, mas um filme de ação transformador.

Máquina Mortífera (Lethal Weapon) — EUA – 1987
Direção: Richard Donner
Roteiro: Shane Black
Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Tom Atkins, Mitchell Ryan, Tracie Wolfe, Darlene Love,  Jackie Swanson,  Damon Hines, Ebonie Smith
Duração: 109 minutos

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