Crítica | Máquinas Mortais

“Nós somos Londres.”

Máquina Mortais surgiu no sonar cinematográfico carregando o nome de Peter Jackson em seus materiais promocionais. Mas Christian Rivers, especialista em efeitos visuais que foi parceiro de Jackson em projetos do mesmíssimo ser que eternizou Senhor dos Anéis nos cinemas, é o verdadeiro comandante desse navio. Quer dizer, como chamamos essas cidades motorizadas? O universo é pós-apocalíptico, milhares de anos no futuro ao nosso, e Londres quer aparentemente conquistar o mundo, consumindo assentamentos menores. Como se isso importasse, porque o escopo maior dessa criação mitológica, também acerca de grupos “Anti-Tração”, é subjugado por uma narrativa que embasa-se sobre os dramas pessoais dos seus tantos personagens. O clímax e o macguffin, que conversa apenas com essa pontuação mais coletiva, são desimportantes a nós.

O que Rivers encaminha narrativamente, em contrapartida, é apenas sentimentalismo mal-escrito mesmo. Por exemplo, a protagonista Hester Shaw (Hera Hilmar) quer vingança contra o assassino de sua mãe, justamente um dos homens mais importantes de Londres, Thaddeus Valentine (Hugo Weaving). A premissa é até interessante, pois está amarrada com a presença de um outro personagem, relevantíssimo para a criação de Shaw quando a garota era uma mera criança. Contudo, ao invés de construir emocionalmente esse segundo relacionamento, essencial a uma das resoluções que acontecem na metade do longa-metragem, Christian Rivers opta por explorar essa veia crucial a base de péssimos flashbacks e um manipulativo segmento cheio de lembranças passadas, muito desonesto com o que realmente criou-se no enredo. Noção de drama não existe.

E demais conexões entre o passado de Valentine e Shaw também são apressadas, encaixotadas entre uma sequência de ação e outra. Ao mesmo tempo, os anseios da personagem não estão amarrados com a encruzilhada rebelde, antagonista às vontades londrinas, e nunca estarão por que, antes de qualquer outra coisa, o que Shaw quer? Esse é um vilão tão raso que parece ofensivo apontar que Weaving surpreendentemente conseguiu extrair, da visão do roteiro, um personagem com carisma. O choque entre a versão amistosa de Valentine para a sua versão maligna, mais nada, é uma razão para a presença de Thaddeus consolidar-se. Custava Máquinas Mortais estabelecer um maniqueísmo com intenção de ser maniqueísta – um clássico pautado nos embates do bem contra o mal? Muito superior a má execução dessa “profundidade” dramatúrgica.

Ainda mais por conta de que inúmeros valores desse universo suposto moram na exposição de temáticas maiores aos arcos pessoais e insignificantes dos personagens. No passado, a Guerra dos Sessenta Minutos, em que a tecnologia destruiu o mundo, fora uma consequência da estupidez humana. Por que resgatar a mesma tecnologia responsável pela morte de bilhões de pessoas? Mas um material original existe e deve ser respeitado, ou seja, resposta negativa para esse questionamento. Do contrário, o roteiro, que possui até a assinatura de Peter Jackson, precisa se sustentar em questões que cansam o espectador pelo valor expositivo e melodramático com que se apresentam em cena. Originam-se duas horas extensas com vários momentos climáticos, porém, bastante estafantes por não possuírem coerência nem para o caos instaurar-se.

É o caso do coadjuvante com aura de protagonista Tom (Robert Sheehan), uma espécie de Newt Scamander com Luke Skywalker, antes de Mark Hammil aprender a atuar. O que não significa que o artista é ruim, apenas que o seu personagem é o cúmulo do entediante. O garoto é ainda historiador, coisa que a obra consegue explorar pontualmente para fornecer carga à mitologia, mas, para piorar, responsável por, em razão de sua existência, margear uma péssima cena com referência a Meu Malvado Favorito. Como Máquinas Mortais quer dar substância ao personagem? Tornando-o piloto, um sonho esquecido por Tom após perder os seus pais. Esse deve ser um dos pretextos mais boçais para orfandade no cinema, e o mais engraçado é que o texto repete tanto esse ponto que já conseguira naturalizar o voo quando o jovem pega no volante pela primeira vez.

Se Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis e Harry Potter são exemplos de narrativas em que a jornada do herói está dramaticamente mesclada com a premissa maior, Máquinas Mortais é o caso ideal para uma trajetória de acasos ordinários que urge alguma coesão inexistente, contudo, se interessa, na verdade, unicamente pelo relacionamento amoroso entre os personagens centrais. “Você o ama?” é a pergunta mais estúpida feita em toda a projeção e que piora a isenção de charme do co-protagonista. E são muitos personagens à toa. O amigo do amigo da protagonista. O amigo da amiga da protagonista. A filha do antagonista da protagonista. A única coadjuvante verdadeiramente interessante é aquela interpretada por Jihae, conectada com a premissa-mor e baseada em conceitos que tornam-a uma personalidade pela qual minimamente nos importamos.

E nos momentos em que mapeia as grandes construções apresentadas, Rivers sempre mantém um espaçamento considerável entre onde se encontra a câmera, consequentemente o espectador, e o coração dos cenários. Embora os contornos sejam compostos por monumentos e automóveis grandiosos, certamente bem confeccionados, esses são igualmente os casos que separam um competente profissional no ramo da computação gráfica de um cineasta com personalidade e capacidade para construir universo. Do arejado desenho de produção, com vários figurinos, penteados e ambientes, nasce um raso universo. Nem mesmo as cenas de ação compensam, por estarem acompanhadas de personagens pouco engajantes. Muito do que Máquinas Mortais apresenta, em suma, parece ser uma máscara para o péssimo roteiro cinematográfico do princípio.

Máquinas Mortais (Mortal Engines) – Nova Zelândia/EUA, 2018
Direção: Christian Rivers
Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens, Fran Walsh, Philip Reeve
Elenco: Hera Hilmar, Robert Sheehan, Hugo Weaving, Jihae, Ronan Raftery, Leila George, Patrick Malahide, Stephen Lang, Colin Salmon, Mark Mitchinson, Regé-Jean Page, Menik Gooneratne, Frankie Adams, Leifur Sigurdarson
Duração: 128 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.