Crítica | Marcados para Morrer

“Vamos enfrentar o crime ou alguma coisa.”

No seu cinema, David Ayer compreende estar acima de qualquer outra coisa os relacionamentos entre os seus personagens, as nuances contidas em interações tornadas essenciais para o funcionamento de sua arte, mesmo com os muitos equívocos que, ora ou outra, acompanham a jornada narrativa de suas obras. O intimismo é uma qualidade, costumeira ao artista, que tornou Esquadrão Suicida, um projeto posterior seu, esperadíssimo na época em que foi distribuído comercialmente, ainda mais frustrante, porque o diretor desonestamente embutiria esse ponto característico no cerne do longa-metragem, sem o aproveitar. Os grupos retratados, como o composto por soldados, em Corações de Ferro, precisam de química. O espectador precisa se importar pelas peças que o cineasta coloca no tabuleiro e movimenta, embora sem muita destreza, ainda com algum sentimento provindo de uma pessoalidade quase inerente ao conjunto da obra.

O grande acerto da carreira do cineasta, até o presente momento, é Marcados para Morrer, do começo da década de 2010, porque a fita consegue, muito mais que qualquer outra comandada por Ayer, convencer o público do sentimento que está em jogo, carregado pelo sub-gênero policial que o artista novamente se interessou por abordar – a filmografia do diretor é composta basicamente por buddy cop movies, como Bright, e qualquer derivação que recorra ao gênero de ação. O tratamento se distancia de outros da espécie, os quais acompanham corrupções no cenário, investigações demoradas, entre outras questões, abraçando da maneira mais ordinária possível, em contrapartida, o dia-a-dia de dois parceiros do ofício policial, interpretados por Jake Gyllenhaal e Michael Peña, atmosfera ainda envolvente e bastante charmosa, o que contrasta com o ar soturno que nasce de algumas descobertas. O policial sente e torna-se um ser mais humano.

A assinatura do roteiro por parte também de David Ayer consolida as intenções do cineasta em mais de um escopo, originando uma criação que captura, em suma, perfeitamente a sua proposta mais minimalista, acordada a uma trivialidade interessante. Quando está enfim executando-a, o diretor joga metalinguisticamente com o que outras produções da indústria cinematográfica sentiriam o desejo de movimentar diante de um gênero como esse – por exemplo, a vontade de Taylor em ser um detetive. Os protagonistas não servem a nada maior, sendo meros policiais enfrentando o crime pacatamente. Os prêmios são ganhos por questões extracurriculares a qualquer premissa mais central que esteja sendo desenvolvida – o importunamento que os parceiros causam, sem querer, a chefes do crime organizado, que os marcam para morrer. A câmera é muito mais próxima, transportada a essa realidade e transportando-nos a essa realidade.

A cinematografia, no entanto, acaba sendo demasiadamente inconsistente, embora consiga recriar uma visão intimista daquela realidade, assim como um olhar sóbrio, mas não necessariamente menos puro, daquele relacionamento, juntamente ao pretexto mais embrigado que é aberto pelo formato found footage, acerca de um policial que está gravando o seu cotidiano para um projeto de um curso de cinema, o que é minimamente curioso. O cineasta e o diretor de fotografia Roman Vasyanov, em oposição a um raciocínio contínuo e coeso, simplesmente desistem de carregar Marcados para Morrer por meio de apenas um único formato, optando, esporadicamente, por planos abertos mais descompromissados, entre outras visões externas, e que retiram completamente a subjetividade dos protagonistas, passando a comportar a subjetividade do longa em si, o que partiria para um decente vai-e-vem ótico, caso as “exceções” não fosse tão aleatórias.

Já os equívocos do adequado roteiro estão presentes na ausência de certas sugestões, consideravelmente obrigatórias em decorrência da previsibilidade que acaba sendo inexorável ao conjunto enquanto a obra já está encaminhando-se para a sua conclusão – o segmento que avisa ao espectador, mas não aos personagens, que eles estão marcados para morrer, é completamente gratuito, sendo suficiente a espontânea conversa de Mike com um criminoso que aparecera anteriormente no enredo. Até mesmo pela montagem se usufrui da exposição, como na cena da resolução, desnecessariamente premeditada por uma sentença comentando que a sequência a seguir se passaria antes do clímax. O quanto Marcados para Morrer possui de carga dramática é o quanto a obra acaba recorrendo a uns artifícios nem tão funcionais assim para o impulsionamento de certas sensações, como o melodrama, a paixão e o suspense – a música é um exemplo claro.

Os policiais ao menos não são pessoas completamente extraordinárias, ora ou outra encaminhando-se a algum comentário mais inadequado, o que pode até não ter sido intenção do roteirista durante a escrita do argumento, que não precisava necessariamente ser o desconstruidor de rótulos envolvendo mulheres – muitas referências ao trabalho doméstico parte do personagem de Michael Peña. O realismo dessas trocas dispostas, contudo, apesar de não ser utópica, torna tudo mais complexo e verdadeiramente humano, o que é a intenção de Ayer de certa maneira. O envolvimento emocional do espectador, entretanto, é assegurado principalmente pelas ótimas interpretações, pois ambos os atores são enormemente carismáticos, em absurda sintonia cênica, reproduzindo um texto que, se não é imensamente criativo, certamente contém o necessário para o aproveitamento do público dessas performances gostosas de se acompanhar – e de se importar.

Marcados para Morrer constrói salvadores a partir da intimidade, não da grandiosidade. O medo quase diário que as esposas de agentes possuem em não saber se os seus maridos irão retornar para casa. A segunda vida que é construída paralelamente ao mundo do combate ao crime, tão importante quanto, compartilhada por meio de conversas cotidianas. A necessidade por uma resposta imediata para ações que duram segundos. O longa é um recorte do universo particular ao policial, acerca do que é, em uma última instância, sacrificado – investigações a longo prazo, burocracias rotineiras, a própria vida – por esses seres que são gente como a gente, assim como acerca do que é sobretudo, entre incêndios inesperados e chamados ao socorro que não deveriam ser respondidos, resguardado por essas pessoas, quando deixam de ser profissionais, seguindo as regras escritas no manual, e passam a ser verdadeiros heróis, mesmo sem se sentir como heróis.

Marcados para Morrer (End of Watch) – EUA, 2012
Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michael Peña, Anna Kendrick, Natalie Martinez, America Ferrera, David Harbour
Duração: 109 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.