Crítica | Marchar com Alegria

Admirar a filmografia de um grande diretor que se conhece apenas em sua fase mais completa e madura e depois voltar ao passado para estudar suas raízes pode resultar em experiências inusitadas. Aconteceu isso comigo com Alfred Hithcock e, agora, ao que tudo indica, com Yasujiro Ozu. Se na década de 50 esse magnífico cineasta garantiu para si um lugar eterno no panteão dos grandes nomes da Sétima Arte, seu prolífico começo de carreira não só é repleto de “buracos” em razão da perda irreparável de diversas de suas obras, como também nos apresenta a um diretor experimentando, treinando para ser quem seria algum tempo depois. Dias de Juventude, o primeiro longa de Ozu que nunca esteve perdido, já espanta quem está acostumado com Era Uma Vez em Tóquio, por exemplo, apresentando um frenesi incomum e uma ocidentalização que quase chega a ser incômoda.

Em Marchar com Alegria, o segundo filme dele de 1930 (o primeiro foi perdido), a estranheza continua, ainda que, aqui, tenhamos um filme que já mais claramente aponta para sua magnífica habilidade – será que eu poderia chamar de T.O.C.? – nas composições cenográficas. A mesma ocidentalização que vemos em Dias de Juventude está presente aqui, talvez até mais fortemente, já que apenas o núcleo familiar de Yasue Sugimoto (Hiroko Kawasaki) mantém os elementos tradicionais japoneses tanto em figurino quanto maquiagem, postura e decoração de sets. Os demais personagens, em sua maioria e aí incluindo Kenji, a Faca (Minoru Takada), o protagonista, parecem sair diretamente de filmes de máfia americanos, com direito a ternos bem cortados, bares com mesa de sinuca, campos de golfe e assim por diante. Além disso, apesar de ser um drama em espírito, Marchar com Alegria tem facetas cômicas que ganham até mesmo roupagem surreal com “números musicais” (as aspas se justificam, pois não são exatamente isso, apenas passos de dança que começam do nada) que surpreendem positivamente o espectador que encarar a obra de peito aberto.

A história é simples: Kenji, líder de uma gangue de rua, apaixona-se por Yasue, uma de suas vítimas, e, como condição para que o romance progrida, ela exige que ele mude de vida completamente. Kenji, então, tomado pelo amor que sente, abandona seus minions e passa a trabalhar honestamente. O conflito que se estabelece fica restrito aos membros de sua gangue, que não aceitam sua epifania, passando a funcionar como aqueles “diabinhos” no ombro de Kenji, tentando-o a voltar a ser o que era. O roteiro, de Tadao Ikeda, segunda colaboração com Ozu de uma longa e profícua parceria, escreve um roteiro enxuto, básico, sem desvios ou elucubrações complexas, mas lógico, preciso e com uma estrutura cadenciada que não glosa facilmente a vida criminosa de Kenji, ainda que, claro, cambe para o lado “água com açúcar” da narrativa.

O que importa, realmente, é como Ozu preenche os espaços dessa narrativa linear que poderia ser considerada por muitos como clichê, ainda que ser clichê não é demérito algum se a execução for bem feita. E preencher Ozu preenche com uma variedade de abordagens de câmera, partindo de tomadas paradas, passando por travellings simétricos – alguns com suas marcas registradas futuras, com elementos comuns a vários de seus filmes como uma obsessão com trens – e chegando a tomadas panorâmicas magníficas graças à fotografia do então já veterano Hideo Shigehara que acompanharia o diretor por mais algumas outras obras nos anos 30. Como mencionei mais acima, o cuidado de Ozu com a composição cenográfica é espantoso, com o diretor preenchendo o espaço com riqueza de detalhes e trabalhando vários planos – às vezes até quatro – com coreografias que parecem naturais e que, ao mesmo tempo, têm função narrativa, seja para chamar atenção para algum aspecto específico como a menina brincando com a bola ao fundo da sequência do “romance em frente ao Buda”, seja para conectar os personagens, como quando Yasue passa diversas vezes pela frente do trabalho de Kenji.

Há muita movimentação, muita vida em Marchar com Alegria, com Ozu por muitas vezes focando justamente no ato de andar, de marchar, com pernas e pés ganhando destaque em transições ou para marcar momentos importantes que virão. É quase como uma assinatura do futuro mestre, ainda que nem sempre seja possível detectar uma razão maior do que a pura estética para suas escolhas. Esse ponto, aliás, não chega a incomodar o espectador, mas cria um afastamento que joga em nosso colo a pergunta “mas porque isso aconteceu?”, algo que, por não ser fluido, não ter uma racionalização evidente, acaba chamando atenção demais para si mesmo.

Mas, como disse, Marchar com Alegria é um laboratório para Ozu experimentar e, mesmo “apenas” experimentando, ele entrega uma obra cuidadosa, bonita e fácil de se assistir, carregando ao mesmo tempo na leveza e em um leve toque de melancolia que por vezes nos faz duvidar da possibilidade efetiva de redenção de Kenji. Os anos 30 seriam riquíssimos para a formação de Yasujiro Ozu e Marchar com Alegria foi apenas o começo.

Marchar com Alegria (Hogaraka ni ayume, Japão – 1930)
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Tadao Ikeda (baseado em história de Hiroshi Shimizu)
Elenco: Minoru Takada, Hiroko Kawasaki, Satoko Date, Kanji Kawahara, Kenji Kimura, Nobuko Matsuzono, Teruo Môri, Takeshi Sakamoto, Utako Suzuki, Hisao Yoshitani
Duração: 96 min.

 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.