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Crítica | Maria Antonieta (2006)

por Guilherme Coral
663 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

O terceiro longa-metragem de Sofia Coppola e primeiro drama histórico – o segundo sendo o lançamento O Estranho que Nós Amamos –, de forma alguma deve ter sua veracidade histórica levada em consideração. Não somente a diretoria não intencionava realizar um filme historicamente fiel, como cobrar tal característica de um longa de ficção seria, no mínimo, um erro, visto que não há qualquer obrigatoriedade de um filme seguir tal linha narrativa. Por outro lado, Maria Antonieta pode ser encarado como uma mistura de estilo e desmistificação, uma grande desconstrução da infame rainha francesa, que encontrou seu fim na guilhotina da Revolução.

Com o foco estabelecido exclusivamente em sua protagonista, a própria Maria Antonieta (Kirsten Dunst), a trama nos leva em uma jornada iniciada ainda na Áustria, com a jovem nobre deixando sua terra natal a fim de se casar com Luís Augusto (Jason Schwartzman), futuro rei Luís XVI. A história, portanto, nos mostra a vida da garota nesse período, tendo de se habituar com os costumes da corte francesa, tão diferente daquela de Viena, passando pelo seu período de gastos astronômicos como rainha, até a queda de Versalhes, durante a Revolução Francesa.

Logo de imediato podemos enxergar o compromisso maior de Sofia Coppola com a estética de sua obra do que com a fidelidade histórica em si. Os créditos iniciais, ao som de uma música muito à frente do tempo retratado, transmitem um ar de estranhamento, o que apenas é aumentado pelas letras em rosa-choque que pipocam na tela, interrompidas por um breve plano da rainha em um divã. Esse estranhamento inicial, porém, logo dá lugar a uma certa familiaridade, com Coppola mascarando esse drama de época com pinceladas contemporâneas, as quais permitem que nos relacionemos com extrema facilidade com a protagonista.

Não nos vem como grande surpresa, portanto, a identificação imediata com a personagem principal, claramente fora de seu lugar no primeiro terço do longa-metragem. O desconforto de Antonieta é evidente e a diretora/ roteirista ironiza todos os costumes da corte francesa através de algumas ágeis sequências de montagem, acompanhadas de música clássica em tons mais alegres, isso sem falar, é claro, nas próprias expressões da personagem central, tão evidentemente sarcástica e cansada daquilo tudo. O curioso é ver como essa identificação vai se dissolvendo conforme a protagonista transforma-se ao longo da narrativa – aquela menina fora de seu lugar torna-se o símbolo da luxúria, com gastos absurdos enquanto o povo francês passa fome.

O importante é observar como Coppola, aos poucos, pontua informações sobre a atual situação do país, guardando a obviedade da crise para o clímax, resguardando, portanto, dessa forma, o maior impacto para o momento certo. Durante todo esse processo, não enxergamos qualquer vilanização dos personagens, Antonieta ou Luís XVI não são cruéis ou loucos (o rei apenas excêntrico), são simplesmente pessoas claramente impróprias para o cargo que ocupam, como muito bem é dito pelo próprio monarca enquanto esse assume seu dever: “Senhor, nos guie e proteja. Somos jovens demais para reinar.” Dessa maneira, a diretora não faz da coroação algo glorioso, transformando a coroa em um verdadeiro fardo a ser carregado.

Tal questão, claro, já é trabalhada com cuidado durante toda a primeira metade da projeção, a qual foca praticamente nas responsabilidades a serem cumpridas e observadas por Antonieta. O roteiro de Coppola, claro, poderia encurtar todo o drama envolvendo a falta de vontade de Luís em ter relações sexuais, por mais que tal questão resuma tudo o que é esperado tanto da futura rainha quanto do rei – claro que especialmente da mulher, visto que é colocada nela a responsabilidade de gerar interesse sexual no marido. Kirsten Dunst, naturalmente, rouba qualquer cena e ameniza tal deslize do texto, mas não consegue apagá-lo por completo.

Tal questão, enquanto torna toda a projeção mais dilatada do que deveria, mas não ao ponto de quebrar nossa imersão de forma catastrófica, evidencia a estrutura narrativa construída por Coppola, visto que a segunda metade de sua obra mostra justamente o contrário da primeira: o abandono completo das responsabilidades. Os cenários, outrora retratados com apenas a protagonista em quadro, com perfeita simetria, a fim de explicitar seu sentimento de solidão, passam a ser preenchidos por personagens e outras extravagâncias, incluindo, é claro, os vestidos e penteados da rainha.

E já que falamos disso, é impossível assistir Maria Antonieta sem se deixar levar pelas obras de arte criadas pelos figurinistas e estilistas de cabelo. Somado ao excelente design de produção, com a maioria do filme tendo sido filmada no próprio Palácio de Versalhes, tais aspectos efetivamente nos transportam no tempo, além de, é claro, representarem todo exagero da corte, seja nas suas burocráticas e absurdas tradições, seja nos próprios gastos excessivos, que transformam essa obra em um relato bastante desconfortante.

O que Sofia Coppola faz em Maria Antonieta, portanto, é construir e desconstruir a figura da infame rainha da França, estabelecendo uma narrativa que brinca com aspectos contemporâneos a fim de nos aproximar com a protagonista, enquanto que a transforma, diante de nossos olhos, a tal ponto que deixamos de a reconhecer. Embora se arraste em determinados pontos, temos aqui um drama histórico que se diferencia de todas as outras obras do gênero, com Coppola imprimindo, com toda a força, sua identidade na narrativa.

Maria Antonieta (Marie Antoinette) — EUA/ França, 2006
Direção:
Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Judy Davis, Rip Torn, Rose Byrne, Shirley Henderson,  Danny Huston, Marianne Faithfull, Jamie Dornan, Tom Hardy
Duração: 123 min.

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10 comentários

Devin Kanvoi 10 de outubro de 2018 - 22:45

Nem drama nem histórico, o único feito dessa obra é demonstrar com criminosa imprecisão a opulência pornográfica da corte francesa, sem retratar sequer uma fração da exorbitância escandalosa do estilo de vida desta, numa tentativa questionável de humanizar a menos humana casta daquela sociedade. Minha decepção veio por mergulhar na obra tendo como ponto de partida apenas o estilo que a esta se declara. Nem drama nem histórico, se esta estrovenga declarasse-se realidade alternativa, eu tinha ido enriquecer meu imaginário sobre o tema em outro lugar. Como não sou de largar algo pela metade, fui empurrando goela abaixo, primeiro com uma mão, depois com as duas e por fim com o auxílio de um pé de cabra, cada minuto deste que provavelmente foi o roteiro mais empurrado com a bunda de que me recordo. Acabei com um sentimento what the fuck misturado com alívio.

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Laura Carvalho 24 de fevereiro de 2019 - 18:07

nao te conheço e nao vou dizer q concordo com sua crítica mas q vc escreve bem, escreve…

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José Paulo Speck Pereira 15 de agosto de 2017 - 01:54

Gosto muito desse filme, penso que ele dá uma aula de semiótica. Sofia Coppola põe rock e outras estratégias (até um all star meio escondido) para que o público contemporâneo sinta (codifique) de alguma forma a vontade de viver e as angústias de uma adolescente do século XVIII. Maria Antonieta tinha em torno de 15 anos quando foi para Versailles, num acordo de paz entre França e o Império Austríaco. Parece que Luis XVI tinha uma atitude ambígua com Maria Antonieta e demorou anos para “consumar o casamento”. Ela era pressionada constantemente a ter filhos, pois sua obrigação primordial era continuar a linhagem dos reis franceses, e não fazê-lo daria instabilidade ao governo e talvez pusesse em conflito novamente França e Áustria. Para escapar de tudo isso ela cria um universo paralelo de diversão e extravagâncias.

A crítica está ótima e só pontuo que, do ponto de vista dos dramas psicológicos de Maria Antonieta, o filme é um retrato com mais verdade do que muitos pensam. Escrevo isso ao compará-lo com o livro “Maria Antonieta: retrato de uma mulher comum”, Stefan Zweig, uma biografia que foi elogiada até por Freud. Vale a leitura!

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Nana 13 de agosto de 2017 - 16:34

Eu gosto desse,mas acho a cena em que conta a morte dos filhos minimalista,mas fria.

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Guilherme Coral 14 de agosto de 2017 - 13:10

Esse filme tem seus problemas mesmo, acho que ele poderia ter dado uma ênfase maior no final da vida dela mesmo.

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Nana 21 de agosto de 2017 - 18:19

Parece que o filme travou no anti clímax

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Luiz Santiago 8 de agosto de 2017 - 23:37

Esse filme é MUITO interessante. Quando ele foi lançado eu já sabia que não tinha compromisso nenhum da diretora em representar a época como tal, não era, da maneira crua, um drama de época. Mas quando o filme começou eu já fiquei meio estático. Porque não esperava esse revisionismo meio fofo, meio princesinhas da Disney e cheio de coisas interessantes. O figurino e os adereços para a personagem de Kirsten Dunst são sensacionais. O destaque da cor rosa, o bom aproveitamento de Versalhes… gosto muito.

Como você, acho a obra um pouco arrastada em alguns pontos e acho mal feita a ligação com os pontos de conflito, mas mesmo assim, o filme consegue um resultado final bem interessante.

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Guilherme Coral 8 de agosto de 2017 - 23:44

Eu gostei muito desse revisionismo dela, pegou essa figura histórica e transformou em uma personagem acessível, não é só a rainha da lenda do bolo (ou brioche), é uma garota que casaram e falaram: parabéns, você é rainha agora.

Agora, como usaram Versalhes foi absurdo, a Coppola deve ter um papo MUITO bom para terem deixado ela usar tanto do palácio, ainda mais dentro de um revisionismo desses hahaha.

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Luiz Santiago 9 de agosto de 2017 - 00:19

O que contatinhos não fazem, né? Mas olha… que baita uso do espaço! E é isso mesmo: impressionante só de pensar o tema que ela abordou e como abordou. Os franceses, ciumentos como são de sua História, devem ter torcido o nariz à beça…

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Tiago Lima 9 de agosto de 2017 - 00:32

Não nego que este é meu filme preferido da Sofia Coppola, meu guilty pleasure.
Reconheço que o roteiro em determinado momento torna-se arrastado, principalmente no meio da projeção, mas em contrapartida acho que é até proposital, para manter o espectador na mesma bolha que Antonieta, em um ambiente bucólico, paradisíaco, monótono sem as grandes festa, até que de supetão a realidade bate a porta.

Concordo com os argumentos apontados na crítica, que o filme desmitifica as imagens de Antonieta e Luís e que no fim eles estavam aquém das responsabilidades que lhes foram destinadas.

Mas o que mais me interessa neste Marie Antoinette é o aspecto plástico da obra, que me encantou pelo simple fato de ter uma fotografia mais clara cheia de candy colors, tão diferente dos filmes que retratam os períodos da idade media, cheia de cores escuras e terrosas.

Li em uma entrevista da Sofia que a ideia era trazer a estética de bolos, como se a palhete de cores do filmes fosse um grande banquete de doces, e é interessante como a diretora ussa esses aspectos em escala de evolução e declínio refletindo a realidade da personagem, saindo da escura Áustria, chegando na radiante Versallies,indo ao ápice dos vestidos coloridos nas festa para depois assumir um branco e cores pasteis em uma fase mais bucólica chegando ao preto e a penteados menos suntuosos com o inicio da Revolução.

E claro, nunca me esquecerei da icônica cena em que Antonieta esta comprando sapatos e há um all star rosa no meio das escolhas. Simplesmente gênial.

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