Em fevereiro de 1965, Maria Bethânia subiu ao palco do Teatro de Arena para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião. Aos 18 anos, a baiana transformou Carcará numa performance incendiária que marcou sua estreia nacional. O impacto foi tão forte que a RCA a contratou imediatamente. Quatro meses depois, em junho, a gravadora lançava seu primeiro álbum. A pressa em capitalizar o sucesso definiria tanto as qualidades quanto os problemas do disco. O álbum foi gravado pela subsidiária Camden da RCA Victor, com Roberto Jorge na produção e Maestro Cipó nos arranjos. Orlando Silva de Oliveira Costa, o Maestro Cipó, era arranjador experiente da Rádio e TV Tupi desde os anos 1950. Seu currículo incluía trilhas de cinema e trabalhos com diversos artistas da época. Participações confirmadas, nesse disco, são importantes: Jards Macalé toca violão em Sol Negro, Missa Agrária e Carcará. Nelson Cavaquinho acompanha Feiticeira. O grupo regional de Zé Menezes aparece em Pombo-Correio e O X Do Problema. Gal Costa, creditada como Maria da Graça, divide os vocais de Sol Negro em sua primeira gravação. Caetano Veloso assina o texto da contracapa, marcando desde o início a conexão familiar que atravessaria a carreira da irmã.
A produção trabalha com dois formatos distintos. Nas faixas orquestrais, Maestro Cipó conduz arranjos que cumprem papel de sustentação sem arriscar inovações. Nas faixas com formações menores, o disco parece melhor. O problema estrutural que atravessa todo o álbum, porém, é outro: os encerramentos abruptos. Faixa após faixa, as músicas terminam de forma seca, cortadas sem respiração ou resolução adequada. Esse corte abrupto prejudica especialmente as músicas orquestrais. De Manhã, composição de Caetano que abre o disco, mostra Bethânia cantando com controle impressionante para uma estreante. A orquestra sustenta sem sufocar. Mas quando a interpretação começa a ganhar profundidade, a faixa simplesmente acaba. O mesmo acontece em Só Eu Sei, de Batatinha e J. Luna, onde a voz grave de Bethânia dá peso ao samba, mas o corte final interrompe o fluxo que vinha sendo construído. Pombo-Correio, de Darcy de Oliveira e Benedito Lacerda, funciona melhor por ser estruturalmente mais resumida. O grupo regional de Zé Menezes traz o samba tradicional sem invencionices, e Bethânia equilibra respeito pela tradição com pequenos toques pessoais. O encerramento ainda incomoda, mas causa menos estranheza. No Carnaval, parceria de Caetano com Jota, aposta em um samba-lamento. Bethânia canta com a dor e seriedade certas e, desta vez, a finalização não incomoda tanto.
Nunca Mais, de Dorival Caymmi, revela que Bethânia não é apenas potência vocal. A balada permite nuances e sutilezas que seriam marca de sua interpretação futura. Cipó conduz a orquestra com discrição apropriada e, finalmente, temos um encerramento bem estruturado. Sol Negro tem um conceito minimalista que funciona bem. O violão de Jards Macalé cria ambiente intimista para o dueto de Bethânia com Gal Costa. As vozes se entrelaçam com naturalidade, antecipando as futuras colaborações entre as duas. Macalé, que havia iniciado carreira profissional naquele mesmo ano como violonista do Opinião, acompanha com sensibilidade, deixando as vozes ocuparem o centro. Pena que a faixa é muito curta e mal finalizada. A sequência Missa Agrária e Carcará forma o núcleo político do álbum. Missa Agrária, de Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra, trata de reforma agrária com linguagem direta. Cipó volta aos arranjos orquestrais, desta vez com propósito mais claro. O violão de Macalé mantém a faixa ancorada, evitando grandiosidade excessiva. Carcará, de João do Vale e José Cândido, é a faixa que havia lançado Bethânia ao estrelato no Opinião.
No disco, Carcará recebe tratamento que tenta capturar a energia da performance ao vivo. Cipó trabalha os arranjos com pulso firme. A orquestra pontua tensões e explosões nos momentos certos. O violão de Macalé liga Missa Agrária a Carcará criando continuidade temática. A flauta que acompanha toda a canção é incrível. A interpretação de Bethânia é visceral. A natureza combativa da música combina com todo o arranjo feito para ela. É a melhor faixa do disco, em todos os aspectos. Anda Luzia, de João de Barro, volta ao samba/choro tradicional e mantém uma simplicidade charmosa e tristonha. Feitio De Oração, clássico de Noel Rosa e Vadico, encontra a cantora em terreno delicado. A canção pede caminhos que ela ainda estava desenvolvendo aos 18 anos. E a qualidade da gravação também não ajuda muito.
Feiticeira traz Nelson Cavaquinho ao violão. A presença do compositor carioca traz autenticidade imediata. Bethânia se adapta, dialogando com o violão. É um dos momentos mais honestos do disco. O X Do Problema, segundo Noel Rosa do álbum, retorna ao regional de Zé Menezes. Bethânia transita entre estilos com versatilidade, mas a produção não cria muitas condições para que isso brilhe. Mora Na Filosofia, de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, encerra o disco com a orquestra completa. Cipó busca fechamento grandioso que sofre, como outras faixas, com o encerramento precipitado, num fade criminoso no meio do bloco carnavalesco que põe fim à canção.
A voz de Bethânia já demonstra as qualidades que a tornariam uma das maiores intérpretes do Brasil. O repertório é forte, as participações criam momentos de autenticidade e, no geral, os arranjos são competentes, ainda que conservadores. Mas o problema real é a pressa. As sessões de estúdio não permitiram o refinamento adequado do projeto. No entanto, Maria Bethânia continua sendo um documento importante do momento inaugural de uma grande voz, um projeto onde a gravadora quis transformar o fenômeno cênico do show num produto fonográfico sem entender completamente o que tinha em mãos. Acabou lançando uma das maiores estrelas do Brasil, é claro. Mas não em seu maior vigor da época.
Maria Bethânia
Artista: Maria Bethânia
País: Brasil
Lançamento: 1965
Gravadora: RCA/Camden
Estilo: MPB
Duração: 29 min.
