Crítica | Maria Sharapova: The Point

Maria Sharapova é um dos nomes mais populares do tênis atual. Desde que venceu o tradicional torneio de Wimbledon aos 17 anos, diante de outra grande jogadora – a norte-americana Serena Williams, a tenista foi alçada à categoria de pop star tanto por seu desempenho nas quadras como por sua beleza, que lhe renderia inúmeros trabalhos como modelo ao longo de toda a carreira. Mas seus últimos anos como tenista tiveram apenas lampejos do conhecido brilhantismo. Sharapova ganhou destaque na mídia recentemente não por títulos e grandes jogos, mas por ter sido pega em um exame antidoping durante o Aberto da Austrália de 2016. Entre idas e vindas dos tribunais, a atleta russa foi afastada do tênis por quinze meses. Sempre em evidência também por assuntos extra-esportivos, não é nenhuma surpresa que o episódio fosse explorado comercialmente. Parece-me ser esse o contexto em que se lança o documentário disponívvel na Netflix sobre sua punição e preparação para retornar às quadras – Maria Sharapova: The Point.

Sharapova dá sua versão dos fatos. Reitera que ela e sua equipe médica não leram com o devido cuidado a lista de substâncias proibidas, em que estava o meldonium. A russa alegou problemas médicos como causa do uso da substância e teve, assim, sua pena reduzida. Nesse momento, o documentário incomoda bastante por trazer as críticas de Sharapova à sentença da ITF (Federação Internacional de Tênis) de modo a praticamente vitimizá-la. É sabido o quanto casos de doping são rigorosamente punidos no meio esportivo e, mesmo a organização tendo levado em conta todos os argumentos de Sharapova, dando-lhe uma sentença bem abaixo da máxima, o documentário insiste na pecha de vítima de sua própria inocência. Algo que contradiz completamente a própria coletiva de imprensa em que a russa assume publicamente sua negligência e que é exibida pelo documentário.

Para sustentar a tentativa de tratar Sharapova como uma heroína, a obra das diretoras Lisa Lax e Nancy Stern Winters utiliza enquadramentos de câmera de celular tanto na abertura como no momento em que ela conta para sua família que sua pena fora reduzida de vinte e quatro para quinze meses. Maria Sharapova: The Point se esforça para humanizar sua protagonista, como se isso fosse necessário. Quer que o público se identifique com a tenista, convencendo-o emocionalmente da inocência da atleta, ainda que a exiba na famigerada coletiva assumindo sua culpa. Em nenhum momento, o documentário das cineastas enfoca o erro ou o arrependimento de Sharapova. Parece mais a reabilitação de uma injustiçada pelo esporte e pelo mundo. Contribuem sobremaneira para isso os momentos em que a russa é filmada em poses meditativas e com um slow motion cafoníssimo em uma praia deserta. Não vejo nenhum sentido nesse recurso do documentário, além de reforçar, é claro, seu discurso completamente enviesado e ensaiado.

Alguém poderia argumentar nesse momento que se trata apenas da visão de Sharapova acerca do caso e não de versão definitiva dos fatos. Mas, diante de uma situação grave e importante como essa, era de se esperar mais honestidade tanto da tenista como do documentário da dupla de diretoras. Construindo a imagem da jogadora russa como uma inocente que trava uma batalha consigo mesma para voltar às quadras, a obra chega então aonde desejava. O terço final ganha tom idêntico ao de qualquer filme piegas e genérico sobre a superação de um atleta ou de um time (algo que o cinema já explorou à exaustão). Desse modo, Maria Sharapova: The Point acaba por não revelar nada demais ao já conhecido caso de dopping da ex-número 1 do mundo. Não reflete sobre o erro de uma das mais populares esportistas do mundo e ignora toda a história de luta do esporte contra o doping, que justifica o rigor da punição àqueles que o praticam.

Talvez assumir o erro da protagonista com maior veemência, analisando como algo assim pode acontecer mesmo com atletas do mais alto nível, fosse uma abordagem mais sincera. Aí sim eu não veria nada de errado em discursar em favor de Sharapova, argumentando como, apesar disso, ela continua sendo uma das tenistas mais talentosas e vencedoras do circuito feminino. Andre Agassi, em sua estupenda biografia, trata a si mesmo com mão pesada acerca do seu caso de doping (que também não teve a intenção de ganho de desempenho). Ao contrário do que pensa Maria Sharapova: The Point, ser mais dura consigo mesma só tornaria a russa ainda maior do que já é.

Maria Sharapova: The Point – EUA, 2017
Direção: Lisa Lax, Nancy Stern Winters
Elenco: Maria Sharapova
Duração: 55 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.