Home FilmesCríticas Crítica | Marighella (2021)

Crítica | Marighella (2021)

Thriller violento de revolucionário controverso.

por Kevin Rick
7.325 views (a partir de agosto de 2020)

Dirigido por Wagner MouraMarighella narra os últimos anos de Carlos Marighella (Seu Jorge), um revolucionário marxista que liderou uma luta armada contra a ditadura militar brasileira na década de 1960. Originalmente lançado em 2019 em circuitos europeus, o longa teve seu lançamento adiado no Brasil, por motivos de censura ainda não exatamente claros, e posteriormente adiado novamente por causa da pandemia, além de ter sido sabotado na métrica do IMDb e causado alvoroço em debates políticos, principalmente por grupos de extrema-direita que condenam a obra por supostamente defender um terrorista — curioso como o rebuliço começou antes mesmo das pessoas sequer verem o filme, não?

Explicando de maneira simples, a polêmica ocorre em relação ao contexto histórico conturbado e cheio de narrativas diferentes que circundam o trajeto revolucionário de Marighella. Seria ele um guerrilheiro lutando contra a ditadura e a opressão ou um terrorista lutando contra a revolução anti-comunista liderada pelos militares? A verdade é que Marighella é uma figura contraditória em ambas as situações. Sofreu terror, e, por isso, causou terror. E a cinebiografia de Moura, baseado no livro Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, do jornalista Mário Magalhães, que segue seus 4 últimos anos de vida, começando por sua violenta prisão, em maio de 1964, até seu assassinato em 1969, nunca realmente nega a ambiguidade do personagem titular.

Importante ressaltar que, a despeito do contexto histórico e político, Marighella não é um documentário. Parece meio óbvio dizer isso, mas é surpreendente como um grande número de pessoas não sabem diferenciar ficcionalização de fatos reais com documentação de acontecimentos. Vide a própria mudança étnica do personagem, interpretado aqui por Seu Jorge, um homem negro, enquanto Marighella era branco. A escolha, que em nada impacta o retrato da figura real, é feita de maneira autoconsciente para utilizar a cinebiografia do revolucionário para também discutir racismo. Dessa forma, o pano de fundo é, sim, de suma importância ao longa, mas apenas para podermos contextualizar historicamente o passado de Marighella dentro da proposta fílmica da direção de Wagner Moura.

Nesse sentido, a partir do momento que Moura inicia a obra com um (ótimo) plano-sequência de Marighella e seus seguidores roubando um trem, o cineasta começa a delinear sua biografia muito mais em uma vertente de filme de ação e thriller, mesclado com um estudo de personagem pessoal sobre os limites do ativismo em torno de circunstâncias opressoras, do que necessariamente um debate político. Mais especificamente, a obra abre uma discussão sobre a contradição da luta armada; sobre até onde a ideologia pode levar esses personagens a cometerem atrocidades contra um inimigo imbatível e cruel, e consequentemente se igualarem a eles, mas sempre com uma linguagem audiovisual de suspense e agitação política, vide a câmera na mão sempre tensa e trêmula do cineasta.

Pensando nessa proposta menos, digamos, argumentativa de Moura – curiosamente, apesar da recepção raivosa, ele pouco imprime seu posicionamento político, para bem ou para mal (mais disso à frente) – a narrativa se desenvolve sempre em dois âmbitos: a luta contra a ditadura e o campo familiar. Entre assaltos, confrontos e tiroteios cada vez mais sangrentos com o sádico policial Lúcio (Bruno Gagliasso), inspirado no delegado Sérgio Paranhos Fleury, e seu pequeno exército do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o longa é impulsionado por performances fortes e sequências de ação dinâmicas, sempre dinamizando o dilema moral de Marighella e seus seguidores com atos de violência.

Para dar maior substância ao conflito dos revolucionários, o roteiro se respalda no citado campo familiar, com a montagem pontualmente inserindo momentos particulares do grupo com mães, pais, cônjuges, filhos e filhas, para que nos simpatizemos com o protagonista, seus seguidores e sua causa. Falta uma certa sensibilidade dramática de Moura e do roteiro nessas cenas mais particulares, com muitas delas acontecendo com diálogos pobres e melodramáticos e a imagem genérica na interação parental – a exceção seria um momento poético à la Moonlight de Marighella e seu filho no mar. Em contrapartida, o diretor se resolve muito bem no retrato antagônico da ditadura, com Bruno Gagliasso simplesmente fantástico no papel, personificando os piores excessos de um regime autoritário; bruto, torturador e censurador, sempre acompanhado de seu esquadrão morte. Moura, bem parecido com seu colega José Padilha, não se abstêm de expor a violência, com o longa compilando muitas sequências visceralmente perturbadoras.

Contudo, Marighella carece de uma visão retrospectiva histórica mais ambivalente, focando pesadamente na luta do seu anti-herói carismático, cujo legado complicado é tanto celebrado como luta contra o autoritarismo quanto problematizado moralmente, mas nunca totalmente examinado politicamente e historicamente. Isso, como eu disse, parte da proposta familiar e de thriller de Moura, mas, como o filme carrega uma carga ideológica muita grande, ver todo o pano de fundo ideológico do comunismo, democracia, as sujeiras políticas e os jogos governamentais resignados a pequenos diálogos, assim como situações narrativas importantes se resolvendo em elipse, como as viagens de Marighella a Cuba e o sequestro de um chanceler americano, diminuem o peso cinebiográfico do estudo de personagem, conforme seu período e entorno são pouco contextualizados para além da violência.

Aliás, pouco vemos do Marighella líder ideológico, revolucionário, discursador político e radical, e sim mais seu lado paizão e figura trágica nas mãos de um sistema podre. Até mesmo seus seguidores são mais proativos que o protagonista. Há o que se gostar nesse lado moralmente íntimo do longa e na chocante experiência de thriller de gato-e-rato contra a ditadura, mas, ironicamente, Marighella é muito passivo em seu discurso e retrato político.

Marighella – Brasil, 28 de outubro de 2021
Direção: Wagner Moura
Roteiro: Felipe Braga, Wagner Moura (baseado no livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães)
Elenco: Seu Jorge, Adriana Esteves, Bruno Gagliasso, Humberto Carrão, Luiz Carlos Vasconcelos, Adanilo, Jorge Paz, Bella Camero, Herson Capri, Henrique Vieira, Ana Paula Bouzas, Ana Paula Bouzas, Paul Bernard, María Casares, Élina Labourdette, Lucienne Bogaert, Jean Marchat, Tuna Dwek, Guilherme Lopes, Rafael Lozano, Charles Paraventi, Brian Townes, Leonardo Lacerda
Duração: 155 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais