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Crítica | Mário e o Mágico: Uma Experiência Trágica de Viagem, de Thomas Mann

Ilusionismo e afetações.

por Luiz Santiago
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Thomas Mann escreveu Mário e o Mágico três anos após vivenciar com a família umas férias tensas no balneário de Forte dei Marmi, transformando a experiência desagradável numa novela que ganharia interpretações diferentes com o passar dos anos. O autor presenciou a apresentação do hipnotizador Cesare Gabrielli, que humilhava espectadores no palco (me lembrou os comediantes de hoje em dia), e somente quando sua filha Erika comentou que não se surpreenderia se alguma vítima atirasse no charlatão é que Mann vislumbrou a possibilidade ficcional no episódio. A narrativa coloca uma família alemã em Torre di Venere, balneário fictício que replica o ambiente litorâneo toscano sob regime mussoliniano, onde nacionalismo exacerbado e xenofobia criam uma atmosfera tensa, embora não necessariamente opressiva, prenunciando o confronto entre o Cavaliere Cipolla e o garçom Mário. A abordagem do autor para o cenário, mesmo antes do espetáculo, já indica um lugar viciado, cheio de pessoas com ideias afetadas demais e disfarçadamente perigosas, mantendo clima de hostilidade que permeia toda experiência.

O livro não me pega muito porque Mann trabalha a alegoria de forma seca e fechada demais, em detrimento da complexidade psicológica que tanto se vê em seus livros. Numa análise crítica dos símbolos da novela, Cipolla é o fascismo europeu, cheio de técnicas hipnóticas que escravizam as massas, seguindo a trilha teórica aberta por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Ego, publicado em 1921. Os incidentes que precedem o espetáculo do mágico, incluindo a expulsão da família do Grand Hotel por questões sanitárias fabricadas e o escândalo provocado quando uma criança alemã corre nua até o mar, funcionam como pequenas humilhações orquestradas pelo nacionalismo italiano que antecipam o domínio psicológico exercido posteriormente por Cipolla sobre a plateia composta por turistas e moradores locais. Há aqui um narrador-observador que registra eventos com distanciamento parcial, pois mesmo ele sente-se atraído pelo poder magnético do hipnotizador, virando um cúmplice involuntário que espelha a sedução coletiva pelo totalitarismo.

É muito interessante a aproximação ou comparação da obra com o fascismo, mas o que realmente se sobressai aqui são questões ético-morais de primeira ordem, seguidas por uma estrutura ideológico-cultural que, aí sim, ganha o formato mais crítico que o próprio autor, depois de muitos anos, iria enxergar também. A problemática central versa sobre a liberdade individual e a vontade manipuladora externa, tema filosófico que vai muito além dos anos 1920. Cipolla humilha um jovem pescador rebelde, forçando-o a mostrar a língua para o público; induz uma senhora idosa a relatar coisas sob transe e transforma espectadores em marionetes dançantes, culminando na degradação de Mário, garçom melancólico que beija o Mágico acreditando estar beijando sua amada Silvestra. A técnica narrativa cria um bom distanciamento, mas Mann não desenvolve ambiguidades morais mais profundas, preferindo manter a dinâmica entre as vítimas passivas e o tirano sedutor. Talvez a minha expectativa de que a narrativa fosse para um outro lugar tenha acrescentado uma enorme pedra de frustração quando cheguei à página final. Não pelos eventos ali narrados, que são bons e muito chamativos. Mas pelo corte seco do drama justamente naquele ponto.

Comparar Mário e o Mágico com outras investigações literárias sobre o autoritarismo europeu é uma possibilidade, mas, como já indiquei acima, não é algo que eu faria de maneira direta, porque a obra não está unicamente focada nesse aspecto político. Há uma camada a mais para ser aproveitada. O assassinato final, interpretado pelo narrador como “libertação necessária“, indica uma solução violenta para a tirania que permanece controlando e degradando tudo, mesmo considerando o contexto pré-Segunda Guerra, quando Hitler ainda não havia chegado ao poder na Alemanha. Mann entrega aqui um texto que fica melhor quando lido pelas lentes das questões morais universais do que como grito antifascista direto, sendo relevante justamente nos momentos em que ultrapassa a alegoria óbvia para tocar dilemas humanos sobre manipulação, escolhas pessoais, interação com grupos sociais distintos, performance de gênero e cumplicidade coletiva diante do mal, conceitos que seguem importantes até (e principalmente) hoje, sem depender exclusivamente do contexto mussoliniano para se manter terrível e desconcertante.

Mário e o Mágico: Uma Experiência Trágica de Viagem (Mario und der Zauberer – Ein tragisches Reiseerlebnis) — Alemanha, 1930
Autor: Thomas Mann
Edição lida para esta crítica: Companhia das Letras, fevereiro de 2023
Tradução: José Marcos Macedo
Posfácio: Marcus Vinicius Mazzari
112 páginas

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