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Crítica | Marte Ataca!

por Fernando Campos
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Tim Burton realmente gosta dos filmes de ficção científica trash dos anos 50. Em 1994, o diretor realizou a ótima cinebiografia Ed Wood, sobre o criador do péssimo, mas considerado cult, Plano 9 do Espaço Sideral. Depois disso, em 1996, Burton inspirou-se nesse universo novamente, dirigindo a paródia Marte Ataca!. Porém, a pergunta que fica é: por que parodiar um gênero risível por si só?

A obra inicia, já nos créditos iniciais, mostrando naves marcianas aproximando-se da Terra e cercando as principais cidades do mundo. Com isso, a humanidade fica apreensiva sobre os objetivos dos extraterrestres no planeta. Tentando mediar um contato com esses seres, o Presidente dos Estados Unidos, James Dale (Jack Nicholson), consulta o professor Donald Kessler (Pierce Brosnan) e o General Decker (Rod Steiger). No entanto, nada sai como esperado e os alienígenas começam seu ataque à raça humana.

Respondendo diretamente a pergunta do primeiro parágrafo, Burton falha em parodiar o gênero. Marte Ataca! se sai mal em seu principal objetivo, ser engraçado. Inclusive, em vários momentos, parece que estamos diante de um legítimo filme trash e não de uma comédia. Isso porque o roteiro, escrito por Jonathan Gems, foca em criar graça com momentos absurdos, mas não atinge seu objetivo por apostar em cenas parecidas umas com as outras. No primeiro contato com os extraterrestres, por exemplo, é surpreendente e bem construído o ataque desses seres, explorando a ingenuidade dos terráqueos, iludidos pela frase “nós viemos em paz”. No entanto, minutos depois, na cena em que o marcianos visitam o Congresso dos Estados Unidos, a obra recorre ao mesmo recurso, uma falsa promessa de paz para tentar fazer rir. Obviamente, a estratégia não funciona na segunda vez.

Assim segue o roteiro de Marte Ataca! durante a maioria do tempo, criando situações repetidas com o objetivo de criar alguma graça. Outro exemplo disso é a divisão do Presidente Dale diante do pacifismo de Kessler e agressividade de Decker; em um primeiro momento funciona, depois não. Aliás, os protagonistas são tão estereotipados e sem graça que até mesmo suas jornadas não interessam.

A única habilidade de Burton com relação aos seus personagens é conseguir reunir um elenco tão estrelado. Ninguém se destaca, mas o simples fato de acompanhar tantos atores talentosos, como Jack Nicholson, Glenn Close, Rod Steiger, Pierce Brosnan, Annette Bening e Sylvia Sidne, já diverte. Porém, a única interpretação que vale nota é a de Nicholson, incorporando dois personagens aqui, o Presidente Dale e o picareta Art Land, dando personalidade a ambos.

Outro fator que vale elogiar são alguns subtextos propostos pelo roteiro de Gems. O discurso de Dale implorando para que os marcianos relevem as diferenças e tentem colaborar com os humanos expõe uma certa hipocrisia americana, país que já invadiu nações sem motivo válido e começou guerras com um falso discurso de paz, exatamente como os extraterrestres fizeram. Além disso, o texto expõe com eficiência a paixão ingênua que as pessoas têm por “salvadores”, impedindo algumas de verem força em si mesmas, algo exemplificado através da personagem Barbara Land, interpretada por Annette Bening.

No entanto, esse não é o foco de Marte Ataca!, uma vez que são momentos de exceção dentro da obra, sendo insuficiente para tornar o resultado bom. Ademais, nem mesmo a direção de Burton impressiona aqui. A fotografia apenas intercala entre planos abertos e fechados, sem nenhum plano emblemático. Já a direção de arte busca o vermelho para criar uma sensação de perigo que não funciona e até mesmo a nave dos marcianos, uma oportunidade de criar algo diferente, vai na linha do estereótipo alienígena, parecendo uma calota por fora. Enquanto isso, a trilha de Danny Elfman funciona, dando o tom preciso de cada cena, utilizando bateria em falas de militares e violinos em cenas “inspiradoras”, contudo, assim como a fotografia, não foge do básico.

Por fim, a resolução da obra é absurda e sem sentido, além de não ter graça nenhuma, eliminando os alienígenas através de uma música. Pior do que isso, no terço final, alguns personagens surgem sem propósito algum, parecendo existir apenas para acomodar amigos do diretor, como é o caso dos papéis de Danny DeVito e Tom Jones. Buscando parodiar os filmes de ficção científica trash dos anos 50, Tim Burton aproxima-se mais da homenagem do que humor. Mas não no sentido positivo, pelo contrário, Marte Ataca! homenageia o gênero por ser fraco e repetitivo como os filmes que se inspirou.

Marte Ataca! (Mars Attacks!) – EUA, 1996
Direção: Tim Burton
Roteiro: Jonathan Gems
Elenco: Jack Nicholson, Glenn Close, Rod Steiger, Pierce Brosnan, Jim Brown, Annette Bening, Lukas Haas, Sarah Jessica Parker, Michael J. Fox, Natalie Portman, Danny DeVito, Jack Black, Paul Winfield, Pam Grier, Martin Short, Sylvia Sidney, Tom Jones
Duração: 106 min

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9 comentários

SUPRAMATY 10 de março de 2020 - 19:09

O próprio canal Nostalgia Critic faz a mesma pergunta que muitos fizeram depois de assistir ao filme lembrando do trailer “Onde estava aquela comédia mostrada?”
Na primeira vez os Aliens são interessantes, mas depois fica irritante, e parece que o filme tem o dobro de duração. As cenas dos alienígenas atirando fica repetitiva e o pior é a cena de uma deles disfarçado de mulher, dura seis minutos aquela bobagem.
Os astros que aparecem e simplesmente morrem e você fica “Porque estavam nesse filme? Ah sim, para vender um trailer”
Infelizmente esse é um daqueles filmes cult que não enxergo da mesma maneira (me lembra Plano 9, do qual todos admiram mas só o vejo como um filme parado e chato).

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Fernando Campos 22 de outubro de 2018 - 14:25

Ed Wood é realmente muito bom. Gosto bastante de Peixe Grande também.

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pabloREM 8 de outubro de 2018 - 17:16

Eu gosto desse filme, aliás um dos poucos do Tim Burton que eu gosto. Para mim ele é superestimado.

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Fernando Campos 22 de outubro de 2018 - 11:14

Também considero o Tim Burton superestimado. Apesar de gostar de alguns filmes do diretor, como Batman, Marte Ataca não é um exemplo disso. Sinceramente, não vi muita graça.

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pabloREM 22 de outubro de 2018 - 12:00

Acho que em um pensamento rápido, Ed Wood e Cavaleiro Sem Cabeça são os melhores.

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Rene Had 7 de outubro de 2018 - 08:07

Olha eu gosto desse filme e sempre me diverto. Eu gosto do tom sarcastico dele. E o final me passa uma ideia de debochar esses filmes de ficção, principalmente independence day.

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Fernando Campos 22 de outubro de 2018 - 11:16

O filme debocha mesmo, mas em alguns momentos parece que vai justamente na linha desses filmes. Falta humor em vários momentos.

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Luiz Santiago 6 de outubro de 2018 - 22:02

Eu gosto só um pouquinho mais desse filme, daria só meia estrela a mais. Para mim, ele fica na metade mesmo, no medíocre, mas entendo e concordo com os pontos que você falou. Dependendo do meu nível de bobagem, eu até dou risada de umas cenas aqui hahahahahahhahahaha

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Fernando Campos 22 de outubro de 2018 - 11:15

Eu ri em poucos momentos do filme. Não é uma chatice, mas também não me diverti muito. Meia estrela de diferença é empate técnico hahaha.

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