Crítica | Martin Eden

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Enquanto o homem tiver poder sobre suas palavras, ele terá controle sobre si mesmo e, consequentemente, esta será sua única resistência contra as forças do mundo sobre ele. É isto que acredita Martin Eden (Luca Marinelli), um marinheiro sedutor que é aspirante a poeta (apesar de ter largado a escola) e sempre carrega um livro consigo. Da classe trabalhadora e com dificuldades de pagar o aluguel oferecido por seu cunhado, o protagonista passa a se aventurar em uma família burguesa ao se relacionar com Elena Orsini (Jessica Cressy), ao passo que toma palanque em reuniões socialistas.

A primeira coisa que chama atenção no longa de Pietro Marcello é o modo como ele insere na narrativa curtas sequências documentais tiradas do passado. Apesar de ser um filme sobre um homem em sua primeira camada, Martin Eden também é sobre o povo. Como um sonho delirante em que realidade e sonho se confundem, a experimentação de Marcello nos coloca na cabeça deste artista que passeia entre dois mundos: o da classe operária e da burguesia; da arte e da política. Basicamente, é quase como se estivéssemos diante de uma obra anacrônica, que com pitadas de neorrealismo, mas colorida em technicolor.

Em uma certa cena, Martin vai ao cinema com Elena e, enquanto a moça afirma ter adorado aquela história amável e esperançosa, o escritor não se impressiona, afirmando que já vira muitos contos como aquele e que há muitas outras coisas para se contar. Isso se desencadeia em uma discussão na qual Elena fala que a escrita de seu namorado é crua, sendo marcada pela tragédia e morte. Logo em seguida, ele retruca que para quem está de barriga cheia, é fácil dizer que não acredita na fome. Acho necessário transcrever todo este texto, pois ele é toda a essência de Martin Eden. Um filme que vive do conflito, tanto de classes mas também, principalmente, interno.

Neste sentido, é interessante ver como o roteiro de Marcello e Brauci trabalha principalmente o sentimento de não pertencimento por parte de seu protagonista, que cada vez vai se seduzindo pelos charmes da burguesia e pelos olhos azuis chamativos de Elena, mas, ao mesmo tempo, mantém ainda um flerte com suas origens, o que é metaforicamente representado pelo seu romance com a garçonete e a câmera sempre. 

Seguindo esta linha conflitante, ao discursar em um palanque operário, Martin fala que é a lei natural dos homens serem governados uns pelos outros e que, quando os revolucionários se organizarem em um Estado, a escravidão voltará. Similarmente, quando discute com aristocratas em um jantar, aponta que eles se autointitulam liberais, mas adotam medidas socialistas. Como um operário-artista que sempre seguiu seu próprio caminho e caiu de paraquedas na vida política, ele vai percebendo que nenhum dos dois grupos se preocupa com o indivíduo, algo que desperta uma raiva muito bem evocada por Luca Marinelli.

Por isso, pode até se dizer que Martin Eden é um filme um tanto quanto paradoxal e este que vos escreve talvez nem chegue a alguma conclusão alguma, já que sua própria ideia central é essa combinação de um romance de verão e um drama político dentro da mente de um artista indeciso sobre o seu próprio lugar no mundo. No fim, ao anúncio de que a guerra começara, Martin se encontra no meio da praia, estando à sua direita um grupo de imigrantes da classe trabalhadora e militares à esquerda. Recusando lados, o artista vai em frente, para o mar, rumo ao horizonte inalcançável. Uma desistência da sociedade, um reconhecimento de que nada daquilo valeu a pena? Ou a liberdade que sempre almejara para seu indivíduo?

Martin Eden  – Itália, Alemanha, França, 2019
Direção: Pietro Marcello
Roteiro: Pietro Marcello, Maurizio Braucci
Elenco: Luca Marinelli, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato, Rinat Khismatouline, Pietro Ragusa, Aniello Arena, Lana Vlady, Jessica Cressy
Duração: 125 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.