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Crítica | Martin Eden

por Michel Gutwilen
305 views (a partir de agosto de 2020)

Enquanto o homem tiver poder sobre suas palavras, ele terá controle sobre si mesmo e, consequentemente, esta será sua única resistência contra as forças do mundo sobre ele. É isto que acredita Martin Eden (Luca Marinelli), um marinheiro sedutor que é aspirante a poeta (apesar de ter largado a escola) e sempre carrega um livro consigo. Da classe trabalhadora e com dificuldades de pagar o aluguel oferecido por seu cunhado, o protagonista passa a se aventurar em uma família burguesa ao se relacionar com Elena Orsini (Jessica Cressy), ao passo que toma palanque em reuniões socialistas.

A primeira coisa que chama atenção no longa de Pietro Marcello é o modo como ele insere na narrativa curtas sequências documentais tiradas do passado. Apesar de ser um filme sobre um homem em sua primeira camada, Martin Eden também é sobre o povo. Como um sonho delirante em que realidade e sonho se confundem, a experimentação de Marcello nos coloca na cabeça deste artista que passeia entre dois mundos: o da classe operária e da burguesia; da arte e da política. Basicamente, é quase como se estivéssemos diante de uma obra anacrônica, que com pitadas de neorrealismo, mas colorida em technicolor.

Em uma certa cena, Martin vai ao cinema com Elena e, enquanto a moça afirma ter adorado aquela história amável e esperançosa, o escritor não se impressiona, afirmando que já vira muitos contos como aquele e que há muitas outras coisas para se contar. Isso se desencadeia em uma discussão na qual Elena fala que a escrita de seu namorado é crua, sendo marcada pela tragédia e morte. Logo em seguida, ele retruca que para quem está de barriga cheia, é fácil dizer que não acredita na fome. Acho necessário transcrever todo este texto, pois ele é toda a essência de Martin Eden. Um filme que vive do conflito, tanto de classes mas também, principalmente, interno.

Neste sentido, é interessante ver como o roteiro de Marcello e Brauci trabalha principalmente o sentimento de não pertencimento por parte de seu protagonista, que cada vez vai se seduzindo pelos charmes da burguesia e pelos olhos azuis chamativos de Elena, mas, ao mesmo tempo, mantém ainda um flerte com suas origens, o que é metaforicamente representado pelo seu romance com a garçonete e a câmera sempre. 

Seguindo esta linha conflitante, ao discursar em um palanque operário, Martin fala que é a lei natural dos homens serem governados uns pelos outros e que, quando os revolucionários se organizarem em um Estado, a escravidão voltará. Similarmente, quando discute com aristocratas em um jantar, aponta que eles se autointitulam liberais, mas adotam medidas socialistas. Como um operário-artista que sempre seguiu seu próprio caminho e caiu de paraquedas na vida política, ele vai percebendo que nenhum dos dois grupos se preocupa com o indivíduo, algo que desperta uma raiva muito bem evocada por Luca Marinelli.

Por isso, pode até se dizer que Martin Eden é um filme um tanto quanto paradoxal e este que vos escreve talvez nem chegue a alguma conclusão alguma, já que sua própria ideia central é essa combinação de um romance de verão e um drama político dentro da mente de um artista indeciso sobre o seu próprio lugar no mundo. No fim, ao anúncio de que a guerra começara, Martin se encontra no meio da praia, estando à sua direita um grupo de imigrantes da classe trabalhadora e militares à esquerda. Recusando lados, o artista vai em frente, para o mar, rumo ao horizonte inalcançável. Uma desistência da sociedade, um reconhecimento de que nada daquilo valeu a pena? Ou a liberdade que sempre almejara para seu indivíduo?

Martin Eden  – Itália, Alemanha, França, 2019
Direção: Pietro Marcello
Roteiro: Pietro Marcello, Maurizio Braucci
Elenco: Luca Marinelli, Marco Leonardi, Vincenzo Nemolato, Rinat Khismatouline, Pietro Ragusa, Aniello Arena, Lana Vlady, Jessica Cressy
Duração: 125 min.

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6 comentários

Sabrina 29 de fevereiro de 2020 - 15:55

Vcs poderiam fz a crítica do filme A Trincheira Infinita sobre um espião da guerra civil espanhola que se esconde em casa por mais de 30 anos . O filme concorreu ao Goya e chegou essa semana na Netflix . Desculpe a chatice mas vcs tb poderiam dar uma olhada em A Sun e 37 Segundos filmes que chegaram este mês na Netflix .Esses dois filmes foram premiados em festivais .

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 29 de fevereiro de 2020 - 19:00

Está desculpada.

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luc 4 de março de 2020 - 16:33

podiam fazer crítica de the farewell também, fico curioso pra saber a opinião de vocês

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de março de 2020 - 16:45

Está na lista!

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Cahê Gündel 🇦🇹 29 de fevereiro de 2020 - 11:21

Gente, esse filme iria passar completamente batido pra mim não fosse a crítica da Folha que disse que era ótimo e uma reportagem da IndieWire com o Bong Joo-Hoon em que ele seleciona o diretor italiano como um dos 20 promissores. Agora vem o Michel e me dá 4 estrelas e serei obrigado a assistir hoje mesmo. Terrence Malick que espere! Depois venho aqui comentar.

PS: Acho que o filme até já saiu de cartaz, mas não vai ter crítica de “Uma Mulher Alta”? Foi o melhor que assisti esse ano até agora. 🙂

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:42

Desculpa a demora, Cahê. Gostou do filme? No meu ranking de 2020, está no meu TOP 5 do ano. Uma Mulher Alta eu fui minoria, não gostei não, acho um filme com muita vontade de ser malvadinho através de uma direção estilizada que não funcionou muito para mim. Mas já vi há meses também, não saberia lembrar de muitas coisas em detalhes para escrever uma crítica. Abs.

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