Crítica | Martin Mystère: Os Homens de Negro

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Criado por Alfredo Castelli (texto) e Giancarlo Alessandrini (desenhos), Martin Mystère estreou na Sergio Bonelli Editore em abril de 1982, e em termos de linha editoral, foi uma ponte entre a fase clássica da Bonelli, encabeçada por títulos como Tex, Zagor e Mister No, para a modernização que ganharia luz na casa italiana ao longo da década de 80 e 90, com um novo curso de histórias e propostas artísticas vindas inicialmente com os títulos Dylan Dog, Nick Raider e Nathan Never.

Martin Jacques Mystère e seu amigo inseparável, um Homem de Neandertal chamado Java, tem mesmo toda a força necessária para encabeçar a união entre dois momentos de uma grande editora. De um lago, carrega toda a disposição aventureira e pendor para encontrar-se com os mais inesperados problemas, algo que sempre marcou heróis humanos da Bonelli. Mas para além dessa relação com o meio e de uma bastante particular construção dramática do personagem (sempre em par com os valores da editora), Castelli adicionou o máximo de conceitos de um novo momento do mundo, trazendo inovações tecnológicas, misticismo, missões do tipo Indiana Jones e dezenas de conceitos acadêmicos e culturais para formar a identidade e o Universo de Martin Mystère.

Sempre resolvendo grandes enigmas dentro dos mais diversos campos do conhecimento da humanidade (e até fora dela), este chamado “detetive do impossível” é formado em Antropologia, por Harvard; em Arqueologia pela Sorbonne; em História da Arte pela Academia de Belas Artes de Florença e em Cibernética Aplicada à Linguagem pelo MIT, isso só para falar das formações oficiais e Universitárias. Ou seja, estamos diante de um homem de grande conhecimento, de grandes habilidades físicas e grande entendimento do comportamento humano, o que nos leva para a única falha dessa primeira história do herói erudito, que é a presença da personagem Maria Foteynos na trama, apresentada de maneira abrupta e, em uma elipse questionável por parte do roteirista, acaba em outro tempo do enredo, já no Egito, durante a investigação de uma pista no Templo de Luxor.

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Um encontro pouco agradável no Egito com as pessoas que há séculos escondem a verdade do mundo.

À parte a enigmática Foteynos e seu patrão que Mystère conhece tão bem (mas pelo menos aqui nós não fazemos ideia de quem seja), toda a trama corre de maneira límpida, sem didatismo ou exagero na vasta coleção de elementos históricos, culturais e antropológicos que o roteiro exibe. O primeiro destaque vai para o ritmo de contar a história, adotando uma clara linha de drama que serve como guia principal e se constrói pouco a pouco, com o objetivo de chegar a um fim preestabelecido, o que poderia ser um caos nas mãos de um roteirista menos talentoso mas que segue suavemente no texto de Castelli. Passamos de Kalabaca, uma cidadezinha da Tessália (Grécia) para uma sequência de mergulho nos Açores e daí para o nº3 da Washington Mews, em Manhattan, onde reside Martin Mystère — e cada uma dessas passagens feitas de forma orgânica e perfeitamente ligada à história central.

Outro ponto muito interessante do roteiro são as pistas parciais deixadas pelo autor e reafirmadas pelas representações visuais de Giancarlo Alessandrini, com um excelente trabalho na interação do mundo contemporâneo (nesse caso, o mundo de 1982) com os achados e artefatos das mais diversas origens, coisas como uma variação dos Bronzes de Riace, uma máscara dos índios Nootkan, uma mostra de avião primitivo de um Cargocult da Nova Zelândia e, por fim, os documentos ligados à crônica de viagem do explorador, geógrafo, escritor, cartógrafo e cádi marroquino do século XIV, Ibn Battuta, em torno do qual a grande problemática do volume se estrutura.

Bem antes de Dan Brown, os quadrinhos italianos já mostravam monumentos e documentos reais da História da humanidade sendo investigados e colocados com uma importância tal que sua divulgação poderia abalar a fé mundial e a forma como a sociedade se organiza. Logo, “é necessário um grupo de pessoas para impedir que isto aconteça“. Um grupo para manter a mentira milenar. Nesta aventura, essas pessoas são os “Homens de Negro” do título. Misto de seita e organização internacional — ao que parece muitíssimo bem financiada e com liberdade para agir de maneira onde a diplomacia poderia interferir –, os Homens de Negro têm a missão de “proteger a História” do jeito que é conhecida e do jeito que foi ensinada. Nenhum novo conhecimento, especialmente os polêmicos, como a indicação de que as pirâmides foram refúgios para guardar as relíquias do mundo durante o “dilúvio” (de água ou de fogo) ou da existência da Atlântida podem vir à tona e o processo para impedir que isso aconteça envolve a destruição de documentos, de outras pessoas ou de monumentos de inestimável valor para a humanidade (a Biblioteca de Alexandria que o diga…).

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Quando um achado arqueológico é a causa de assassinos de uma seita atrapalharem seu mergulho.

Existem muitas discussões sobre pesquisas científicas e produção de conhecimento que o texto desta graphic novel nos convida a pensar e tudo isso é colocado dentro de um processo de investigação dupla por parte de Mystère, o que nos faz admirar ainda mais a capacidade de entretenimento do roteiro, mesmo com tantas informações e variações no decorrer da saga. Esta é, definitivamente, uma das melhores estreias de novos títulos da Bonelli. Uma saga para quem tem espírito de aventureiro… mas não aquele que apenas foge de perigos e troca umas porradas ou uns tiros aqui e ali. Martin Mystère é também uma trama de investigação com inteligência e erudição em alta. Não é para todos os gostos. Mas para quem gosta de História, Geografia e Artes, para dizer o mínimo, é um prato muito cheio.

Os Grandes Enigmas de Martin Mystère, o Detetive do Impossível #1
Gli Uomini in Nero (Itália, abril de 1982)
Editora Original: Sergio Bonelli Editore
No Brasil: RGE, novembro de 1986 / Record, novembro de 1990
Roteiro: Alfredo Castelli
Arte: Giancarlo Alessandrini
Capa: Giancarlo Alessandrini
100 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.