Crítica | Marvel Comics #1000

O ano de 2019 é o ano em que a Marvel Comics comemora seus 80 anos. Há várias publicações hoje em andamento que festejam a data, inclusive uma interessantíssima cronologia em seis edições que procura remontar toda a história do Universo Marvel. No entanto, a mais ambiciosa e esperada publicação é mesmo Marvel Comics #1000, lançada no dia 28 de agosto de 2019, na linha clássica de grandes lançamentos das editoras mainstream: com muita pompa, circunstância e, principalmente, uma infinidade de capas variantes.

Mas, diferente dos dois outros marcos editoriais recentes, só que da Distinta ConcorrênciaAction Comics #1000 e Detective Comics #1000Marvel Comics #1000 não é exatamente 1000 e a própria data de fundação da editora cabe alguma discussão. Mesmo assim, no lugar de apenas reunir diversas histórias diferentes, a Marvel foi bem além, entregando uma nostálgica e ao mesmo tempo intrigante publicação.

Antes de mergulharmos na crítica, porém, vamos conversar sobre a numeração e a data, para contextualizar todo mundo.
.

80 Anos e Número 1000? 

Assim como a DC Comics não foi DC Comics desde seu começo, a Marvel Comics também não. Aliás, a Marvel Comics propriamente dita demoraria bastante para surgir – bem mais que a DC – desde que suas antecessoras começaram a lançar histórias de heróis que um dia seriam reunidos em apenas um multiverso (por mais contraditório que essa frase possa ser).

O grande nome que deu o pontapé inicial a tudo foi o lendário editor Martin Goodman que, depois da falência da editora em que trabalhava, juntou-se ao também lendário Louis Silberkleit (que viria a funda a Archie Comics) para criar a Newsstand Publications Inc., especializada em publicações pulp e que, em 1936, foi responsável pelo nascimento de Ka-Zar que só não é considerado o primeiro herói da Era de Ouro da Marvel Comics porque o formato das publicações era de livro, ou seja, um passo antes dos quadrinhos de super-heróis que viriam a mais febrilmente popular as bancas americanas em 1938, com o sucesso do Superman.

Em 1939, Goodman, então já atuando em nome de um guarda-chuva de empresas batizado de Timely Comics, colocou nas bancas, exatamente em 31 de agosto (data de capa marcando outubro, porém) a Marvel Comics #1 contendo diversas histórias em quadrinhos curtas (e uma em texto apenas), cada uma com um personagem super-heroico diferente: o Tocha Humana (versão original), o Anjo (versão original), Namor, o Cavaleiro Mascarado, Jungle Terror (a única sem super-herói) e Ka-Zar (a versão em quadrinhos da história de 1936). Como já fizera com outras publicações suas, já na edição #2 a Marvel Comics (a revista) teve seu título alterado para Marvel Mystery Comics e que, mesmo sem numeração, duraria até o #92, somente para ter o título modificado mais uma vez para Marvel Tales, que seguiria a numeração, novamente sem zerá-la, até a edição #159, em 1º de agosto de 1957.

Empresarialmente, porém, Goodman deixou de usar o “selo” Timely Comics em 1951, substituindo-o pelo da Atlas Comics, que pode ser considerada a sucessora da Timely a partir exatamente de novembro de 1951. A Marvel Comics, com esse nome mesmo, só seria criada oficialmente em 1961, como sucessora de todas as demais, fazendo referência justamente à revista Marvel Comics #1, de 31 de agosto de 1939.

Com base nessa breve história (breve mesmo, pois muito mais coisa aconteceu ao longo das décadas), é que a editora conta o ano de 2019 como seus 80 anos e usa a revista Marvel Comics em sua numeração 1000, que seria, com muita boa vontade (a licença poética é grande, garanto) a edição corrente se ela nunca tivesse parado de ser publicada. Ou seja, dá para engolir tudo de bom grado, ainda que não seja lá a coisa mais perfeita do mundo.
.

Marvel Comics #1000

A edição comemorativa dos 80 da Marvel Comics é mais do que uma compilação de histórias de escritores e artistas diferentes. São 89 páginas contendo dezenas de times criativos com historietas sempre de apenas uma página, cada uma referenciando um evento importante da editora (e de suas predecessoras) desde o ano de 1939, seja a primeira aparição de um herói como o Thunderer em 1941, a Miss América em 1943 e o Cavaleiro Negro em 1955, seja o lançamento de uma publicação importante como Strange Worlds #1 em 1958, que foi a primeira contribuição sci-fi de Jack Kirby, Conan, o Bárbaro #1 em 1970, que trouxe o Cimério de Robert E. Howard para a editora e Star Wars #1 em 1977, a primeira edição Marvel a vender mais de um milhão de cópias desde a Era de Ouro, seja o lançamento de um filme, como Howard, o Super-Herói em 1986 e Homem de Ferro em 2008 e assim por diante. Não há um padrão para as homenagens anuais, assim como não há um padrão para o que é levado para as mini-histórias, que são escritas e desenhadas nos estilos mais diferentes, até mesmo em prosa como a de Night Raven, herói introduzido em 1979 pela Marvel Comics da Inglaterra.

O primeiro ano, assim como em Marvels, é dedicado ao Tocha Humana original, o androide Jim Hammond, já que ele é considerado como o primeiro super-herói da editora, pois é o headliner da Marvel Comics #1. E é a partir já da primeira página que Al Ewing, o único roteirista que se repete diversas vezes ao longo da edição quase que funcionando como um mestre de cerimônias, começa a costurar a história dentro da homenagem. Se Marvel Comics #1000 pode ser lida “apenas” como um passeio nostálgico por toda a história da editora desde que era Timely Comics – e os leitores mais novos certamente ficarão curiosos com os vários personagens mais do que desconhecidos que são garimpados pelos autores -, ela também contém uma narrativa específica que nos introduz à Máscara da Eternidade, utilizada ao longo de milhares de anos (ela é vista no século VI, na história do Cavaleiro Negro!) por diversos personagens diferentes. Esse mistério é muito interessante e fica sempre à margem dos heróis principais, com Ewing realmente fazendo um magnífico trabalho arqueológico para reunir pontas em um semblante narrativo único espalhado em uma dúzia (ou mais) de páginas ao longo das 89 e que promete ser continuada em Marvel Comics #1001.

Ou seja, a Marvel Comics, no lugar de se contentar com uma bela e variadíssima homenagem, traz uma outra camada que inevitavelmente intrigará os leitores, mesmo que a tal máscara, no final das contas, seja revelada como algo não tão importante assim, o que espero que não aconteça. Seja como for, será interessante ver a continuação dessa costura de Ewing que conta com personagens menores como Jimmy Woo, o Cavaleiro Mascarado, Marvel Azul e Radical, além de ressuscitar e retconar os X-Men por todo o universo Marvel. Mas calma, não falo aqui dos mutantes, mas sim dos primeiros personagens a serem batizados dessa forma: três misteriosos homens que apareceram pela primeira vez em Mystic Comics #1, de 1940. Não falei que Ewing vai fundo no baú da editora?

Sobre o restante da homenagem, como toda publicação dessa natureza, há, naturalmente, altos e baixos, mas diria que os altos são mais altos do que os baixos, que nunca chegam verdadeiramente a serem ruins. Há os mais diversos tons, como humor total com o Doutor Estranho, Homem-Aranha e Deadpool (duh!), nonsense completo na homenagem à publicação paródica Crazy, de 1953, algumas histórias que são entrevistas em primeira pessoa dos mais variados personagens por um entrevistador que não aparece (Hulk e Mary Jane, por exemplo), há splash pages heroicos como o do Homem de Ferro, momentos tocantes como a página que a aborda a morte de Gwen Stacy, uma meta narrativa que introduz Wolverine na famosa história em que ele enfrenta o Hulk e Wendigo, Hércules em sua (não tão) famosa série limitada em que ele vai para o futuro e assim por diante. Diria que é impossível não apreciar grande parte do que é oferecido.

E, claro, não podemos esquecer dos autores. Assim como as histórias passeiam pelo passado da Marvel Comics, a reunião principalmente dos roteiristas é incrível. Rob Liefeld e Erik Larsen representam os anos 90, os medalhões Chris Claremont e Walt Simonson marcam sua presença, Joe Quesada e Jeph Loeb arregaçam as mangas novamente, as estrelas de Kurt Busiek, Christopher Priest, Dan Slott e Neil Gaiman brilham e isso sem contar com a tropa de choque composta pelos grande nomes modernos da editora, tais como Peter DavidJeff Lemire, J. Michael Straczynski, Mark Waid, Kurt Busiek, Kieron GillenJason Aaron, Charles Soule, Jonathan Hickman, Donny Cates, Jason Latour, Gail Simone, Kelly Thompson e Gerry Duggan. E o mesmo vale para a arte, com uma lista impressionante que conta com Alex Ross, Mike Allred, Paul Azaceta, John Cassaday, Salvador Larroca, Adam Kubert, Mike Deodato Jr., George Pérez, Lenis Francis Yu e uma infinidade de outros. Claro que, mesmo com a quantidade enorme de equipes, ainda é possível sentir falta de diversos outros muito importantes para a editora como Todd McFarlane, Frank Miller e Brian Michael Bendis, mas não se pode ter tudo, não é mesmo?

Marvel Comics #1000 é um divertimento nostálgico, uma forma de muita gente realmente começar a conhecer os recônditos mais obscuros da editora e uma inteligente maneira de se introduzir uma potencialmente interessante história nova que retcona e reúne personagens que sempre ficaram à margem dos holofotes. Que venham mais 80 anos!

Marvel Comics #1000 (Idem, EUA – 2019)
Roteiros, artes, artes-finais, cores, letras, capas: dada a natureza da obra, são dezenas e dezenas de criadores, com duas páginas inteiras de créditos na publicação. Elegi, portanto, não citar nenhum além daqueles no corpo da crítica por questões de espaço.
Editoria: Tom Brevoort, Alanna Smith, Shannon Andrews Ballesteros
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: 28 de agosto de 2019
Páginas: 89

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.