Crítica | Marvels

Quando a graphic novel Marvels é mencionada em círculos de leitores de quadrinhos, a primeira coisa que provavelmente vem à mente da maioria é a costumeiramente espetacular arte de Alex Ross, seguida de uma possível menção à “obra irmã” Reino do Amanhã, da DC Comics, de dois anos depois, pelo mesmo artista. Para mim – e essa releitura só ratificou meu raciocínio – a conexão que eu logo estabeleço é o quanto cada uma das duas obras citadas representam bem as essências de suas respectivas editoras, demonstrando que não só Ross, mas também, claro, Kurt Busiek aqui e Mark Waid na outra maravilhosa HQ, conhecem profundamente esses universos.

Se pararmos para pensar e para reduzir Marvels e Reino de Amanhã às suas bases, podemos muito facilmente concluir que a primeira minissérie, composta por quatro edições e um prelúdio publicado posteriormente, é o olhar do homem comum sobre seres incríveis, enquanto que a segunda, composta somente por quatro edições, é exatamente o contrário, ou seja, o olhar de deuses sobre os homens. Uma história encara a narrativa de baixo para cima e, a outra, de cima para baixo em uma fotografia perfeita da percepção usual das duas grandes editoras mainstream, com a DC Comics bebendo mais diretamente do panteão dos deuses das mitologias clássicas e a mais jovem Marvel Comics retirando sua fonte de inspiração do cotidiano mundano das pessoas comuns.

Não leiam em meus parágrafos acima qualquer crítica negativa sobre uma ou outra editora. Ao contrário, só tenho elogios às duas por suas pegadas diferentes, mas convergentes sobre os super-humanos que lidam, trazendo-nos histórias maravilhosas e inesquecíveis como as que inevitavelmente comparo na presente crítica (e Reino do Amanhã tem Phil Sheldon da mesma forma que Marvels tem o Superman, basta procurar!). Mas é claro que o objetivo da presente crítica é abordar Marvels, o literal olhar do homem comum sobre as maravilhas do título que vão surgindo nesse universo multi-colorido e uniformizado de heróis invencíveis que nem sempre são encarados como tais. Busiek e Ross criam o fotógrafo Phil Sheldon para ser a conexão do leitor com os super-heróis, começando em 1939 e passeando pelos grandes eventos da editora (antes mesmo de ela ser Marvel Comics) pelas décadas seguintes até os anos 70 em quatro principais edições que são quase que completamente auto-contidas, cada uma abordando um momento único na história desses quadrinhos, mas cercado de eventos menores paralelos da mesma época. É um tour de force inacreditável que reúne muita pesquisa histórica no baú editorial e uma capacidade ímpar em criar um senso de unicidade que torna a leitura não só agradável, como emocionante, por vezes até extraindo aquela lágrima furtiva.

Os quatro grandes momentos editorias abordados são (1) a luta entre Namor e o Tocha Humana original, considerado o primeiro crossover dos quadrinhos; (2) o surgimento dos X-Men; (3) a chegada de Galactus e do Surfista Prateado, conhecida mais comumente como Trilogia de Galactus e (4) a Morte de Gwen Stacy, o que cobre as três principais eras dos quadrinhos em eventos ao mesmo tempo de alcance macro e micro sem que os autores esqueçam de fazer citações e referências – em maior ou menor graus – a basicamente todos os outros grandes acontecimentos que gravitam ao redor desses quatro, como por exemplo o surgimento, morte e descongelamento do Capitão América, a formação dos Vingadores, o casamento de Reed Richards e Sue Storm, a Guerra Kree-Skrull e assim por diante. É, por assim dizer, a História do Universo Marvel contada em pouco mais de duas centenas de páginas a partir da interpretação de um homem, o que empresta um sabor muito humano a toda a abordagem.

Esse sabor, aliás, é a chave para que Marvels realmente funcione. É palpável o deslumbramento e felicidade de Phil Sheldon com a chegada das “maravilhas”, como ele chama, assim como seu medo irracional dos mutantes, chegando até mesmo a apedrejar o Homem de Gelo em uma cena angustiante e, sobretudo, a raiva que ele sente quando, ao entender a natureza dos super-heróis e tudo o que eles sacrificaram, percebe a ingratidão da Humanidade. E tudo isso em meio a uma história pessoal sobre Phil, suas ambições, seu amor, suas dúvidas sobre como proteger a família e tudo mais que uma pessoa normal em um mundo repleto de super-seres pode sentir. Busiek demonstra-se em um verdadeiro mestre em tragar o espectador para dentro de sua narrativa e, mais especificamente, para a pele de Phil Sheldon em uma gangorra psicológica genuína e avassaladora.

E, claro, há a arte de Alex Ross. O que dizer sobre ela que já não tenha sido dito antes por muita gente bem melhor do que eu? Ross é um dos grandes mestres da Nona Arte e seu trabalho em Marvels é um dos pontos altos de sua infelizmente curta carreira em arte interior (ele é, praticamente, um grande e prolífico capista). Seu realismo, casado com o texto crível e cotidiano de Busiek fazem da graphic novel o que ela é, estabelecendo um senso de fascínio pelos seres uniformizados que pipocam pelas páginas com a mesma facilidade com que consegue criar medo e pavor em relação a esses mesmos seres, bastando para isso verificar a edição #2, dedicada aos X-Men e, vale dizer, minha preferida, que adota uma tonalidade mais escura, mais ameaçadora, quase que literalmente convertendo os heróis em vilões (especialmente o ameaçador Ciclope), ou seja, passando para nós, leitores, a mesma impressão de pavor e preconceito pelo diferente que Phil e demais personagens sentem nas páginas. É como se nós fôssemos hipnotizados magicamente pelo poder de seu lápis e de sua tinta e pela sua capacidade de transformar modelos fotográficos reais em arte da mais alta qualidade.

Em termos narrativos, o único aspecto destoante é mesmo a edição #0, de apenas 12 páginas, publicada em separado e posteriormente às quatro edições principais. Diferente das demais, a narração, aqui, é a partir do androide Jimm Hammond, o Tocha Humana original, que reconta sua origem – marcando o nascimento dos super-heróis Marvel, ainda que haja reconhecimento de que ele não foi exatamente o primeiro – a partir de uma narração dele em off, seguindo expressamente a linha de um conto de terror noir gótico que explicitamente lembra o clássico Frankenstein. É uma edição belíssima que é costumeiramente inserida nos encadernados de Marvels como o começo da história, algo que eu pessoalmente desgosto justamente por ser tão diferente do que vem em seguida, quebrando a imersão. Seja como for, o conjunto da obra é excepcional demais para eu usar esse pequeno problema – e que é muito pessoal meu, reconheço – como um elemento para reduzir minha apreciação do todo.

Marvels é, sem tirar nem por, uma verdadeira maravilha. Não só é uma belíssima jornada pela história da Marvel Comics, como também uma das graphic novels mais bem sucedidas em colocar o leitor no meio da ação deslumbrante. É a visão boquiaberta de nós, do homem comum, em relação a seres ou ídolos inatingíveis que estranhamente se parecem conosco. É, arriscaria dizer, o mais real que uma HQ de super-heróis mainstream pode chegar e uma verdadeira representação física do conceito da editora da mesma maneira que sua irmã mais nova, Reino do Amanhã, é da DC Comics.

Marvels (Idem, EUA – 1994)
Contendo: Marvels #1 a 4
Roteiro: Kurt Busiek
Arte: Alex Ross
Letras: Richard Starkings
Capas: Alex Ross
Editoria: Spencer Lamm, Marcus Mclaurin
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a abril de 1994 (#1 a 4) e agosto de 1994 (#0)
Editoras no Brasil: Editora Abril, Panini Comics, Editora Salvat
Datas de publicação no Brasil: janeiro a março de 1995 (Abril), maio de 2005, abril de 2010, setembro de 2017 (Panini), novembro de 2013 (Salvat)
Páginas: 224

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.