Crítica | Mary (1931)

estrelas 1,5

Mary é a refilmagem alemã de Assassinato!, um exercício que Hitchcock  já sabia que iria enfrentar devido a um acordo entre produtores da Süd-Film e da BIP (British International Pictures), para onde trabalhava na época. Os acordos para refilmagem foram realizados pelo próprio diretor, que conseguiu fazer com que todo o elenco germânico viajasse para a Inglaterra a fim de rodar Mary nas mesmas locações que Assassinato!, algo que funcionou perfeitamente no sentido cênico. Há pouca diferença espacial entre um filme e outro, e pelo menos a decupagem-imitação é exemplar, tanto nos ângulos e planos, quanto na forma de orientação dos atores realizada por Hitchcock.

Tendo uma matriz com diversos problemas técnicos, era de se esperar que essa refilmagem não trouxesse muita alegria para o espectador, suspeita que se confirma e ainda mostra um outro lado: Mary é ainda pior que Assassinato! no quesito qualidade.

O monumental problema do filme, assim como numa boa parte das primeiras películas de Hitchcock, é a montagem. Mas não se trata apenas do ritmo ou da ligação dramática entre algumas sequências. Absolutamente todo o filme padece de erros e abusos na edição, começando pelo alucinante número de fades e culminando com um parâmetro que serve para toda a projeção: o corte das cenas de ligação. Lido sem análise, isso até pode parecer algo positivo, mas não é. Quem porventura não tivesse assistido Assassinato! e fosse assistir Mary, teria muitas dúvidas em relação a determinadas sequências, tamanha a falta de conteúdo no decorrer do filme.

Talvez por ter visto Assassinato! antes, eu tenha conseguido tolerar melhor algumas coisas, mas tenho certeza de que minha avaliação seria mais negativa se eu fosse apresentado a um filme do qual não conhecia nada e que parece ter sido feito de metades. Todas as cenas parecem picotadas e, como uma forma de fazer uma passagem espaço-temporal mais suave, o editor achou que seria sensato usar fades a perder de vista, algo que na prática cansa e chateia demasiadamente o espectador.

Diferente da história britânica, em Mary, o segredo é uma fuga da cadeia. Eu já tinha dito na minha crítica de Assassinato! que Hitchcock quis usar o motivo literário no primeiro filme (o fato do assassino ser homossexual e temer que o seu segredo fosse revelado), tentativa refeita nessa versão alemã, mas igualmente frustrada. Nas entrevistas que deu a François Truffaut, Hitchcock comentou brevemente o fato, dizendo que o ator alemão não se sentia confortável, algo que ele percebeu e acabou mudando no roteiro.

A produção de Mary, como é de se imaginar, não foi fácil. Hitchcock acreditava que falava alemão, mas descobriu da pior maneira possível que seu conhecimento do idioma não o permitia dirigir um filme confortavelmente, o que o fez cortar algumas indicações humorísticas que, segundo afirmou anos depois, funcionava muito bem para o ouvido em inglês, mas perdia toda a graça quando ditas em alemão. Creio que esse tratamento desesperado do roteiro — ainda na entrevista a Truffaut, o diretor diz que pediu para os atores improvisarem algumas falas, mas percebeu que nenhum deles sabia exatamente o que falar, parando alguns segundos desconfortáveis em frente à câmera, sem dizer nada — influenciou na péssima montagem, o que nos faz entender uma culpa dupla nessa situação.

Mary não foi a última refilmagem que Hitchcock faria de um filme seu, mas com certeza foi a sua única refilmagem falha. O filme vale mais como exercício de curiosidade e comparação, principalmente quando o espectador gosta de contar erros e rir de finalizações técnicas bizarras em algum filme, do que como experiência cinematográfica. Melhor mesmo é que não tivesse sido feito.

  • Crítica originalmente publicada em 29 de dezembro de 2013. Revisada para republicação em 29/10/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Mary – Alemanha, UK, 1931
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Alma Reville, Georg C. Klaren, Herbert Juttke (adaptado da obra de Clemence Dane e Helen Simpson)
Elenco: Alfred Abel, Olga Tschechowa, Paul Graetz, Lotte Stein, Ekkehard Arendt, John Mylong, Louis Ralph, Hermine Sterler, Fritz AlbertiElse Schünzel, Julius Brandt
Duração: 78 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.