Crítica | Mas afinal… O Que é Mesmo Documentário?, de Fernão Ramos

A pergunta, à priori, título do livro em questão, pode ser direcionada ao leitor. O que de fato define um filme como documentário? É possível realizar essa definição? Como devemos proceder na análise de um documentário? Essas e outras perguntas estão presentes direta e indiretamente, no tecido textual de Fernão Pessoa Ramos, autor que define os documentários como narrativas basicamente compostas por imagens-câmera, acompanhadas muitas vezes de imagens de animação, carregadas de ruídos, música e fala, para os quais olhamos em busca de asserções sobre o mundo que nos é exterior”, complementando que “os documentários são narrativas compostas por imagens-câmera que estabelecem asserções sobre o mundo, na medida em que haja um espectador que receba essa narrativas como asserção sobre o mundo”.

A leitura nos faz recordar bastante dos tempos de escola, quando nossos professores exibiam documentários para retratar determinados temas, tais como aborto, ditadura militar, história da língua portuguesa, a tragédia em Columbine, o fatídico assalto do ônibus 174, dentre outros. Tratados erroneamente como a “verdade absoluta” sobre determinados temas, os documentários são relativizados no texto de Fernão Ramos, pois segundo sua apurada análise, há a possibilidade de representação, o que não deixa o documentário perder as suas características enquanto gênero audiovisual, mas nos faz compreendê-los de maneira mais flexível.

Composto por um conjunto de ensaios, escritos e revisados, alguns redefinidos, entre os anos de 2006 e 2007, juntamente com alguns materiais inéditos e outros com resgate de textos escritos nos anos 1980, o livro organizado por Fernão Pessoa Ramos debate, dentre tantas questões, os documentários, categoria audiovisual repleta de imprecisões e complicada definição. Conforme delineia o autor, definir os documentários é entrar numa arena de opiniões que ora se complementam, ora entram em divergência, numa falta de consenso absurda.

Em sua primeira parte, o autor faz uma análise pormenorizada da teoria do documentário, por meio de quatro capítulos bastante elucidativos. É o momento de tentar definir o termo documentário, tarefa que por sinal, Ramos consegue driblar e atender adequadamente às demandas. Ele afirma que durante muito tempo, os documentários estiveram conectados ao entendimento de que se trata de produções marcadas pelo uso da voz over, com fonte fora de campo e informações que sabíamos apenas pelo que era exposto na tela. De acordo com seu estudo, apenas nos anos 1990, os filmes documentais ganharam uma tonalidade mais direta, com entrevistas, depoimentos, manipulação de imagens e desempenho mais participativo dos cineastas.

O método analítico do autor é buscar definir os documentários tendo como parâmetro as diferenças em relação aos filmes ficcionais, na compreensão, no entanto, da possibilidade de simbiose entre as características formais de ambos os gêneros. Para Ramos, eis algumas das características próprias dos filmes documentais: a presença de locução, entrevistas, depoimentos, utilização de imagens de arquivo, rara utilização de atores profissionais, intensidade particular da dimensão da tomada, bem como procedimentos peculiares, tais como a câmera na mão, improvisação, utilização de roteiros abertos, etc. Como sabemos, essas características podem aparecer em sua totalidade em documentários, mas também podem ser renegadas em prol do estilo próprio do cineasta, ou aproveitadas parcialmente.

Levando em consideração que um documentário pode “mentir”, o autor estabelece quatro “éticas” do documentário. A ética educativa, comum aos documentários clássicos, pode ser pensada quando um filme foca em educar o espectador sobre determinado tema, tal como descrito na ilustração sobre os documentários que assistimos na época estudantil. A ética interativa busca defender a seguinte ideia: um cineasta não deve tornar a sua relação com os entrevistados como algo implícito, ao contrário, deve deixar bem delineado que seu filme é uma construção não imparcial.

No caso da ética da imparcialidade, o contraste do conceito apresentado anteriormente, pois temos o interesse do cineasta em levar a realidade nua e crua ao espectador, havendo assim uma crença de ser possível realizar um documentário por meio do distanciamento, isto é, da imparcialidade. Por fim, a ética modesta aborda o rompimento das três éticas anteriores. Desinteressada em educar, manter postura neutra ou refletir profundamente sobre algo, busca falar de si mesma por meio de uma postura discreta, desconfiada das grandes ideologias dominantes na sociedade, consciente da sua falta de aprofundamento sobre pormenores conectados ao assunto abordado.

Com espaço para diferenciar os documentários de reportagens, propagandas e cinema experimental, bem como o docudrama, o livro segue para sua segunda parte, focada na trajetória do documentário no Brasil, tendo a criminalização do popular como um dos pontos nevrálgicos de sua análise. Segundo Fernão Ramos, o povo é um tema recorrente na história dos documentários no Brasil, apresentado de maneira problemática tanto no quesito piedade quanto nos momentos de louvor. Por meio de produções como Ônibus 174, Notícias de Uma Guerra Particular e Falcão: Meninos do Tráfico, o autor alega que esses filmes demarcam, por meio de imagens intensas da violência, da pobreza e da miséria, o “miserabilismo” das camadas populares, apresentadas numa relação de alteridade quase nunca justa.

Indo dos anos 1920 aos 1990, Fernão Ramos revela que na década de 1920 o povo era visto como algo “grotesco” a ser evitado. Nos anos 1930 aos 1950, houve variação entre a representação de tradições folclóricas e a necessidade de tirar as camadas populares da alienação, por intermédio, óbvio, da classe burguês-revolucionária. Nos anos 1980 tivemos a exaltação da cultura popular, contraste dos anos 1990, focados nos perigos da pobreza em expansão vertiginosa. Mais adiante, o autor retrata Humberto Mauro e a sua participação na história dos documentários brasileiros, fechando o ciclo na definição de cinema direto e cinema verdade, bem como na emergência do Cinema Novo. Para encerrar, o comenta do produtor Thomas Farkas na trajetória do documentário brasileiro, um membro da produção que conseguia delinear nos filmes produzidos as marcas de sua personalidade, numa espécie de relação autoral com as produções.

Mas Afinal… O Que é Mesmo Documentário? é um livro denso, mas não por nos envolver numa teia de complexidade filosófica. Os textos são grandes e nos levam para diversos caminhos da história do cinema, com imbricações sociais e políticas de grande proporção. Ao longo do livro dividido em duas partes, Fernão Pessoa Ramos vai de Eduardo Coutinho ao estadunidense Michael Moore, passeia por produções documentais de vários países, tais como Argentina, Brasil, Estados Unidos, França e Inglaterra, na busca de respostas para a sua “pergunta título”.

A sensação que temos, ao final do processo, é de mais indagações que respostas, o que torna o livro um excelente exercício reflexivos sobre os documentários, não apenas para os aqueles que caminham pelo campo da Comunicação Social, mas para pesquisadores e leigos de áreas distintas. Interessante o que em certo ponto, Fernão Ramos expõe sobre o que devemos nos atentar para saber se estamos diante de um filme documental. De acordo com a sua experiência como ensaísta e pesquisador, ele afirma que devemos observar, ao entrar no cinema ou locadora, ou então, quando sintonizamos num canal, se sabemos de antemão que o conteúdo assistido é ou não um documentário. “A intenção documentária do autor/cineasta é indexada através de mecanismos sociais diversos, direcionando a recepção”. Você, caro leitor, concorda?

Mas Afinal…O Que é Mesmo Documentário? (Brasil, 2008)
Autor: Fernão Pessoa Ramos
Editora no Brasil: SENAC
Páginas: 448

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.