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Crítica | Mate-o e Deixe Esta Cidade

por Luiz Santiago
418 views (a partir de agosto de 2020)

Existe um sentimento que nos ronda o tempo todo, um sentimento para o qual não dedicamos (propositalmente) muita atenção. Ou pelo menos a maioria de nós não dedica. Falar de morte é, para alguns, algo a ser evitado. Para outros, há o medo… não só da morte, mas de envelhecer e, em algum momento, deixar de existir — sentimento piorado pela impossibilidade de saber se há algo (ou o que há) depois da vida. Essas questões rondam a humanidade desde o início da civilização e ainda hoje nos debatemos com o mistério da morte; sofremos com a perda das pessoas que amamos e temos, como qualquer indivíduo, a certeza de que um dia chegará a nossa vez.

Nesta animação polonesa, tudo isso é levado em consideração pelo diretor Mariusz Wilczynski, que cria uma surreal narrativa sobre a perda de entes queridos e sobre o processo de envelhecer e então morrer. Seus desenhos rústicos e suas situações surreais mostram um homem desesperado, atormentado pela perda. Sua fuga dessa situação é bastante peculiar: ele cria uma cidade imaginária, onde todos aqueles que conhece ainda estão vivos. Mas como era de se esperar, a vida e a juventude também não existirão para sempre nesse lugar, e logo o espaço é invadido por criaturas, personagens do “mundo exterior”, da literatura, do imaginário cultural… e a perda novamente o alcança.

Através de situações bizarras e cenas cruas de mortes ou revezes da vida, o cineasta nos leva por uma longa viagem. O que ocorre nessa cidade imaginária é basicamente o transcorrer de uma vida, numa estrutura narrativa que não obedece muito bem o tempo, mas que é visivelmente demarcada pelas feições dos personagens, pelos lugares que eles visitam e pelas situações que servem de costura para um determinado núcleo, talvez demonstrando o quanto alguns de nós somos verdadeiros “animais do hábito”.

Diferentes técnicas de animação são utilizadas aqui, mas o desenho simples em papel é a grande marca do filme, ressaltando visualmente a dor que essas memórias trazem para o protagonista. O sentimento de abandono e aparente sonho também é intensificado pela paleta escura, majoritariamente azul, repleta de sombras. Nos momentos em que o desenho quebra esse padrão de cor, há um certo deslumbramento por parte do espectador, e através desses pontos de cores quentes, o diretor procura transmitir momentos belos e calorosos ou momentos de passagem de um estágio da vida para outro. O uso desse recurso visual para destacar o sentimento de uma vivência é um dos pontos técnicos mais interessantes de todo o longa.

A maturidade de um indivíduo em um processo de aceitação é representada aqui em Mate-o e Deixe Esta Cidade, onde figuras da vida se encontram, rememoram o passado, revivem alguns eventos desesperadores (a mulher ligando na estação de trem é um dos momentos mais tensos), sorriem, amam e enfim, já cansados, descansam. Quando o jogo começa a mudar nessa cidade imaginária, seu criador (o próprio diretor) também toma uma atitude e passa a se movimentar, a interagir de verdade com esses indivíduos, à medida que faz o seu caminho de volta. Aqui, ele percebe que não adianta se esconder. É preciso encarar a perda de frente e viver de modo a estar preparado para também sair de cena, em algum momento. Mate-o e Deixe Esta Cidade é uma animação reflexiva e com temática sombria, mas ao mesmo tempo verdadeira naquilo que toca a cada um de nós. Uma viagem interessante sobre o Universo da perda e da morte.

Mate-o e Deixe Esta Cidade (Kill It and Leave This Town) – Polônia, 2020
Direção: Mariusz Wilczynski
Roteiro: Mariusz Wilczynski, Agnieszka Scibior
Elenco: Andrzej Wajda, Maja Ostaszewska, Daniel Olbrychski, Krystyna Janda, Magdalena Cielecka, Anna Dymna, Marek Kondrat, Malgorzata Kozuchowska, Zbigniew Rybczynski, Andrzej Chyra, Anja Rubik, Krzysztof Kowalewski, Barbara Krafftówna, Irena Kwiatkowska
Duração: 88 min.

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