Crítica | Mayans M.C. -1X06: Gato/Mis

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas dos demais episódios.

Crianças mortas, seja na realidade ou na ficção, é uma das coisas mais revoltantes que alguém pode ver e Gato/Mis é um longo, torturante, mas absolutamente espetacular episódio de Mayans M.C. que trabalha essa questão da maneira mais brutal possível, fazendo com que os espectadores testemunhem o assassinato de uma criança por outra criança e, como se isso não bastasse, o uso de um bebê indefeso para montar uma cilada para seu pai. Os showrunners Kurt Sutter e Elgin James, além da roteirista Debra Moore Muñoz, merecem o prêmio de mentes doentias do ano.

E as duas crianças que mencionei nem são as únicas do episódio, já que grande parte dele lida com a volta de Leticia, a filha de Coco, trazendo uma impressionante sucessão de problemas para EZ, como se o protagonista já não estivesse enrolado até o pescoço em situações impossíveis. Todo o ritmo das sequências de ação envolvendo os dois é como uma comédia de erros mortais acontecendo em sucessão vertiginosa, com EZ tendo que pensar com velocidade para driblar todas as meias verdades que Leticia lhe passa a conta-gotas, como se matar alguém e colocá-lo no porta malas de um carro roubado fosse apenas mais uma terça-feira na vida da garota.

Em paralelo a toda a tensão construída ao redor de EZ e que, no final das contas, só aumenta a desconfiança de Bishop em relação a Coco, há interessantíssimos e improváveis momentos de conexão entre Jimenez e Felipe, algo que vem a reboque da ameça do segundo ao primeiro ao final do episódio anterior. Existe uma chance de Jimenez ter fabricado tudo isso para tentar manipular Felipe e convencê-lo da necessidade de EZ convencer Emily a delatar seu marido, mas creio que não. Os sentimentos, ali, me pareceram genuínos, uma espécie de catarse de Jimenez que rima com seu momento de pavor após ele mesmo ameaçar a família de Felipe. Parece-me medo genuíno e sua tentativa de se aproximar de Felipe é quase que um cachimbo da paz, uma tentativa de deixar evidente o quanto ambos têm uma vida complicadíssima, pesada, com Felipe já tendo sido um assassino e Jimenez tendo sofrido com seu pai alcoólatra.

É interessante notar, porém, que as sequências entre Felipe e Jimenez revelam o sobrenome do antigo parceiro de Felipe: Espina. Esse nome é falado logo no início do episódio, quando Angel pede transparência a Adelita e ela começa revelando seu verdadeiro nome,  Luisa Espina. A conexão é clara e coloca em xeque suas verdadeiras intenções, algo que Sutter e James vem fazendo desde o sequestro de Cristóbal e que, aqui, fica às escâncaras.

Afinal, Adelita é de uma frieza ímpar, alguém capaz de absolutamente qualquer coisa para conseguir o que quer e o que ela quer nós não sabemos ainda. Se a conexão do nome Espina não é suficiente, todo o plano dela para desmascarar o traidor em seu meio e, quando ela finalmente confirma suas suspeitas, a execução violenta que segue do garoto é de cortar o coração e de nos fazer ficar revoltados com a milícia anti-cartel que ela lidera. Sim, é bem verdade que Miguel já torturou e matou (inclusive uma criança incinerada, não esqueçamos disso), mas, agora, vemos uma medida extrema aplicada pelo lado que deveria ser o “bom”, o “puro”. Se a luta contra o cartel precisa empregar os mesmo métodos do inimigo, creio ser evidente que tudo que o grupo Los Olvidados representa precisa ser revisto e relativizado.

E, esfregando sal na ferida, o roteiro ainda é extremamente hábil em nos colocar diretamente ao lado e do lado de Miguel em seu resgate de seu filho no lado mexicano da fronteira. Mesmo com uma ordem de massacre engatilhada, é praticamente impossível não ficar revoltado com a cilada que Adelita arma para ele, com as drogas dentro do cobertor da criança. É um truque tão sujo, mas tão sujo, que, somado ao assassinato da criança traidora, a série nos posiciona de maneira a realmente duvidarmos de tudo o que vimos antes. Quem é mesmo o lado “menos ruim” dessa história toda, afinal?

E como a cereja no bolo que é esse absoluto inferno em que todos se encontram ao final do episódio, eis que surge Lincoln Potter (Ray McKinnon), o promotor que obsessiva e brutalmente investigou o SAMCRO em Sons of Anarchy. Seu aparecimento ali no final, naquele tom ameaçador, é o equivalente a acender um rastilho de pólvora para fazer tudo explodir ao longo dos quatro episódios finais da temporada.

Gato/Mis é um daqueles capítulos capazes de fazer o espectador sentir-se sujo, nojento mesmo por gostar tanto dele, algo especialmente complicado considerando que eu o assisti e redigi a crítica exatamente no Dia da Criança, uma ironia do destino. Chega a ser macabro o que Kurt Sutter e Elgin James fazem aqui. Mas espero que eles não parem, pois eu quero mais!

Mayans M.C. – 1X06: Gato/Mis (EUA – 09 de outubro de 2018)
Criação:  Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Félix Enríquez Alcalá
Roteiro: Debra Moore Muñoz
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.