Crítica | Mayans M.C. – 2X03: Camazotz

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O mal de escrever críticas de séries por episódio é que, por vezes, perdemos a noção do todo, especialmente quando os showrunners mantém seus planos macro razoavelmente escondidos em uma complexa teia narrativa. Camazotz deixou isso muito claro em minha mente, já que, por mais bem executado que ele seja sob o ponto de vista técnico, o roteiro de Elgin James e Jenny Lynn pareceu-me uma costura narrativa de eventos aleatórios na forma de um filler quase cômico que serviu muito mais como um intervalo para a vingança dos irmãos Reyes do que para qualquer outra coisa. Novamente, faço a ressalva: não duvido nada que tudo acabe perfeitamente encaixado quando eu tiver a chance de analisar a temporada como um todo, mas, como isso ainda não é possível, só me restar comentar o que vi e o que senti.

O aparentemente aleatório assassinato de Medina, ao final de Xaman-Ek, é o ponto central do episódio. Confesso que sequer havia percebido que o assassino era o policial que havia tentado provocar EZ momentos antes, do lado de fora do clube de motocicletas de Stockton, mas essa revelação – ou reiteração para aqueles que pescaram a informação de cara – empresta um pouco de organicidade à narrativa, ainda que não consigamos, nem de longe, sentir todo o drama que a morte significou para os grupos simplesmente por não conhecermos o morto. A revelação de que Bishop havia sido o patrocinador de Medina parece marretada goela abaixo no roteiro para tentar dar um ar mais relevante ao que aconteceu, mas tudo parece muito artificial, literalmente episódico, reiterando o caráter de filler que Camazotz tem.

Aliás, até mesmo a invocação do camazotz em si, ou seja, o “morcego da morte” da mitologia maia, pareceu-me uma invenção forçada para justificar a forma como o policial é executado ao final e não muito mais do que isso, já que algo semelhante não havia ainda acontecido. E, como se isso não bastasse, todo o planejamento da vingança ficou parecendo uma violenta comédia de erros, com direito à transformação final de Coco em um matador de mães (será que teremos uma mãe morta por ele por temporada?) e um monte de equívocos pouco característicos seguidos que destoaram demais da forma mais metódica que os Mayans sempre agiram. Afinal, estamos falando do assassinato de um policial, não de um traficante de drogas que invadiu o território do clube. As consequências são muito maiores e mais graves, o que transforma o plano (ou os planos) quase que em um pastelão. Não funcionou dramaticamente como um todo ou mesmo especificamente como iniciação de EZ no verdadeiro lado sombrio do clube.

Entrecortando o evento principal, o episódio abordou o inconformismo de Emily em ter que seguir os trâmites legais normais de uma licitação para dar continuidade aos negócios lícitos de seu marido. Desde o começo da primeira temporada ficou bastante óbvio que a primeira dama do Cartel Galindo sucumbiria à ilegalidade. Quando a temporada inaugural acabou, sua aceitação completa do que Miguel faz é clara e o caminho sem volta ficou marcado. No entanto, no lugar de continuar o processo da personagem sujando-se vagarosamente, aqui nós a vemos, por uma questão muito mais pessoal do que qualquer outra coisa, subornar uma amiga para extrair informações privilegiadas sobre o processo de licitação. A surpresa de Miguel reflete também a minha surpresa e essa queda rápida demais e por razão frívola não combinou bem com o desenvolvimento da personagem, por mais que o caminho em si seja inexorável. O mínimo que eu esperaria era que ela não se envolvesse diretamente e fizesse tudo por intermédio de alguém, mas não. Ela não só faz tudo diretamente, como à luz do dia e também por telefone. Considerando o quanto sua família é vigiada por Lincoln Potter, o que ela fez chega às raias da burrice, algo pouco característico tanto para ela quanto para a série como um todo.

Falando em Potter, seu misterioso sequestro temporário de Miguel traz uma nova camada de complicação à série. Agora, ele quer que Galindo manche a reputação de uma política mexicana patrocinada pelos LO (como o grupo Los Olvidados é chamado agora na série) que vem conseguindo sacudir beneficamente o status quo de fazendeiros em seu país, algo que é aparentemente visto pelos EUA como algo contra seus interesses. Deve haver bem mais nessa história tanto por trás dos panos quanto o que isso significa para os LO e para Miguel, pelo que a introdução de Montserrat Palomo na narrativa tem potencial, provavelmente bem mais do que a história do suborno de Emily.

A última subtrama abordada em Camazotz é a relação de Felipe com Dita. Se havia alguma dúvida de que os dois foram amantes, ela é soterrada completamente aqui, com a revelação de que ele guardara as cartas de amor de Dita, com direito até mesmo a um pedido de desculpas às cinzas de sua esposa. Não sei como exatamente essa história paralela convergirá para a principal, mas eu gosto do conceito de uma participação mais ativa de Edward James Olmos na temporada, além do eventual detalhamento de suas atividades para o Cartel Galindo sob os auspícios do pai de Miguel e o que pode ser um conflito direto com Miguel dada a ameaçadora visita de Marcus ao açougue.

Camazotz, como disse bem no começo, é um episódio tecnicamente bem feito, mas que tem, em sua trama principal, o que parece ser apenas um grande e atrapalhado filler sem maiores consequências futuras. Pode ser que esteja enganado – e provavelmente estou -, mas só o tempo dirá se o episódio é mais do que mostrou ser.

Mayans M.C. – 2X03: Camazotz (EUA – 17 de setembro de 2019)
Criação: Kurt Sutter, Elgin James
Direção: Guy Ferland
Roteiro: Elgin James, Jenny Lynn
Elenco: J.D. Pardo, Sarah Bolger, Michael Irby, Carla Baratta, Richard Cabral, Raoul Trujillo, Antonio Jaramillo, Danny Pino, Edward James Olmos, Emilio Rivera, Maurice Compte, Frankie Loyal Delgado, Joseph Raymond Lucero, Clayton Cardenas, Tony Plana, Michael Marisi Ornstein, Ray McKinnon, David Labrava, Melany Ochoa
Duração: 57 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.